Berlinale: Jérémie Renier num voo de ‘Albatroz’

Berlinale: Jérémie Renier num voo de ‘Albatroz’

Rodrigo Fonseca

03 de março de 2021 | 09h15

RODRIGO FONSECA
Muso dos irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne, para os quais imolou todas a sua criatividade em interpretações magistrais (e hiper realistas) em “A Criança” (Palma de Ouro de 2005) e “O Garoto da Bicicleta” (2011), o belga Jérémie Renier – um dos mais badalados astros do Velho Mundo – desponta como favorito ao Urso de Prata de melhor interpretação no Festival de Berlim de 2021 por “Albatros”. Chamado “Drift Away” fora dos mercados francófonos, o novo e doído longa-metragem de Xavier Beauvois (do aclamado “Homens e Deuses”) traz Renier como Laurent, um policial de uma pequena cidade da Normandia cujos sonhos são dragados depois que ele mata, acidentalmente, um fazendeiro suicida que tentava deter. O sujeito queria se matar com uma espingarda e Laurent atirou em sua perna para impedi-lo. Mas o tiro atingiu uma artéria e o sujeito não resistiu. Esse tiro faz com que Laurent seja investigado por colegas e oficiais que sempre admiraram sua conduta ética ilibada. Essa investigação ameaça destruir sua vida em família com a filha e a namorada, com quem sonha se casar.
“Xavier é um diretor que não se atém ao roteiro, abrindo espaço para o improviso, filmando na continuidade em que as ações se passam com o personagem, na trama. Ele me ofereceu um personagem que me encantou. Passei meses pesquisando numa delegacia, para entender como os policiais se comportam”, diz Renier ao Estadão, em entrevista via Zoom. “A magia do cinema é fazer o espectador compartilhar aquilo por que um personagem está passando, sem muitos detalhes”.
Filmes de François Ozon (“O Amante Duplo” e “Potiche – Esposa Troféu”), de Olivier Assayas (“Horas de Verão”) e de Pablo Trapero (“Elefante Branco”) deram a Renier uma fama global. Ao largo de todo o prestígio que adquiriu atuando (bem), ele é também respeitado por sua porção cineasta. Em 2018, ele veio ao Brasil, no Festival Varilux, para promover “Carnívoras”, que dirigiu ao lado do irmão, Yannick. “Não sofri muito dirigindo”, brinca Renier, hoje com 40 anos.

Prejudicado por uma certa aspereza técnica em seu roteiro, travado em sequências nas quais deveria fluir de maneira azeitada, “Carnívoras” exerce seu fascínio sempre que seus diretores – Yannick e Jérémie – deixam a palavra de lado e se lambuzam na estética do fotógrafo Georges Lechaptois. Um corpo moreno que afunda numa banheira de água azulíssima, um roçar de rostos femininos que encenam a relação entre um cavalo e sua tratadora, ou um ritual pagão a céu aberto: são algumas das sequências em que Lechaptois pesa a mão nas cores. Ele acentua a temperatura e a pressão de uma narrativa que ganha mais solidez quando aposta numa abordagem sensorial, na sinestesia pura. A trama, em si, tenta (e nem sempre consegue) dar timbres inusitados à melodia ordinária do dia a dia: duas irmãs, de temperamentos distintos, diferentes também no quesito sorte, vão estabelecer um processo de (re)aproximação e de transferência quase doentia. Mona (a ótima Leïla Bekhti, de “Astrágalo”) é frustrada em sua trajetória como atriz, sendo obrigada a ajudar sua maninha mais nova, Samia (Zita Hanrot), esta sim uma estrela, a administrar seu cotidiano. O que sobra em Samia falta a Mona. E essa percepção vai gerar entre elas, ambas fãs da arte de representar, uma tragédia grega, feita à moda da Bélgica, num híbrido de drama e suspense, sobre fraternidade, produzido (não por acaso) por dois irmãos: os já citados Dardenne.
“Dirigir me deu a medida da disponibilidade, de tudo, que um ator precisa oferecer a um cineasta”, disse Renier. “Eu gosto muito de diversidade e procuro trabalhar com cineastas diferentes para que sigam me oferecendo variedade”.

“Bad Luck Banging or Loony Porn” (“Babardeala cu bucluc sau porno balamuc”)

Ainda acerca da Berlinale, na competição oficial, até agora, “Albatros” tem dois grandes rivais. De um lado, o da doçura e da dor, está o libanês “Memory Box”, do casal Joana Hadjithomas e Khalil Joreige. Do outro lado, o da ironia, está a comédia romena “Bad Luck Banging or Loony Porn” (“Babardeala cu bucluc sau porno balamuc”), de Radu Jude. O primeiro revisita o Líbano do início dos anos 1980, em meio a uma guerra. Essa revisita se dá a partir da ótica de uma adolescente que está descobrindo o mundo com a ajuda do rock’n’roll, de parques de diversão, de beijos na boca. A tocante narrativa é contada em dois tempos, com base nas vivências de uma mulher chamada Maia, inspirada em lembranças pessoais da própria Joana. No filme, Maia mora há anos no Canadá, com a filha, evitando recordar o que viveu em sua terra natal. Mas ao receber uma caixa com antigos pertences de sua juventude, ela vai revirar um baú de mágoas e tentar impedir que o Ontem destrone o Presente. O segundo é um conto moral sobre a hipocrisia, em três atos, segundo o segundo – e mais genial – segmento construído como uma colagem de “videocassetadas” ligadas ao comportamento sexual e a pornografias políticas. O mote é o pedido de “cancelamento” de uma professora que teve um vídeo erótico (de uma transa com seu marido) vazada na web. A partir desse vazamento, ela passa a ser acusada por todos, o que deflagra um ácido ensaio sobre a cultura do ódio nas redes sociais.

Nas mostras paralelas, um dos principais achados desta Berlinale foi “Copilot” (“Die Welt wird eine andere sein”), de Anne Zohra Berrached: A realizadora de “24 Semanas” (2016) regressa à Berlim pelo Panorama, com a história de dois jovens, Asli (Canan Kir) e Saeed (Roger Azar), que se casam em segredo, gerando cumplicidade eterna em uma mesquita de Hamburgo. Mas depois que ele desaparece, a vida de Asli desmorona, não apenas por dilemas afetivos, mas por um segredo que pode abalar o mundo todo. Outra sensação é o estilizado thriller de terror “The Scary of Sixty-First”, de Dasha Nekrasova, uma homenagem ao giallo italiano em que os fantasmas das vítimas do pedófilo Jeffrey Epstein (financista acusado de abuso sexual) são parte das assombrações em torno de um trio de mulheres.

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