Bill Murray vai abrir Cannes com gaiatice e sangue de zumbi

Bill Murray vai abrir Cannes com gaiatice e sangue de zumbi

Rodrigo Fonseca

10 de abril de 2019 | 12h41

Adam Driver e Bill Murray encaram um ataque de zumbis no novo longa-metragem do realizador americano Jim Jarsmuch: “The Dead Don’t Die” vai abrir o Festival de Cannes. 72 (vai de 14 a 25 de maio)

Rodrigo Fonseca
Ao escalar “The dead don’t die”, de Jim Jarsmuch, como o filme de abertura de sua 72ª edição, em disputa pela Palma de Ouro, o Festival de Cannes – agendado este ano de 14 a 25 de maio – abriu uma apoteose para um dos atores-fetiche do cineasta americano: Bill Murray. Ele vive Cliff, xerife de uma cidadezinha assolada por zumbis no novo longa-metragem do diretor de “Flores partidas” (2005). Chloe Sevigny e Adam Driver integram a força policial de Cliff, que vai topar com personagens abilolados vividos por Iggy Pop, Selena Gomez, Steve Buscemi, Rosie Perez, Danny Glover, Iggy Pop, Tom Waits e Caleb Landry Jones. Como o filme concorre, o júri presidido pelo diretor mexicano Alejandro González Iñarritu (“Birdman”) pode se empapuçar do terrir de Jarmusch e dar um prêmio de atuação a Murray, que teve sua trajetória nas telas do cinema e na TV celebrizada em um documentário. “The Bill Murray stories: life lessons learned from a mythical man” foi uma das sensações do BFI – London Film Festival, realizado em outubro na capital inglesa. O inusitado .doc de Tommy Avallone registra as peripécias do comediante celebrizado no papel do Dr. Peter Venkman, de “Os Caça-fantasmas” (1984). Há tentas lendas em Hollywood em torno do astro – indicado ao Oscar em 2004, por seu desempenho como um ator decadente em tour pelo Japão em “Encontros e desencontros” – que foi possível fazer um filme sobre o culto em torno dele (vendem-se velas com o rosto do ator) e sobre suas excentricidades.

“Tem coisas que você faz porque o cachê é bom e tem coisas que você faz para se divertir. E há os filmes em que você vai buscar o que existe naquela trava silenciosa que a gente dá, feito um engasgo, sempre que está em dúvida acerca dos mistérios da vida. Eu atuo nessas três frentes. E o tempo de estrada me trouxe mais prazer e conforto na hora de distinguir a importância de cada uma delas. A consciência do que você faz na Arte, com a Arte, é o que dá ao trabalho um valor transcendente, que faz as coisas permanecerem na memória das pessoas”, disse Murray ao P de Pop do Estadão no Festival de Berlim de 2018, por onde passou como integrante do time de dubladores da animação “Ilha de cachorros”, de Wes Anderson.

Há uma brincadeira em solo hollywoodiano que diz: se você quiser ter Bill Murray no elenco de um filme, espalhe sua vontade entre os amigos dele, como um boato. Vai chegar até ele. Não há outra forma de atrai-lo, pois ele não tem agente. Ele mesmo negocia seus cachês, acerta sua participação nos longas-metragens. Tem sido assim desde que ele despontou para a fama no programa humorístico “Saturday Night Live”. Em meio ao sucesso, ele virou as costas para as artimanhas óbvias do estrelato, foi estudar Filosofia e produziu um drama baseado na obra do escritor W. Somerset Maugham: “O fio da navalha” (1984). Todas essas histórias integram o .doc que Avallone fez sobre ele. Um documentário de fã sobre um ícone do riso que faz questão de ser uma exceção a tudo.

“No cinema, eu tento ficar atento às vozes autorais, aos cineastas que têm um universo próprio, como Wes Anderson, cuja obra tem um colorido fabular. Investir na fábula neste momento em que a realidade do mundo anda tão dura parece uma subversão”, disse Murray, que está no elenco do novo longa de Wes Anderson: “The French dispatch”. “Dei sorte de fazer parcerias com grandes cineastas, como Jim, Wes, Harold Ramis, Ivan Reitman. Pude aprender como é representar o que existe de mais peculiar no mundo sob o olhar deles. E o mundo não precisa só de denúncias realistas. Ele também carece de fantasias”.

Já que o papo aqui começou com base no anúncio de Jarmusch em Cannes, vale lembrar que no dia 18 de abril serão anunciados os concorrentes à Palma dourada. Dois títulos já são dados como presenças obrigatórias na disputa deste ano: “Dor e glória”, de Pedro Almodóvar, e “A hidden life”, de Terrence Malick. Fala-se muito ainda no musical “Rocketman”, de Dexter Fletcher; no thriller “Dominó”, de Brian De Palma; no drama étnico “As filhas do fogo”, de Pedro Costa; e no romance  “Les plus belles années d’une vie”, de Claude Lelouch, terceiro tomo de um ciclo iniciado com “Um homem, uma mulher”, em 1966.

Cogita-se ainda a presença de “Bacurau”, dos pernambucanos Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, e de “A vida invisível”, do cearense Karim Aïnouz, na seleção oficial. No dia 23 de abril, a Quinzena dos Realizadores anuncia suas atrações: seu filme de abertura será “Deerskin”, de Quentin Dupieux, com Jean Dujardin, e seu homenageado vai ser o mestre do terror John Carpenter, realizador de “Halloween” (1978) e outros cults. A Semana da Crítica terá o colombiano Ciro Guerra como presidente do júri. Para a seção Cannes Classics, há uma aposta numa projeção de gala de “Easy Rider” (1969), com a presença de Jack Nicholson.

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