Bill Murray na Globo, na Apple TV, no mundo

Bill Murray na Globo, na Apple TV, no mundo

Rodrigo Fonseca

29 de dezembro de 2020 | 12h03

Tem “A Vida Marinha com Steve Zissou” (2004) na Globo às 2h desta madrugada, com Luiz Carlos Persy dublando o Sr. William James Murray

RODRIGO FONSECA
Termômetro do Oscar, que em 2021 vai rolar só em 25 de abril, o site Awards Daily, de Sacha Stone, amanheceu bombardeado de reclames publicitários do doce “On The Rocks”, de Sofia Coppola, lançado pela Apple, buscando uma indicação na categoria de Melhor Coadjuvante para William James “Bill” Murray, que chegou aos 7.0 em 21 de setembro. Esta madrugada, às 2h, ele brilha na TV aberta, dublado (e muito bem) por Luiz Carlos Persy, numa sessão de “A Vida Marinha Com Steve Zissou” (2004) no “Corujão” da Globo. Inspirado em Jacques-Yves Cousteau (1910-1997), lendário oceanógrafo e documentarista francês, Steve Zissou é um lendário explorador subaquático, famoso pelos seus rompantes de temperamento e também pelos filmes que faz sobre a vida no fundo do mar. Entretanto, os últimos dias não têm sido felizes para Zissou, sobretudo em sua obsessão por um tubarão-jaguar. Além disto, Zissou precisa lidar com os boatos de que está perdendo seu talento, sem contar o súbito aparecimento de Ned Plimpton (Owen Wilson), um co-piloto que diz ser seu filho nunca visto. Em meio a todos estes problemas, Zissou se prepara para realizar seu maior épico documental, numa jornada ao lado de uma equipe de excêntricos marinheiros, entre os quais o músico Pelé dos Santos, vivido por Seu Jorge. Indicado ao Urso de Ouro em 2005, esta dramédia esbanja a autoralidade minimalista de Wes Anderson, que escalou Murray para seu novo projeto: “The French Dispatch”, ainda inédito. Era uma das apostas para Cannes, em maio, mas como o festival francês não teve como realizar sua competição de longas, a produção de Anderson foi adiada. Já Sofia, que estreou mundialmente no Festival de Nova York, optou pelo streaming.

Ao retomar a parceria com a realizadora de seu melhor trabalho, “Encontros e Desencontros” (o apaixonante “Lost In Translation”, 2003), Murray brilha na pele do playboy Felix, que busca uma reconexão com a filha, Laura (Rashida Jones), enquanto a moça investiga uma suposta traição do marido. É uma comédia dramática com muita lavação de roupa suja familiar, capaz de arrancar o que existe de mais maduro no septuagenário ator. Há dois anos, ele teve sua intimidade (ou pelo menos o pouquíssimo sabido sobre ela) abordada num documentário bem doido: “The Bill Murray stories: life lessons learned from a mythical man”. Numa aventura documental pelos EUA, o diretor Tommy Avallone corre atrás de relatos sobre o comediante celebrizado no papel do Dr. Peter Venkman, de “Os Caça-fantasmas” (1984). Há tentas lendas em Hollywood em torno do astro – indicado ao Oscar em 2004, por seu desempenho como um ator decadente em tour pelo Japão nos “Encontros…” de Sofia – que foi possível fazer um filme sobre o culto em torno dele. Vendem-se velas com o rosto dele, a celebrar todas as suas excentricidades.
“Tem coisas que você faz porque o cachê é bom e tem coisas que você faz para se divertir. E há os filmes em que você vai buscar o que existe naquela trava silenciosa que a gente dá, feito um engasgo, sempre que está em dúvida acerca dos mistérios da vida. Eu atuo nessas três frentes. E o tempo de estrada me trouxe mais prazer e conforto na hora de distinguir a importância de cada uma delas. A consciência do que você faz na Arte, com a Arte, é o que dá ao trabalho um valor transcendente, que faz as coisas permanecerem na memória das pessoas”, disse Murray ao P de Pop no Festival de Berlim de 2018, por ele onde passou como integrante do time de dubladores da animação “Ilha de cachorros”, do já citado Wes Anderson.

Sofia Coppola dirige Bill no set de “On The Rocks”

Há uma brincadeira em solo hollywoodiano que diz: se você quiser ter Bill Murray no elenco de um filme, espalhe sua vontade entre os amigos dele, como um boato. Vai chegar até ele. Não há outra forma de atrai-lo, pois ele não tem agente. Ele mesmo negocia seus cachês e acerta pessoalmente sua participação nos longas-metragens. Tem sido assim desde que ele despontou para a fama no programa humorístico “Saturday Night Live”. Em meio ao sucesso, ele virou as costas para as artimanhas óbvias do estrelato, foi estudar Filosofia e produziu um drama baseado na obra do escritor W. Somerset Maugham: “O fio da navalha” (1984). Todas essas histórias integram o .doc que Avallone fez sobre ele. Um documentário de fã sobre um ícone do riso que faz questão de ser uma exceção a tudo.
“No cinema, eu tento ficar atento às vozes autorais, aos cineastas que têm um universo próprio, como Wes Anderson, cuja obra tem um colorido fabular. Investir na fábula neste momento em que a realidade do mundo anda tão dura parece uma subversão”, disse Murray, que há 30 anos arriscou-se na direção com “Não Tenho Troco”. “Dei sorte de fazer parcerias com grandes cineastas, como Jim, Wes, Harold Ramis, Ivan Reitman. Pude aprender como é representar o que existe de mais peculiar no mundo sob o olhar deles. E o mundo não precisa só de denúncias realistas. Ele também carece de fantasias”.

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