Berlim no soluço de Denis Ménochet

Berlim no soluço de Denis Ménochet

Rodrigo Fonseca

10 de fevereiro de 2022 | 11h32

Aos 45 anos, o ator francês estrela o longa de abertura da 72. Berlinale, pilotado por François Ozon

Rodrigo Fonseca
Ao fim da projeção de gala de “Peter von Kant”, esta noite, na capital alemã, selando com pompas de oficialidade o início do 72. Festival de Berlim, a carreira do ator francês Denis Ménochet há de galgar patamares de prestígio que só os divos do cinema de seu país conheceram. Aos 45 anos, ele encarna o personagem título do tributo em forma de filme que François Ozon dedica ao diretor e dramaturgo germânico Rainer Werner Fassbinder (1945-1982). Duas décadas depois de sacudir a Berlinale com o delicioso “8 Mulheres” (fenômeno de bilheteria), Ozon volta ao evento com uma releitura de “As Lágrimas Amargas de Petra von Kant”, peça teatral escrita por Fassbinder em 1971 e filmada por ele mesmo em 1972. No longa original, Margit Carstensen era Petra, uma estilista de renome apaixonada por Karin, interpretada por Hanna Schygulla (a diva de Rainer Werner), e consolada por sua secretária, Marlene (Irm Hermann). Agora, em cena, Ménochet é um diretor de prestígio e Isabelle Adjani é uma de suas estrelas. Mas o coração dele será devastado pela chegada de um rapaz que parece não valorizar seu amor.

“François é o capitão do navio e nos conduz com retidão”, disse Ménochet em referência a seu trabalho recorrente com Ozon, com quem filmou o recente “Graças a Deus”, laureado com o Grande Prêmio do Júri na Berlinale de 2019.

Recém-saído dos sets de “As Bestas”, o novo filme do espanhol Rodrigo Sorogoyen, Ménochet se consolida, a cada novo longa, como um dos mais potentes atores da França na atualidade, embora tenha iniciado sua fama pelas mãos de Quentin Tarantino. Foi como Monsieur LaPadite, fazendeiro que escondia judeus dos nazistas em “Bastardos Inglórios” (2009), que ele despertou o interesse de cineastas de outras nacionalidades a quem ele emprestou seu talento. Na Inglaterra, Ridley Scott e Stepher Frears convocaram ele para ele atuar: com o diretor de “Blade Runner” ele fez “Robin Hood”, em 2010; e sob o comando do realizador de “Ligações perigosas”, Denis apareceu em “Programado para vencer”. Em 2018, filmou com o brasileiro José Padilha, que arrancou dele uma elogiada atuação em “7 Dias em Entebbe”, na pele de um piloto da Air France às voltas com terroristas. Porém, foi um estreante que deu a Ménochet seu melhor personagem até hoje (até Peter von Kant): o febril “Custódia”, que entrou em cartaz no Brasil há quatro anos. Foi o primeiro longa rodado por Xavier Legrand e deu a ele o Leão de Prata de Melhor Diretor e o troféu de Melhor Primeiro Filme no Festival de Veneza de 2017.

Ali, na história de um casamento despedaçado, o tom desesperado que Ménochet costuma apresentar em cena, no olhar, vem mesclado a uma brutalidade de dar medo.
“Tudo o que um ator pode fazer de bom vem do que está nos roteiros. O script deste filme era impressionante. E isso somado a horas de conversa com o diretor faz muita diferença no resultado final. Sobretudo para quem encara o silêncio, na introspecção, como uma forma de escuta”, explicou Ménochet num papo por email ao P de Pop. “O melhor filme da vida de qualquer um é feito das boas memórias que guardamos das trocas que fazemos a cada novo trabalho”.

Laureado ainda com o prêmio do júri popular no Festival de San Sebastián, na Espanha, “Jusqu’à la garde” (título original do longa de Legrand) foi o mais elogiado dos 20 longas trazidos ao Brasil pelo Varilux – nossa maratona anual de filmes franceses inéditos – em sua edição de junho de 2018. Sua trama narra o processo de enfurecimento de um pai de família, o brucutu Antoine Besson (vivido por Ménochet), depois que sua mulher, Miriam (Léa Drucker), pede a separação. A dificuldade para poder encontrar e se relacionar com seus filhos gera loucura e violência, retratadas numa narrativa sufocante, que extrai tensão de cada um de seus 93 minutos. Ménochet encarna Antoine como se fosse um leão ferido: seu modo de amar é bestial, possessivo.

“Atuar é ser fiel às circunstâncias que um filme nos oferece e àquilo que um papel impõe”, disse Ménochet na coletiva da Berlinale.

Criado na Inglaterra nos anos 1980, no auge da cultura pop de língua inglesa, Ménochet preservou seu olhar sobre o cinema de seu país, no qual a destaca a diversidade de gêneros como a principal característica. Ao fim da coletiva, o sempre político Ozon, a seu lado, fez jus à sua fama de rodar um longa por ano e prometeu já ter um novo projeto na manga: “Tem coisa nova vindo, sim, e prometo ser diferente”, disse o diretor.

Mesmo sem poder arrancar um ursinho sequer do diretor indiano M. Night Shyamalan, que preside o júri de longas-metragens da 72ª Berlinale, o Brasil pode vencer a competição de curtas-metragens do evento com “Manhã de Domingo”, de Bruno Ribeiro, que passou na Mostra de Tiradentes. Aliás, o cearense Karim Aïnouz, realizador de “A Vida Invisível” (2019), é um dos jurados de Shyamalan. Ainda sobre Berlim… nós, do Brasil, teremos um destaque lá, na seção Panorama, com “Fogaréu”, longa da goiana Flávia Neves. É uma trama na fronteira entre o real e o fantástico, entre o passado colonial e a modernidade avassaladora do agronegócio, onde a cidade de Goiás é palco do encontro entre a jovem Fernanda (Bárbara Colen) e suas secretas raízes. Vai haver ainda uma exibição no Berlinale Market Selects da (divertida) série “Filhas De Eva”, de Adriana Falcão, Jô Abdu, Martha Mendonça e Nelito Fernandes, da TV Globo. Estamos também na sessão Fórum, com “O dente do dragão”, de Rafael Castanheira Parrode, e com “Mato Seco em Chamas”, de Adirley Queirós e Joana Pimenta. Já na seção Generation, foi selecionado o longa “My Fathers’s Truck”, uma coprodução Vietnã/EUA dirigida pelo brasileiro Maurício Osaki. Trata-se de uma expansão do curta do mesmo diretor, “O Caminhão de meu Pai”, que foi exibido no Festival de Berlim 2013. O longa é um road movie pelas estradas do Vietnã que retrata um difícil contato entre pai e filha. Vai ter também a instalação “Se Hace Camino Al Andar”, de Paula Gaitán.

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