BFI: Eryk Rocha na bandeira dois da suavidade

BFI: Eryk Rocha na bandeira dois da suavidade

Rodrigo Fonseca

02 de outubro de 2019 | 10h07


Rodrigo Fonseca
Com os dedos em riste, em sinal de “tudo joia” pra vida, um anjo da guarda de 10 anos, cujo nome é Mateus, abençoa as avenidas de uma terra sem sol por onde um São Jorge, Paulo, um taxista no empobrecido Rio de Janeiro da década de 2010, ganha seu pão e desenha sua sina em forma de filme: o suave “Breve Miragem de Sol”, de Eryk Rocha. Mateus é filho e farol de seu protagonista, vivido por Fabrício Boliveira nas raias da contenção, nas raias do mínimo, nas raias do insinuar em vez de afirmar… um Fabrício maduro, na marcha da delicadeza. Amor incondicional é o que guia a relação entre o chofer de praça e o menino, nessa produção que leva o Brasil no banco do carona para o BFI London Film Festival (com sessões na quinta e no sábado, na capital inglesa). O problema do personagem é que a fruição do amor irretrocedível da paternidade tem andado pela radial da metafísica. Os motivos: Mateus viajou para a casa dos avôs; sua mãe anda forçando Paulo a cumprir com sua parte na pensão de maneira mais assídua, para autorizar os encontros deles; e a vida, essa danada, anda no sinal vermelho pra quem vive em solo carioca.

Miguel Vassy, fiel fotógrafo de Eryk, desenha essa (nossa) geografia diluindo marcas regionais, dessaturando os excessos, pasteurizando pistas de Zona Norte e Sul, de modo a flagrar que a velha noção de Cidade Partida já não é tão demarcada quanto antes. Partidos estamos todos que aqui vivemos, sem saber que via nos leva à mais violenta das armadilhas: a segregação social. É um caminho bem parecido com o tomado por Eryk em “Campo de Jogo” (2014), porém ainda mais arguto: a geopolítica brasileira hoje planificou suas capitanias hereditárias para a microfísica do Poder. Até num táxi, passageiro se acha donatário do Rei… senhor do seu banco, de toda a viatura, do motorista que o guia. É o que demonstra o grupinho que faz sinal para o táxi de Paulo sem saber se vai para o “Baixo Bota” ou para o Jóquei. O abuso rege a forma com que eles se expressam… sempre senhoriais. Mas com Paulo não é assim: seu lado Ogum enfrenta o dragão de uma maldade que extrapola a mais-valia marxista, a maldade do “se a farinha é pouca, meu pirão vem primeiro”. Paulo flana atento e forte, como um centauro num cavalo amarelo que, na montagem de Renato Valone (um dos editores mais afeitos ao lirismo da imagem em nosso audiovisual), passeia entre a encenação e o registro documental sem curvas bruscas. Há um papo de Boliveira em que personagens “da praça”, vividos pelos áses dos palcos Xando Graça e Márcio Vito, enfileiram-se entre depoimentos de quem encara a rua “na real”. Tudo vira ator… tudo vira vivência. E, na afirmação do verbo viver, Paulo tem seu espaço para o prazer e para o carinho, no sorriso Cristo da enfermeira Karina (Barbara Colen, sempre elétrica, econômica), que o leva à ascese de uma troca sem mercantilismo, sem esperas. Uma troca que serve como analgésico para a saudade Mateus, que não chega.

Três anos após uma consagradora passagem por Cannes, da qual saiu com o troféu L’Oeil d’Or, a Palma de Ouro dos documentários, por “Cinema Novo” (2016), Eryk regressa às telas via Grã-Bretanha, levando ao festival do BFI (que começa nesta quarta, com “The Personal History of David Copperfield”, de Armando Iannucci) o que parece, à primeira vista, seu trabalho de maior serenidade… de maior leveza. Ser sereno não significa não ser crítico, não ser alarmado, não ser alarmista. Tem tudo isso em “Breve miragem de sol”: denúncia, reflexão sociológica, experimentações plásticas com a mesma febre do objeto que retrata (uma metrópole em pleno movimento), urgência. Mas, na maturidade de quem – de “Rocha que voa” (2002) para cá – esculpiu uma estética autoral própria (em evolução), essa carga combativa ganha mais (e melhor) retidão… mais elegância… mais retumbância, sobretudo na parceria de uma lâmina afiada como Boliveira. É o filme mais próximo da jam session “Jards”, pelo qual recebeu o troféu Redentor de melhor direção no Festival do Rio de 2012.

Num papo com o P de Pop, Eryk diz que “Breve miragem de sol” possui múltiplas camadas. “Entre elas, o filme fala sobre ‘violência estrutural’ sobre e a precarização do trabalho. Paulo é um trabalhador brasileiro e, a exemplo de grande parte da sociedade, ele está imerso e sufocado por esses problemas, onde as relações estão mediadas pelo dinheiro, o ‘deus dinheiro’. Estamos vivendo a überização do mundo. Paulo não é um taxista, ele ‘está taxista’. O trabalho que o oprime é ao mesmo tempo a solução provisória que permite a ele ter um dinheiro imediato para aliviar a tensão, pagar as dívidas com o filho, resolver o dia a dia. Acontece que esse corpo endurecido e cansado, que resiste, que luta, em um país colapsado como o nosso… esse corpo ama, deseja, canta, dança, sonha…”, diz Eryk, que deu ao longa-metragem um título em inglês: “Burning Night”.

Já um dos curadores do Festival de Londres, Geoff Andrew, acredita que “o histórico de Rocha com documentários garante um entrelaçamento muito eficaz de ficção e filmagem nas ruas, enquanto o trabalho de câmera e a edição dão um caráter alucinado à existência noturna de Paulo, dirigindo seu taxi. Um retrato persuasivo de uma cidade vibrante e volátil, que provoca uma variedade de experiências e humores, e de um mundo às vezes estranhamente desconhecido, tropeçando em direção a um futuro incerto.”

Este ano, o BFI exibe, aqui do Brasil, “Meu amigo Fela”, de Joel Zito Araújo; “Bacurau”, de Juliano Dornelles e Kleber Mendonça Filho; “A vida invisível de Eurídice Gusmão”, de Karim Aïnouz; “Divino amor”, de Gabriel Mascaro; e os curtas “Entre”, de Ana Carolina Marinho e Bárbara Santos; e “Primeiro ato”, de Matheus Parizi. Tem ainda “O traidor”, do italiano Marco Bellocchio, coproduzido pelos irmãos Gullane, e “Wasp Network”, do francês Olivier Assayas, da RT Features, que lá exibe também “The Lighthouse”. Ah… e tem projeção do novo filme de Fernando Meirelles: “The Two Popes”, que está super cotado para o Oscar 2020. O evento vai até 13 de outubro.

Tendências: