Bigode finaliza filme sobre mestres da literatura

Bigode finaliza filme sobre mestres da literatura

Rodrigo Fonseca

15 Julho 2016 | 10h07

Lúcio e Murilo, Murilo e Lúcio – O Que Seria Deste Mundo Sem Paixão

“Lúcio e Murilo, Murilo e Lúcio – O Que Seria Deste Mundo Sem Paixão”

RODRIGO FONSECA

Nasce neste momento nas instalações do Centro Técnico do Audiovisual, o CTAv, no Rio de Janeiro, um ensaio sobre a poesia costurado a partir do congraçamento de dois artífices da transcendência literária: Murilo & Lúcio, Lúcio & Murilo (O Que Seria Deste Mundo Sem Paixão?). Com direção de Luiz Carlos Lacerda, o Bigode, o filme marca o encontro de dois grandes escritores: Lúcio Cardoso (1912-1968), autor de Crônica da Casa Assassinada, e Murilo Mendes (1901-1975), que escreveu poemas em livros como Mundo EnigmaArmando Babaioff vive Lúcio e Saulo Arcoverde interpreta Murilo. Faço uma pontinha nele, numa experiência de descoberta artística (para alguém que é crítico) no breve papel de um entrevistador. Fotografado por Alisson Prodlik, o projeto é uma união de esforços entre os produtores Daniel Catatau (da Impulso de MG) e Cavi Borges (da Cavideo de RJ) com a Matinê Filmes de Bigode, que, nesta sexta-feira, 15 de julho, completa 71 anosEm 2015, a convite do professor da UFF João Luiz Vieira, nasceu este texto sobre o cineasta para o catálogo de uma mostra:

No jubileu de ouro de uma vida a dois com o cinema, Luiz Carlos Lacerda, o Bigode, fez aquilo que mais se espera de um artista da câmera: rodou um filme. Lúcio e Murilo, Murilo e Lúcio – O Que Seria Deste Mundo Sem Paixão é a velinha de aniversário que se sopra de uma trajetória cinquentenária no risco e no rabisco da ousadia moral. Fala sobre poesia: Murilo Mendes e Lúcio Cardoso se encontram numa fantasmagoria afetiva, para reviver na Eternidade a amizade da vida carnal e a beleza da literatura. Mais do que um exercício de transdisciplinaridade com o fazer literário, este longa novo coroa saudades e celebra uma estética desenhada no vermelho do querer: querer filmar, querer sonhar, um querer que desafia hipocrisias. Na tela, a antagonista nº 1 de Mr. Lacerda é a miopia hipócrita que relega desejos e vontade à opacidade.

Não é por acaso que ele foi apelidado de “o Ettore Scola do Brasil”, por ser o cronista dos feios, sujos e malvados efeitos da batalha cotidiana contra o moralismo e toda a invisibilidade que este gera. Em sua viagem de capitão Tornado pelos mares da autoralidade, suas escolhas o levaram a um baile de novos arquétipos sociais, no qual a homoafetividade ganhou voz de fala doce, livre para falar a língua do tesão, numa filmografia afrodisíaca.  No momento em que o cinema se entrega à caretice, seus documentários entoam cânticos de louvor ao encontro entre transgressores (como o pintor Vítor Arruda ou os moradores da Casa 9 em Botafogo) e suas ficções dão mão extra de verniz nos trilhos que Lúcio Cardoso instalou no seio da literatura, a fim de conduzir as Letras nacionais ao Eldorado da invenção.

A partir de Mãos Vazias, a carreira de assistente de direção e produtor dá lugar a um exercício autoral de realizador com foco no livre arbítrio, e todo ônus e todo bônus a ele inerente. Os longas e curtas que Bigode filma rastreiam pessoas que desafiam as convenções da vida burguesa. O Princípio do Prazer é seu Vade Mecum do Direito de gozar sem culpa. Leila Diniz é sua exegese àqueles que optaram por fazer da arte o coringa no baralho da mesquinharia cotidiana, mudando o jogo do dia a dia em prol do encantamento.  For All é o trampolim para o entendimento do que há de inaudito no choque entre culturas e Viva Sapato uma cuba libre com sabor de beijo babado.

Tudo o que Bigode filma tem identidade própria: não há rigidez cartesiana, há o cogito da dúvida. Desconfio, logo filmo. Ao escarafunchar mundos que não lhe pertencem, ele vasculha frestas que escondem gemidos e sussurros, meias verdades e metáforas coxas. Tudo o que ele busca é o substantivo concreto por traz de orações sem sujeito: o substativo querer, que move tudo, como motor imóvel. Sua filosofia aristotélica põe Édipo para dançar com Jocasta pisando no pé de Laio. Sua Tebas é a imensidão de um vasto mundo que começa no Jardim Botânico, passa por Minas, visita o Nordeste e dorme em Cuba o sono dos justos. Justiça para ele é tirar o nosso cinema da inércia, na fricção de corpos e no piscar da câmera. Luz e ação.

Feliz aniversário, mestre. E lança logo o seu Introdução à Música do Sangue, exibido ano passado em Gramado, para que a gente confira a força de seu trabalho, sobretudo na direção de Ney Latorraca.