Berliner, sobrenome de excelência documental

Berliner, sobrenome de excelência documental

Rodrigo Fonseca

20 de novembro de 2020 | 12h53

Roberto Berliner soma em sua carreira filmes pautados pela música, pela inclusão social e pela inquietação

Rodrigo Fonseca
Micareta documental, o seminário Na Real_Virtual veste, na noite desta sexta, o abadá da inclusão de pessoas marcadas por adversidades físicas, sem desafinar no solfejo da esperança, ao receber o realizador Roberto Berliner. Ele concorreu ao prêmio do É Tudo Verdade 2020 com “Os Quatro Paralamas”, dirigido em dobradinha com Paschoal Samora. Mas sua longeva carreira vai além do B-Rock, exercitando-se ainda pelas veredas da ficção, onde ele alcançou prestígio ao conquistar o Grande Prêmio do Júri do Festival de Tóquio, em 2015, com “Nise: O Coração da Loucura”. Este drama estrelado por Glória Pires foi laureado ainda com o troféu Redentor do júri popular da Première Brasil. RB fez ainda a hilária comédia “Julio Sumiu”, em 2014, com Lilia Cabral, baseada na prosa de Beto Silva. Mas é no documentário que o sobrenome Berliner virou uma fagulha capaz de incendiar um rico debate sobre métodos de escuta e engenharias de montagem. “A Pessoa É Para O Que Nasce” – centrado na trajetória de três irmãs cegas cuja profissão é cantar e tocar ganzá – servirá de motor de arranque para a conversa deste 20/11/2020 no simpósio produzido por Márcio Blanco. O papo ocorre na URL da Imaginário Digital, produtora do evento, no https://imaginariodigital.org.br/real-virtual/parte-2.
“Profissionalmente, ‘A Pessoa É Para O Que Nasce’ foi um momento de mudança radical pra mim. Quando comecei a fazer o filme – que demorou sete anos pra ficar pronto -, ainda fazia publicidade e, muitas vezes, o contraste entre o excesso da propaganda e a ausência de tudo no documentário com as ceguinhas, era muito forte”, lembra Berliner em conversa com o P de Pop. “Foi durante esse processo que eu fui parando com a propaganda pra me dedicar mais aos projetos pessoais. A sabedoria das três é espantosa e eu acho que elas me deixaram claro que a minha turma era mais do real”.

Curadores do seminário que virou uma espécie de coqueluche entre .docófilos de todo o país, Bebeto Abrantes e Carlos Alberto Mattos elogiam, a uma só voz, a pluralidade cinematográfica do convidado deste 20/11. “Robertinho Berliner nos dá o ar de sua graça e de seu olhar acurado desde os anos 1980. Nessa época, a rapaziada que se apropriava das primeiras câmeras de vídeo para realizar suas produções e trabalhos audiovisuais, eram chamadas de videomakers. Robertinho era um deles e já despontava”, lembra Bebeto. “Em, 1990, fiz com o curador Marcello Dantas, pela produtora Magnetoscópio, um evento que lembra o nosso NA REAL_VIRTUAL, chamado QUASE NADA É VERDADE. Estavam lá, naquele elenco de diretores participantes, Eduardo Coutinho, Marcelo Machado, Marcelo Tas e outros como Belisario Franca, João Moreira Salles e o próprio Berliner, que, agora, 30 anos depois, fazem parte desse grupo luxuoso de diretores do nosso seminário online, em suas Partes 1 e 2. Ou seja, Robertinho, já foi videomaker, documentarista, mas, na verdade, no fundo… e por que não na superfície?… é um HOMEM (um bicho) IMAGEM/SOM. Sua obra transita da ficção, aos seus registros pessoais e familiares, aos muitos e marcantes videoclipes e, para voltarmos ao nosso território base, Robertinho, com sua alma e atividade de documentarista já fez obras únicas, como o trabalho deflagrador do encontro de hoje: ‘A pessoa é para o que nasce’”.

Cena de “A Pessoa É Para o Que Nasce”, ganhador do prêmio de melhor filme do Cine Ceará 2005

Autor do seminal “Sete Faces de Eduardo Coutinho”, Mattos destaca a relevância do longa ganhador do prêmio de melhor filme no Cine Ceará de 2005, centrado na rotina das irmãs cegas. “Haveria muitos eixos para explorarmos a presença de Roberto Berliner no seminário. O interesse pela música, pedra fundamental de sua carreira, seria um deles. Mas foi justamente a música que acabou levando-o a se relacionar com personagens especiais como as cantoras cegas de Campina Grande e o roqueiro Herbert Vianna, que ficou paraplégico após um grave acidente”, diz Mattos, um dos decanos da crítica no país. “Berliner tem o pendor para tratar esse tipo de personagem com delicadeza, mas sem paternalismo”.
No frigir das inquietações documentais do país, Abrantes e Mattos têm agendadas ainda conversas com Adirley Queirós, Claudia Priscilla, Evaldo Mocarzel, Joel Zito Araújo, Kiko Goifman, Sandra Werneck e Walter Salles. Esses papos rolam sempre às 19h, às segundas, quartas e sextas. Valem a atenção, o estudo, o aplauso e um lugar de honra na História, a do nosso cinema, por ser uma reação e uma proposição em um tempo de doença (em múltiplos níveis). Cada conversa é um curso de em si.

p.s.: Terminam na terça-feira as inscrições para o projeto gratuito Brasis por Escrever, criado pelos autores e diretores cariocas Cecilia Ripoll e Diogo Liberano na busca por encontros e trocas com autores de outras partes do Brasil. As pessoas nascidas na região Norte e residentes no Amapá terão prazo prorrogado até o dia 1º de dezembro. O projeto reunirá os orientadores com seis participantes para encontros semanais durante seis meses, nos quais serão realizados estudos e criações de novas dramaturgias. A ideia partiu das perguntas: “Como um texto teatral pode se relacionar com a história recente do Brasil?” “Como uma dramaturgia pode responder aos acontecimentos públicos da vida social em cidades brasileiras?” Serão selecionadas: uma pessoa nascida e residente na região Centro-Oeste do Brasil; duas na região Nordeste; duas na região Norte; e uma nascida-residente na região Sul. O projeto não oferecerá vagas para pessoas nascidas e residentes na Região Sudeste do Brasil, tendo em vista ser a região de origem dos criadores do projeto. O regulamento completo e a ficha de inscrição estão disponíveis em www.p-l-a-t-o.com e os selecionados serão divulgados no dia 9 de dezembro.

p.s.2: Entre as opções obrigatórias deste fim de semana no Festival Varilux, vale correr atrás das sessões de “Persona Non Grata”, de Roschdy Zem. No RJ, no sábado, às 17h45, tem projeção dele no Estação Botafogo, e tem exibição dele na segunda, às 16h30, no Estação Net Ipanema. O ator e realizador do memorável “Chocolate” (2016) faz neste feérico thriller uma releitura do cult brasileiro “O Invasor” (2001), de Beto Brant, assumindo o papel de Anísio (aqui chamado Moïse), celebrizado por Paulo Miklos no longa original, escrito por Marçal Aquino. Moïse é um assassino que se livra de um dos sócios dos donos de uma empreiteira, Maxime (Raphaël Personnaz) e Montero (Nicolas Duvauchelle, em brilhante atuação). Outra atração imperdível é “Slalom”, de Charlène Favier, que será exibido no Estação Casal Barra Point, nesta segunda, às 17h15. Com a fotografia mais sofisticada deste Varilux, colecionando tons de azul e vermelho para traduzir os estados de espírito de sua protagonista, este estudo sobre a microfísica do Poder, segundo Foucault, segue os ritos de passagem de uma jovem atleta de esqui na neve (Noée Abita) às voltas com as obsessões e os desrespeitos de seu instrutor, o ex-campeão Fred (Jérémie Renier).

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