Bertrand Mandico no galope da liberdade

Bertrand Mandico no galope da liberdade

Rodrigo Fonseca

23 de outubro de 2021 | 10h25

Bertrand Mandico é um dos queridinhos da revista “Cahiers du Cinéma”

RODRIGO FONSECA
No calor suíço de agosto, na fervura do Festival de Locarno, um dos pilares da representação queer nas telas da Europa, o francês Bertrand Mandico, conversou com o Estadão sobre as fronteiras de gênero e de orientação sexual no cinema a partir de uma pérola, nas raias da ficção científica, da aventura e mesmo da estética da bande dessinée (HQ): “After Blue (Paraíso Imundo)”. É um dos títulos obrigatórios da 45ª Mostra de São Paulo, num mar de 265 títulos, com sessão nesta terça-feira, às 15h30, no Espaço Itaú – Frei Caneca 3 e repeteco no dia 29 (às 13h30, no Espaço Itaú Augusta) e no dia 31 (às 14h, no Cinesesc). O Prêmio Especial do Júri conquistado em Sitges, festival realizado em terras espanholas só coroa sua potência. Locarno deu a ele a láurea da Federação Internacional de Imprensa Cinematográfica (Fipresci).
“Carrego do gibi ‘Métal Hurlant’ (‘Heavy Metal’ no Brasil), quadrinho que nos revelou Moebius, Richard Corben e muitos outros talentos do desenho, pautados pela lisergia. Tem muito do quadrinho europeu no que eu faço, mas tem, sobretudo, uma necessidade de ir além dos rótulos”, disse Mandico ao ESTADÃO, sem problemas ao ser definido entre seus conterrâneos franceses tanto como “o diretor” ou como “a diretora”, assumindo-se não binário, mas avesso a etiquetas, sem incômodos com o uso de artigos definidos. “Se você perguntar como eu defino, eu digo que sou uma atriz. Performances fazem parte da vida”.
Aos 50 anos, Mandico hoje é uma das vozes autorais mais potentes do audiovisual europeu depois que um de seus filmes, “Os Garotos Selvagens”, encabeçou a lista dos melhores filmes de 2017 da Cahiers du Cinéma”. A revista, ainda encarada como bíblia para a cultura fílmica, trata Bertrand como um xodó. Desde então, sua obra explicitamente queer, carregada de erotismo em seu debate sobre o desejo, virou cult. Ele participou de Locarno ainda com o curta-metragem “Dead Flesh”. Tragando uma piteira estilizada e usando um pé de galinha como broche, Mandico conversou com o P DE POP sobre o sucesso de sua estética multicolorida, pautada pela fantasia e influenciada pelas HQs.
“Está na hora de rompermos padrões. Sou um signatário do manifesto da liberdade, rejeitando todos os rótulos, principalmente os que nos prendem ao binarismo. Regras morais não podem limitar a imaginação. Nem mesmo as regras dos gêneros cinematográficos, pelos quais tenho apreço. A própria normatização ‘filme de autor’ virou um gênero”, polemiza Mandico, que foi ovacionado nas projeções de “After Blue (Paraíso Imundo)” em Locarno.

“After Blue (Paraíso Imundo)” será exibido na Mostra de São Paulo nesta terça

Revelado como cineasta em 1998, ao lançar o curta “Le Cavalier Bleu”, Mandico dialoga com as cartilhas das narrativas fantásticas na história do planeta After Blue. É um mundo paralelo que abriga habitantes da Terra num futuro distópico, onde, segundo suas personagens, “só quem tem ovário sobrevive”. Nesse microcosmos de plantas fálicas, onde só há mulheres – à exceção de um cego, cujo órgão sexual virou uma série de tentáculos -, a jovem Roxy (Paula Luna Breitenfelder) e sua mãe, a cabelereira Zora (Elina Löwensohn), caçam uma espécie de djin (uma criatura mítica que transforma vontades em realidade, como o Gênio da Lâmpada de Aladdin) chamada Kate Bush. O que se vê em cena é um faroeste metafísico misturado com “O Senhor dos Anéis”, mas com um visual que lembra “Duna” de David Lynch.

Há um achado da Berlinale nesta Mostra é “Luz Natural”, de Dénes Nagy, da Hungria, que tem sessão neste sábado, às 18h20, Espaço Itaú da Augusta, e neste domingo, às 16h15, Espaço Itaú da Frei Caneca. Ganhador do Urso de Prata de melhor direção na Berlinale. Há tempos, talvez desde “Na Neblina” (2012), de Sergey Loznitsa, não se via uma incursão tão visceral aos fronts da II Guerra, mais preocupada em mapear o estado de coisas daquele instante da História do que em cartografar horrores. Não é um filme sobre o Holocausto, é um filme sobre a vivência do combate, do ponto de vista do estrangeirismo, da falta de pertença, da desconexão dos combatentes com o terreno que estão lutando para proteger, a mando de uma ideologia política.
Mais conhecido por seu trabalho como documentarista, Dénes Nagy estreia na ficção levando de suas experiências com as narrativas do Real um olhar geográfico para entender o quanto o espaço afeta conjugação do verbo “viver” em contextos de tensão. Há violência, há medo, mas há, sobretudo, incertezas acerca do que virá para os personagens. Municiado de um dado histórico – em 1943, húngaros foram convocados para lutar na URSS ocupada -, o cineasta mergulha nas fossas do Império Soviético, num inverno de plena aspereza, para tentar mapear, de um ponto de vista distanciado, o que (e como) se viveu ali. Importa menos a jornada que ele narra e mais o ambiente físico e, à certa medida, moral, onde ela se passa, para possibilitar à plateia uma chance rara de espatifar a imagem da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) hoje cristalizadas em nosso imaginário.
A Mostra segue até o dia 3.

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