Berlinale 2020: uma promessa de excelência

Berlinale 2020: uma promessa de excelência

Rodrigo Fonseca

29 de janeiro de 2020 | 09h52

“Todos os mortos” concorre ao Urso de Ouro (@fotos de divulgação de Hélène Louvart)

Rodrigo Fonseca
Tem muito cinéfilo boquiaberto com a seleção competitiva montada por Mariette Rissenbeek e Carlo Chatrian para a 70ª edição da Berlinale, agendada de 20 de fevereiro a 1º de março, no rastro do novíssimo (e provocativo) de cinema feito hoje no Brasil, com Marco Dutra e Caetano Gotardo em concurso, com uma reflexão sobre a condição histórica da mulher em nossa sociedade patriarcal: “Todos os mortos”. É um filme que ataca o racismo institucionalizado, ao rever fantasmas de uma família na São Paulo de 1899. Um filme com fôlego para brilhar: seu parto vai se dar em meio a uma seleção de fazer inveja a Cannes e a Veneza. E faz tempo que uma frase dessas não pode ser aplicada ao festival germânico, a ser inaugurado com o ensaio sobre o universo literário “My Salinger Year”, produção canadense com a atriz Sigourney Weaver, dirigida por Philippe Falardeau, em projeção hors-concours. Este ano tem espaço de sobra para o cinema autoral indie dos EUA, com um titã como Abel Ferrara (cujo novo longa, “Sibéria”, dá seguimento à investigação existencial de seu recente “Tommaso”), e uma estrela ascendente da inquietação, com o Kelly Reichardt. A diretora de “O atalho” (2010) e “Antiga alegria” (2006) foi jurada na Croisette, em 2019, e regressa agora, via Alemanha, com “First Cow”, a seu universo particular: o faroeste. Fora isso, veremos um desfile de estrelas (Javier Bradem, Laura Linney, Salma Hayek e Elle Fanning) em “The Roads Not Taken”, da inglesa Sally Potter, uma realizadora que anda em fase de reinvenção. E é um glória ver uma maratona audiovisual que já laureou Godard, Costa-Gavras e os irmãos Taviani acolher um mestre como Philippe Garrel, que empresta seu preto e branco ao Berlinale Palast com “O sal das lágrimas”. E como não celebrar a presença de três vozes da Ásia que desafiam convenções, como o cambojano Rithy Pahn, o sul-coreano Hong Sangsoo e o taiwanês Tsai Ming-Liang. De quebra, Mariette e Chatrian ainda recebem o novo trabalho do maior cineasta alemão do momento: Christian Petzold, revendo a História de seu país. No terreno do português, fora o filme de Dutra e Gotardo, e mais uma penca de produções brasileiros, o evento vai exibir as séries brasileiras “Desalma”, de Ana Paula Maia, e “Onde está meu coração”, de George Moura e Sergio Goldenberg, projeto da grife Globoplay. E isso num ano em que a Pixar vai estrear, por lá, sua nova animação: “Dois Irmãos: Uma jornada fantástica” (“Onward”), de Don Scanlon.
“Trabalho com Caetano há 20 anos. A gente se conheceu na faculdade, em 1999, mas é a primeira vez que a gente codirige e é a primeira vez que a gente vai à Berlinale com um filme. É um ano com vários filmes brasileiros e várias coproduções com o Brasil”, diz Dutra.

“Nosso filme faz parte de um cenário brasileiro de produção muito forte, que tem ganhado presença importante no mundo”, diz Gotardo.

“Dois irmãos” (“Onward”): Pixar na Berlinale

Nos dois últimos anos de sua (bela) gestão, Dieter Kosslick que comandava a festa vinha derrapando numa certa sisudez e num esnobismo antipop. Só em 2017, quando teve o brilhante filme do Congo “Félicité”, pilotado pelo senegalês Alain Gomis, vimos uma seleta tão brilhante no perímetro do Sony Center. Espera-se que, agora, o Urso de Ouro volte a ter o relevo que merece, com a ousadia de deixar a Netflix de fora de sua disputa oficial.

“The Roads Not Taken”, de Sally Potter

Competição
“First Cow”, de Kelly Reichardt (EUA)
“Berlin Alexanderplatz”, de Burhan Qurbani (Alemanha)
“Schwesterlein” (“My Little Sister”), de Stéphanie Chuat e Véronique Reymond (Suíça)
“Siberia”, de Abel Ferrara (EUA)
“Le Sel des Larmes”, de Philippe Garrel (França)
“The roads not taken”, de Sally Potter (Reino Unido)
“Undine”, de Christian Petzold (Alemanha)
“The Woman Who Ran”, de Hong Sangsoo (Coreia do Sul)
“El prófugo”, de Natalia Meta (Argentina)
“Favolacce (Bad Tales)”, de Damiano & Fabio D‘Innocenzo (Itália)
“Effacer l’historique”, de Benoît Delépine e Gustave Kervern (França)
“Todos os mortos”, de Marco Dutra e Caetano Gotardo (Brasil)

“DAU. Natasha”, de Ilya Khrzhanovskiy e Jekaterina Oertel (Ucrânia)

“Sheytan vojud nadarad” (“There Is No Evil”), de Mohammad Rasoulof (Irã)
“Irradiés” (“Irridiated”), de Rithy Pahn (Camboja)
“Never rarely sometimes always”, de Eliza Hittman (EUA)
“Rizi (Days)”, de Tsai Ming-liang (Taiwan)
“Volevo nascondermi”, de Giorgio Diritti (Itália)
Berlinale Special
“Dois Irmãos: Uma jornada fantástica” (“Onward”), de Don Scanlon (EUA)
“Curveball”, de Johannes Naber (Holanda)

“DAU. Degeneratsia”, de Ilya Khrzhanovskiy e Ilya Permyakov (Ucrânia)

“Speer Goes to Hollywood”, de Vanessa Lapa (Israel)

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.