‘Berlin Alexanderplatz’ a caminho das telas

‘Berlin Alexanderplatz’ a caminho das telas

Rodrigo Fonseca

25 de janeiro de 2021 | 09h10

Welket Bungué estrela “Berlin Alexanderplatz”

RODRIGO FONSECA
Num pente fino das estreias previstas para o circuito brasileiro nas próximas semanas, uma joia do audiovisual alemão contemporâneo atrai para si todos os radares cinéfilos, dada a potência plástica de sua narrativa: “Berlim Alexanderplatz” está agendado para estrear na primeira semana de fevereiro, a julgar pelo calendário da Ingresso.Com. Burhan Qurbani é quem assina a direção desta releitura do romance homônimo de Alfred Döblin (1878-1957), transformado em série de TV por Rainer Werner Fassbinder (1945-1982), em 1980. Sua projeção na Berlinale, há cerca de um ano, na caça ao Urso de Ouro, foi um dos momentos mais emocionantes da maratona cinéfila germânica, em especial pela catártica interpretação de Welket Bungué. Este ator de 32 anos, vindo da Guiné-Bissau, foi visto por cá, antes, em “Joaquim” (2017), de Marcelo Gomes.
“Entendi desde muito novo o que é ser periférico e sempre tive a necessidade de contas as milhas próprias histórias, dirigindo curtas e atuando em projetos onde pudesse haver uma série de trocas com realizadoras e realizadores de muitas línguas”, disse Bungué ao P de Pop em Berlim, logo após a projeção do longa, com três horas de duração que voam na tela.
“É difícil se livrar do Diabo depois que a gente deixa ele entrar”, comenta-se, em uma cena do filme de Qurbani, cineasta alemão de origem afegã num indicativo do clima mefistofélico que cerca o imigrante Franz, papel de Bungué. Avesso a toques invasivos em seu corpo e sua alma, ele negocia a alma em sua jornada em prol de se afirmar não como um corpo estranho em um país estrangeiro, mas como parte da geografia de uma Europa ainda xenófoba. Fausto desterritoralizado, ele negocia seu espírito com o crime em nome do desejo de legitimação pelo dinheiro, a ponto de gritar “Eu tenho nome alemão!” para seus adversários, em um meio ambiente hostil de prostituição, lotado de chefões do crime e policiais intolerantes. Radiografia moral de uma Alemanha de caixa dois, de uma brutalidade institucionalizada, o périplo de Franz pelas franjas do delito se impõe como espetáculo cinematográfico pela força de sua edição de som. “Existem muitas línguas mescladas nessa história, com proeminência para o alemão, mas com a percepção de quem estamos em um território de sotaques dos mais diversos, o que me levou a um trabalho delicado de depuração de som, capaz de acentuar a sensorialidade do ambiente”, disse Qurbani ao Estadão, no Berlinale Palast.

Na homilia da solidão rezada pelo cineasta no longa, Franz cruza com um Mefisto de beira de rua… Reinhold (vivido magneticamente por Albrecht Schuch)… cuja função é arrebanhar novos bandidos para seus chefes. Há entre eles uma tensão sexual homoafetiva que evoca o Fassbinder de “Querelle” (1982), só que numa luxúria engasgada. É que o coração de Franz vai ser assaltado mesmo por mulheres, como a cafetina Eva (Annabelle Mandeng) e a prostituta de luxo Mieze (Jella Haase). Esta o salva de um acidente convertido em cicatrizes profundas. Mas algo em Franz não permite que ele se afaste de Reinhold, mesmo quando este começa a enxergar Mieze como um empecilho. São querências incompatíveis. São sexos em polos opostos numa cidade capaz de abraçar todas as desinências verbais dos verbos “querer”. “É um mundo onde o desejo é soberano”, diz Qurbani, que chamou a atenção da Europa, há dez anos, com “Shahada”.

p.s.: A Zeta Filmes vai lançar neste fim de semana no Brasil o poderoso “Perfil De Uma Mulher” (“Yokogao”), exibido na competição de Locarno em 2019, ampliando o prestígio autoral de Koji Fukada (“Harmonium”) como realizador. Na trama, Ichiko (a brilhante Mariko Tsutsui) é enfermeira particular e há anos cuida da matriarca da família Oisho. Ela os considera como se fossem sua própria família. Ela é também confidente da jovem Motoko, a filha mais velha dos Oisho, que também sonha em trabalhar com enfermagem. A vida tranquila e rotineira de Ichiko começa a mudar quando a irmã mais nova de Motoko desaparece. Logo a mídia e as investigações da polícia revelam que o sequestrador é o sobrinho de Ichiko. Mas essa confusão é só parte dos conflitos que vão avassalar o dia a dia da protagonista que, numa exótica relação com um cabelereiro, sugere um comportamento estranho, que vai ser explorado por Fukada ao longo da narrativa.

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