‘Big Jato’ revela o lado mais doce de Claudio Assis

‘Big Jato’ revela o lado mais doce de Claudio Assis

Rodrigo Fonseca

14 Junho 2016 | 13h15

Matheus Nachtergaele (de pé) encara dois papéis, dando o melhor de si, neste 'Amarcord' do diretor de 'Amarelo Manga'

Matheus Nachtergaele (de pé) encara dois papéis, dando o melhor de si, neste ‘Amarcord’ do diretor de ‘Amarelo Manga’

Nem tudo são farpas e desesperanças no universo talhado pelo pernambucano Cláudio Assis, o ferrabrás do cinema brasileiro, cuja língua ferina é superada pela ferocidade de suas imagens alarmistas (mas sempre poéticas, ainda que brutas). Há um lado mais doce dele chegando às telas nesta quinta-feira, com ecos de Fellini e gosto de coentro. Lírico e lúdico a ponto de evocar o clássico Amarcord (1973) em sua relação com o Tempo, Big Jato, o novo longa-metragem do diretor, atropelou o 48º Festival de Brasília, setembro passado, com a força de seu caminhão-fossa e da fotografia de Marcelo Durst. Saiu de lá com o troféu Candango de melhor filme e mais quatro prêmios, os de ator (Matheus Nachtergaele), atriz (Marcélia Cartaxo), roteiro e trilha sonora, e com o status de representar uma evolução formal dentro da obra do realizador de Amarelo Manga (2002), ao fazê-lo olhar para inquietudes que vão além das mazelas sociais.

Mais pop que os longas anteriores do cineasta, o filme segue as viagens do caminhão que lhe dá título, inspirado pelo romance homônimo do jornalista Xico Sá. Na tela, as andanças se dão pela paisagem da cidade alegórica de Peixe da Pedra. Parceiro de Assis num curta-metragem feito há quase duas décadas, Durst acompanha o cineasta neste empreitada em locações em Vila de Cimbres, Pernambuco, para dar carne a um universo de descobertas sexuais e emocionais. Em estado de graça, Nachtergaele consegue reinventar suas próprias ferramentas cênicas interpretando os irmãos Francisco e Nelson. O primeiro é um caminhoneiro bruto, com paixão pela cachaça, e o segundo, um radialista anarquista. Os dois, cada um à sua maneira, vão contribuir para o processo de amadurecimento do jovem Xico (Rafael Nicácio), filho de Francisco e sobrinho de Nelson, criado, como eles, sob o impacto dos acordes dos Betos, uma banda na moda Beatles, cujo hit é Let It Lie.

 

Espécie de fábula nordestina, Big Jato é resultado da maturação que Assis passou ao falar de modo lúdico sobre o desejo em sua obra-prima: Febre do Rato (2011). Ali ele fez uma passagem das entranhas da denúncia para o jardim da contemplação. Mas era um filme de tráfego, de transitorialidade. Aqui, estamos diante de um porto de chegada, sólido. Este novo longa dialoga com a obra de Fellini pela maneira como trança sonho e realidade num espaço narrativo imaginário atemporal – meio anos 1970, meio dias de hoje, pela presença do celular e pelas citações ao craque argentino Lionel Messi – e pela fauna de tipos exóticos. O menino Xico cresce entre versos e a vontade de beijar a morena bonita que trabalha numa loja de seu vilarejo, enquanto ajuda o pai a retirar os dejetos das fossas locais. Tudo isso é narrado com a sensualidade habitual de Assis, mas com doses fartas de mel.

Em Big Jato, ele esquadrinha um ensaio sobre lealdade, discutindo o preço de nos mantermos leais à família e a ruptura que é optar por ser leal a si mesmo e escolher crescer. E Assis cresceu (como diretor), e como…