Berlim ‘hace el camino’ de Paula Gaitán

Berlim ‘hace el camino’ de Paula Gaitán

Rodrigo Fonseca

12 de fevereiro de 2022 | 11h17

A colombiana Paula Gaitán leva poesia à Berlinale com suas reflexões sobre o Tempo

RODRIGO FONSECA
Prestes a fazer barulho em terras germânicas, por vias e veias brasileiras, com “Três Tigres Tristes”, de Gustavo Vinagre, e com “Mato Seco em Chamas”, de Joana Pimenta e Adirley Queirós, o cinema sul-americana impõe sua vitalidade na 72. Berlinale apoiado em um novo experimento com a grife Paula Gaitán. Um par de anos depois de ter deslumbrado a Berlinale com “Luz nos Trópicos”, a realizadora e artista visual colombiana que encontrou lar e argamassa de trabalho em nosso país regressar à Alemanha assegurando sua multidisciplinaridade – e sua potência poética plural – no audiovisual. A realizadora de filmes seminais como “Uaka” (1988) e “Exilados do Vulcão” (2013) reafirma seus laços com o Festival de Berlim pela mostra Forum Expanded, com um experimento chamado “Se Hace Camino al Andar”. Não há como escutar o título de seu novo exercício autoral sem pensar no poeta modernista espanhol Antonio Machado (1875-1939) e seu verso mais famoso: “Caminhante, não há caminho, o caminho se faz ao caminhar”. Não há como se debruçar sobre qualquer imagem de Paula sem uma remissão direta à tradição lírica das Américas, em especial a de natureza política. Expoente do continente nas artes visuais, ela se debruça aqui sobre tempo, espaço, deslocamento e ancestralidade do gesto de mover(-se).
“É uma experiência cinematográfica em tempos de incerteza, em momentos efêmeros, mas também de novas descobertas e resistência. Nele, um homem caminha numa paisagem que se modificou no decorrer do tempo. No passado, era a terra sagrada da nação indígena Bororo, de Mato Grosso. Atualmente, ela foi convertida em uma extensão de monocultura de soja. Um verde hipotônico invade o quadro, a perder de vista”, explica Paula.

“Se Hace Camino Al Andar”

Em uma recente entrevista ao site português C7nema, quando “Se Have Camino Al Andar” estava em produção, a cineasta afirmou:
“Algo que tem me interessado muito ultimamente é o tempo das coisas, o tempo que existe no preparo do alimento, como no caso de um plano da (indígena) Kanu Kuikuro preparando um beiju, carregando a lenha para fazer o fogo onde ela vai preparar o beiju, colocar a farinha de mandioca, e, lentamente, preparar esse alimento, que é a base do alimento junto com o peixe no alto Xingu, do povo Kuikuro. Essa memória do tempo das coisas, que está sendo esquecida, é um registro. É o testemunho de uma História do Mundo que talvez esteja sendo esquecida e que faz parte de uma memória do corpo. Acho que o cinema me interessa justamente por isso. Como materializar a partir de imagens essa memória do mundo? Apenas um recorte, um olhar específico que é o meu. Um olhar entre tantos, num mundo em que as imagens são cada vez mais velozes e passam inadvertidas e morrem rapidamente. As imagens desvanecem numa espécie de limbo cósmico imagético. Viram partículas em um mundo do povoado de imagens, que sobrevoam o planeta, em HDs gigantes. Numa realidade onde as imagens não nos pertencem, há um mundo explodindo, das mais diversas formas, e estamos mergulhados nesse labirinto infinito, assim como mostrava ‘Zabriskie Point’, um filme premonitório, do Antonioni”, disse ela, que cita uma frase do coreógrafo americano Merce Cunningham (1919-2009) como metáfora para o dispositivo observacional aplicado a seu ensaio sobre o real trazido agora ao Festival de Berlim. “Merce dizia: ‘Even the simple way of walking of a person I observe on the streets can trigger ideas for a choreography’. Efetivamente, para ele, o simples fato de caminhar era muito importante nas suas coreografias. Meus filmes têm uma proximidade com coreografia, têm uma lógica de movimento. Há corpos em espaços/palcos abertos. Há uma construção de narrativas a partir dos seus deslocamentos espaciais/ temporais. ‘Se Hace Camino al Andar’ propõe um estado de coisas, em sua complexidade, a partir da repetição de gestos no ato de caminhar, criando distorções, sincronismos e ritmos diversos. O filme propõe uma reflexão a partir desse percurso, evocando contradições entre natureza, cultura, vida e morte”.

O que Paula faz, nesse novo projeto, é um filme com duração de 35 minutos que, em forma de instalação, ficará em loop.

“Dentro da minha experiência cinematográfica, com imagens em movimento, o que tem me interessado mais é justamente entender o tempo das imagens, desde as mais fragmentadas, explodindo em partículas e criando uma nova temporalidade, em contraponto a imagens com tempos expandidos, prolongados. Quando fui convidada para participar da seleção oficial do Forum Expanded, na Berlinale, a curadoria me propôs de exibi-lo num lugar público, de alta mobilidade o que me interessou enormemente. Seria um desafio, uma vez que a obra interage de uma maneira nova com o público, ampliando as possibilidades da visão e da escuta numa outra escala, com a circulação constante dos pedestres. O filme ‘Se Hacer Camino…’ conta com a colaboração de outros artistas que admiro enormemente como Paulo Nazareth – seu protagonista -, a Ava Rocha – na composição da trilha sonora -, o Pedro Urano – na direção de fotografia, e o Diogo Hayashi, na direção de arte”, explica Gaitán.
Em meio à pandemia, Paula não parou, além de “Se Hace Camino al Andar”, ela finalizou o belo “Ostinato”, um ensaio poético sobre os feitos do músico e ator Arrigo Barnabé exibido na Mostra de Tiradentes de 2021, onde ela foi homenageada pelo conjunto de sua carreira. Mas mesmo criando a todo vapor, ela sente a ressaca da covid-19.
“Foram dois anos terríveis, de muitas incertezas, de perdas coletivas e individuais, que impuseram alguns desafios e novas conexões e descobertas. Tive a sorte de ter alguns filmes que estavam no processo de montagem e finalização nesse período, o que me exigiu muita concentração e foco, uma vez que eram projetos que eu estava editando pessoalmente, na minha ilha de edição”, diz a diretora. “Realizei alguns projetos novos, como ‘Ostinato’, documentário com Arrigo Barnabé, e ‘Se Hace Camino al Andar’, e, atualmente, trabalho num projeto que estou filmando aos poucos com o diretor americano Ken Jacobs. Também foram realizadas algumas retrospectivas dos meus filmes na nova Cinemateca de Bogotá em 2021, no Sheffield Film Festival na Inglaterra e no Frontera SUR no Chile. Agora participo do Forum Expanded e, nos próximos seis meses, vou fazer uma residência no DAAD Artists-in-Berlin Program. Penso que estamos em processo de reinvenção de novos processos criativos, que exigem muita persistência e imaginação. E também coragem… sem dúvida”.

Cena de “Rabiye Kurnaz vs. George W. Bush”

Na manhã deste sábado, a Berlinale teve a chance de conferir a força do cinema alemão moderno, com toda a elegância de sei academicismo: o misto de drama e thriller judicial “Rabiye Kurnaz vs. George W. Bush”. Nele, o diretor Andreas Dresen bota a plateia no bolso à força de uma personagem que lembra Regina Casé em “Que Horas Ela Volta?” (2015): a mãe devotada a Rabiye. De origem turca, ela revira o governo alemão de baixo pra cima a fim de buscar a ajuda necessária para libertar seu filho de Guantanamo, onde foi preso injustamente logo após o 11 de Setembro. Meltem Kaptan é a atriz que vive Rabiye, esbanjando doçura e humor, mas sem abrir mão do som e da fúria inerentes ao instinto materno. Ela dispara aqui na lista de apostas para prêmios, ainda que o filme seja bastante convencional em sua narrativa, lembrando um bocado “Philomena” (2013), de Stephen Frears. Até agora, do que se viu na competição, os dois longas mais possantes vieram da França: “Avec Amour et Acharnement”, de Claire Denis, que faz um tratado dos afetos na era da covid; e “Peter von Kant”, de François Ozon, que presta um tributo ao diretor e dramaturgo alemão Rainer Werner Fassbinder. Uma virada pode surgir hoje, vinda dos EUA, com “Call Jane”, de Phyllis Nagy, com Elizabeth Banks e Sigourney Weaver às voltas com uma liga de apoio a mulheres na América machista dos anos 1969. Terça a disputa chega ao fim e o júri presidido por M. Night Shyamalan aponta seus eleitos.

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