Berlinale consagra a grife M. Night Shyamalan

Berlinale consagra a grife M. Night Shyamalan

Rodrigo Fonseca

19 de outubro de 2021 | 13h59

Shyamalan vai presidir o júri do Urso de Ouro no 72º Festival de Berlim – ©Bryan Bedder – Getty Images for Universal Pictures

Rodrigo Fonseca
Em meio à celebração do cinema de gênero em todos os grandes festivais do planeta, a julgar pela vitória de “Titane” em Cannes, a escolha de M. Night Shyamalan para presidir o júri da 72ª edição da Berlinale (agendada de 10 a 20 de fevereiro) é uma celebração de uma mudança histórica que acena com maior prestígio para o suspense, o terror e a sci-fi, filões em que o realizador é rei. Atualmente envolvido com o projeto “Knock at the Cabin”, previsto para ser lançado em fevereiro de 2023, o cineasta indiano, nascido Manoj Nelliyattu Shyamalan celebra os frutos comerciais de seu mais recente longa-metragem: “Tempo” (“Old”), uma produção de US$ 18 milhões. Seu faturamento beirou US$ 90 milhões, apesar das intempéries da pandemia sobre o circuito. As cifras altas são provas de que o realizador de 51 anos ainda é capaz de mexer com a curiosidade e o medo das plateias.

Lançado no Brasil em julho, “Tempo” confirma toda a potência do realizador de “O Sexto Sentindo” (fenômeno popular em 1999, quando arrecadou US$ 672 milhões). Ele rodou essa trama sobre os efeitos do envelhecimento na República Dominicana, com base em graphic novel franco-suíça da dupla Pierre-Oscar Levy e Frederik Peeters, chamada “Château de Sable”, traduzida em português como “Castelo de areia”, pela Tordesilhas.

“Tempo” arrecadou US$ 90 milhões nas bilheterias

Na tensíssima trama protagonizada por Gael García Bernal e Vicky Krieps, um grupo de turistas encara uma assustadora mutação em uma praia paradisíaca que altera a aparência de quem está ali, tornando as pessoas beeeem mais velhas, acelerando a decrepitude de corpos. Cogita-se que o novo thriller de terror do cineasta – estrelado ainda por Eliza Scanlen, Thomasin McKenzie, Alex Wolff, Rufus Sewell, Embeth Davidtz, Nikki Amuka-Bird, Ken Leung e Emun Elliott – possa se tornar um dos fenômenos do ano na venda de ingressos, mesmo sob o fantasma da covid-19 esvaziando o circuito. É uma narrativa de virada, que ferve no banho-maria do medo, até explodir numa virada que nos surpreende ao converter o que parece ser mera ação do “extraordinário” ao nosso redor em um plano vilanesco. Suas primeiras imagens ilustram o quando o diretor é capaz de se reinventar, reforçando a potência do fotógrafo Mike Gioulakis, num balé de movimentos, por vezes bruscos. Balé que aproveita a força trágica de Vicky Krieps para dar estofo a uma personagem assombrada por fantasmas de culpa e de finitude.

Reinvenção é uma arte na qual M. Night Shyamalan é um mestre. Depois de ter caído em desgraça com o injustiçado “A Dama na Água” (2006), ele amargou uma década de rejeições até se recriar a partir da televisão, com um seriado com aura de cult “Wayward Pines” (2015), com Matt Dillon, redescobrindo o prazer de filmar com baixíssimo orçamento e total liberdade. Foi essa a sua realidade em “A Visita” (2015), um exercício autoralíssimo da carpintaria do assombro, com o qual ele redescobriu as manhas do terror a partir das quais havia despontado para o estrelato, com o já citado “O Sexto Sentido” que custou US$ 40 milhões e faturou US$ 672 milhões. De volta às veredas do medo, onde lançou-se como grife, na plenitude de sua potência estética, ele se reencontrou e recuperou a tarimba de abocanhar gordas bilheterias, com um soberbo trabalho díptico: “Fragmentado” (2017) e “Vidro” (2019). Os dois vieram carregados de elogios, a maioria voltados para a condução febril do enredo sobre um sujeito com 23 personalidades que sequestra três moças e acaba atraindo as atenções de um vilão chamado Sr. Vidro (Samuel L. Jackson).

A medida de seu sucesso se dá em números: esses seus dois últimos longas arrecadaram um total de meio bilhão de dólares, juntos: US$ 548 milhões. Ecos de “Psicose” (1960) trovejam narrativa adentro, fazendo justiça à comparação entre Shyamalan e a práxis cinemática de Hitchcock, no que envolve a opção por sugerir em vez de escancarar, de criar clima ao invés de apelar para um grafismo pornográfico da violência. Viradas de roteiro – o trunfo de seus primeiros filmes – ficaram para trás. É na imagem que ele encontra o diferencial de narrativa e de sedução, como sugere o trailer de “Tempo”.

Há uma frase seminal em “O sexto sentido”, mais sútil e lúdica do que o desabafo que o celebrizou (“I see dead people!”), na qual se aprende: “Na vida, algumas magias podem ser reais”. Nos últimos 20 anos, período no qual estabeleceu-se como um dos realizadores mais ousados de Hollywood, mesmo quando a Meca do cinemão o esnobou, Shyamalan – nascido em Mahé, Pondicherry, na Índia, em 1970 – nunca abriu mão da crença no mágico, no fantástico, no ilusório. Até “Sinais” (2002), com Mel Gibson, a fantasia tinha lugar encantador em sua filmografia. Depois de “A vila” (2004), sua obra-prima, ilusão passou a simbolizar opressão em seu autoralíssimo cinema, de uma carpintaria que sempre se apegou a sutileza. Não por acaso, seu olhar passou a gravitar para o suspense. Em Shyamalan, tempo é incerteza. Mas “Tempo”, o filme, é uma iguaria. Das mais saborosas.

Com o anúncio de Shyamalan, o mercado cinematográfico se agita acerca da Berlinale, convulsivo acerca de uma série de especulações sobre os seguintes concorrentes:
“MUSIK”, DE ANGELA SCHANELEC (Alemanha): Três anos depois de conquistar o prêmio de melhor direção no próprio Festival de Berlim por “Eu Estava Em Casa, Mas…” (2019), a realizadora alemã volta ao evento com um drama regado a Complexo de Édipo. Na trama, um rapaz germânico criado por uma família adotiva na Grécia mata um sujeito sem saber que este é seu pai biológico. Na prisão, ele viverá uma história de amor com uma agente penitenciária mais velha, sem saber que esta é sua mãe verdadeira.
“SUBTRACTION”, DE MANI HAGHIGHI (Irã): O maior bamba do humor no cinema iraniano aposta em uma narrativa de mistério para falar de conterrâneos que tentam escapar das censuras de seu regime político.
“FEU”, DE CLAIRE DENIS (França): A diretora de “Bastardos” (2013) põe Juliette Binoche num dilema amoroso entre um amor maduro do passado e um querer jovial do presente. Vincent Lindon integra o elenco.
“PALOMA”, DE MARCELO GOMES (Brasil): O realizador de “Joaquim” (2017) pode voltar ao festival que sempre o acolhe para narrar a luta de uma mulher trans para se casar na igreja, à moda antiga, em um rincão machista do Nordeste.
“LES PASSAGERS DE LA NUIT”, DE MIKHAËL HERS (França): O realizador de “Amanda” (2018) dá a Charlotte Gainsbourg o papel de uma mãe de família que, abandonada pelo marido, vira radialista e adota uma jovem como sua protegida, passando por uma reeducação sentimental.
“THE OCCUPIED CITY”, DE STEVE MCQUEEN (Inglaterra): Um estudo documental do diretor de “Small Axe” sobre a ocupação dos nazistas na Holanda, a partir de uma pesquisa arquitetônica.
“THE WAY OF THE WIND”, DE TERENCE MALICK (EUA): Apoiado num elenco monumental (Matthias Schoenaerts, Mathieu Kassovitz, Aidan Turner, Mark Rylance, Ben Kingsley), o realizador de “A Árvore da Vida” (2011) investiga a vida de Cristo por ângulos inusitados.

“Feu”, de Claire Denis

Estima-se ainda uma exibição hors-concours do sombrio “THE BATMAN”, de Matt Reeves. Uma vez que Berlim fechou sua programação de 2017 com “Logan”, de James Mangold, seria bem provável vermos Robert Pattinson emprestando todo o seu carisma ao jovem Bruce Wayne numa Gotham doentia, assombrada pelo gângster Oswald Cobblepot, o Pinguim, confiado a Colin Farrell, e um psicopata cheio de enigmas apelidado de Charada (Paul Dano). O trailer lançado no sábado, na DC Fandome, é de arrepiar.

p.s.: Fenômeno nos palcos a partir de sua estreia, em 2011, confirmando o ator Charles Fricks como uma grife de invenção na representação do silêncio e da dor no teatro brasileiro, a peça “O Filho Eterno” nasceu de um romance homônimo, um dos mais populares da literatura nacional no século XXI, laureado com o troféu Jabuti e mais sete prêmios, com direito a honrarias no exterior, como a láurea Charles Brisset, da Association Française de Psychiatrie. Seu autor, o catarinense de Lages radicado no Paraná Cristovão Tezza virou uma máquina de escrever (e de colecionar elogios por sua prosa), tendo publicado recentemente “A Tensão Superficial do Tempo”, pela Editora Todavia. Há cinco anos, suas experiências pessoais transformadas em livro ganharam o cinema: “O Filho Eterno” foi adaptado pelo diretor Paulo Machline, sob os auspícios do produtor Rodrigo Teixeira (de “Me Chame Pelo Seu Nome”). Nesta madrugada, o tocante longa-metragem de 2016 vai ser exibido no Corujão I, às 2h50. Confeccionado sob a grife da RT Features (a produtora brasileira de maior visibilidade hoje em solo internacional, com sucessos como “O Farol” e “A Vida Invisível”), o filme põe um inspirado Marcos Veras fora do que, até então, era seu habitat natural: o humor. É ele quem vive o alter ego de Tezza.

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