‘Bichos’, a peça, fora do zoológico, na web

‘Bichos’, a peça, fora do zoológico, na web

Rodrigo Fonseca

03 de abril de 2020 | 10h08

Brigite Bandini assina as fotos do espetáculo “Bichos”: cena de DR sobre desejo de Lucianna Magalhães e Marcelo Matos

RODRIGO FONSECA
Dá um pulinho às 20h neste site – https://pritheatreart.wixsite.com/espetaculobichos/a-peca -, de sexta a domingo, pra conferir uma das melhores peças que passaram pelo Rio de Janeiro em 2019: “Bichos”. Em dias de 40ena, sua trupe resolveu leva-la à web, em filmagem de Renata Geraldo, num gesto louvável de inclusão. Apesar do tecido cor branco Oxalá sobre todos os corpos imolados em sua narrativa, dividida em segmentos, “Bichos” tem uma paleta em tom de coágulos derramados. Eles se derrama por toda a sua (precisa) duração de 1h e um tiquinho, pilotada por Dudu Gama. Há uma sequência lendária de “Os Imperdoáveis” (1992), de Clint Eastwood, que salta à cabeça ao fim desse espetáculo de cinco tramas autônomas e uma coda escudada pelo carisma inflamável de Fernanda Oliveira, numa exposição capaz de fintar o moralismo. Lá pelas tentas, pinta pela memória a sequência em que Will Munny do Missouri (Eastwood) aponta sua arma para Little Bill (Gene Hackman), para o tiro final. Este, apavorado diante da Morte, clama: “Eu não mereço isso”, diante de um carrasco, rápido no gatilho, cujo olhar simboliza: “Isto não tem nada a ver com merecimento”. Há um limite no qual a racionalização da Justiça não funciona mais… num limite do instinto, onde a angústia já não empareda mais as ações. É mais ou menos essa a sensação da peça escrita (em brasa) por Leonardo Gênesis, capaz de transcender preconceitos de representação do sexo, da violência e das instituições. No caso do texto, em temporada no Ziembinski, no RJ, até o dia 17, não se trata de mérito e sim de dor. Há um ponto em que a sensação do “doer” já não enreda mais o físico, a mente ou a alma de seus personagens, construídos num jogo de coloquialidade, nas rapas de um humor nervoso, numa amarelinha de vivências aparentemente cariocas, mas carregadas, na essência, de universalidade. Herbert Said ilumina tecidos de uma alvura digna do Espírito Santo, realçando, nos panos esgarçados do figurino (impecável) de Ricardo Rocha, uma maleabilidade que beira o inusitado. São músculos que se retesam sob o vetor das desatenções nossas de todo dia. Em atuação luminosa em vários papéis, Marcelo Matos, hoje um dos grandes dubladores do país, é um coringa (coringa tipo Phoenix) nesse baralho de naipes inquietos, moldando seu olhar e sua figura à cada galeria humana que Gênesis e Gama montam diante de nós, em quadros de um cotidiano onde o anormal é brisa onipresente. Matos abre a cena com (uma afiada) Aline Gomes na pele de um pai zeloso, assombrado pela morte de uma criança. Depois, Marcelo Carpenttiere e a já citada Fernanda brincam nas raias da psicanálise, num jogo sobre um assassino em pele de adorador. Matos regressa para (o apogeu da peça) um duo hilário com a Elaine May de sorriso estelar Lucianna Magalhães. Ele só se excita ao vê-la nos braços de outros; e ela só tem paz ao ouvir que ele quer ter uma criança com ela. O próprio Gênesis volta à cena para um par de situações que entram, rasgam e grudam no peito. Na primeira, ele é um cocainômano gay que deseja dividir seu prazer com o marido transformista (Matos, numa interpretação preciosa da canção “Goldfinger”, emulando Shirley Bassey) com um peguete da web (Carpenttiere, num agudo tráfego pela fragilidade, em segura atuação). Na segunda, é um músico cuja mulher (Lucianna, nas franjas do trágico, capaz de nos levar ao abismo da perplexidade) se ressente de sua falta de interesse em crescer. Na soma de tantos vértices, que flanam por feminicídio, loucura, falta de intimidade, masculinidades fraturadas e complexos de Peter Pan, surge um poliedro das humanidades que nos cercam, dia a dia. Um poliedro que se impõe pela simplicidade. Uma simplicidade capaz de abrigar uma sólida (e dolorosa) reflexão sobre os limites que vamos perdendo, que que transformam os mamíferos que sorvem leite em predadores capazes de derramar sangue. É uma agonia viagem pelas nossas desmesuras, escrita com a tinta seca da vontade de potência… muito bem escrita, aliás.
Febril, o espetáculo de Gênesis, Gama & cia. está em sua quarta temporada, esta agora online, tendo passado pelos Teatros Gonzaguinha (Centro) e Armando Gonzaga (Marechal Hermes).

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