Berlim faz jus a seu legado, com menu de iguarias

Berlim faz jus a seu legado, com menu de iguarias

Rodrigo Fonseca

02 de março de 2021 | 12h56

RODRIGO FONSECA
Escrito em parceria com o xamã dos yanomami Davi Kopenawa, focado em estratégias de resistência dos povos originários, “A Última Floresta”, de Luiz Bolognesi, vai levar o Brasil à mostra Panorama da 71ª Berlinale – onde temos ainda Paula Gaitán e a instalação “Se Hace Camino Al Andar” – nesta quarta-feira, colocando em ebulição um caldo estético que está em fervura desde segunda-feira. Estima-se que o Urso de Ouro pode ficar com a francesa Céline Sciamma, por “Petite Maman”, ou com o astro hispano-alemão Daniel Brühl, que debuta como cineasta com “Next Door”. Mas são especulações, pois nenhum deles foi exibido ainda. Entre os concorrentes apresentados, o maior alvoroço veio da História libanesa, revisitada com fina delicadeza em “Memory Box”, de Joana Hadjithomas e Khalil Joreige. Já se ouve um prematuro “Já ganhou!” em torno desse novo trabalho do casal de cineastas responsável pelo cult “Je Veux Voir” (2008). A partir de experiências afetivas da própria Joana, os dois criam uma figura feminina singular: Maia, encarnada por Rim Turkhi na idade adulta, e por Manal Issa em sua mocidade. Ela não quer mais saber do que se passou em sua mocidade, em Beirute, agora que mora no Canadá, com a filha. Mas a chegada de uma caixa de souvernir, enviada por uma conterrânea libanesa, vai levar o Ontem de volta a seu Hoje. A partir de uma montagem elétrica, com vinhetas, ela vai voltar ao momento em que adolesceu, descobrindo o mundo com a ajuda do rock’n’roll, de parques de diversão, de beijos na boca, mas também de tiros, de bombas e de sacrifícios. Confrontos armados também estão em “Természetes Fény” (“Natural Light”), de Dénes Nagy, um dos candidatos da Hungria ao Urso – o outro é “Rengeteg – Mindenhol Látlak” (ou “Forest – I See You Everywhere”), ainda não exibido. Sua estonteante fotografia recria a URSS ocupada, em 1943, do ponto de vista de soldados húngaros.

MOON, 66 QUESTIONS, de Jacqueline Lentzou: uma joia da Grécia

As demais batucadas dessa Berlinale:
COPILOT (“Die Welt wird eine andere sein”), de Anne Zohra Berrached: A realizadora de “24 Semanas” (2016) regressa à Berlim pelo Panorama, com a história de dois jovens, Asli (Canan Kir) e Saeed (Roger Azar), que se casam em segredo, gerando cumplicidade eterna em uma mesquita de Hamburgo. Mas depois que ele desaparece, a vida de Asli desmorona, não apenas por dilemas afetivos, mas por um segredo que pode abalar o mundo todo.

NOUS, de Alice Diop: De origem senegalesa, a realizadora de “A Morte de Danton” (2011) e “O Plantão” (2016) cria um mosaico documental riquíssimo sobre a engenharia da exclusão na França a partir das pessoas com que cruza ao longo de uma linha ferroviária que corta Paris de norte a sul.

HYGIÈNE SOCIALE, de Denis Côté: Queridinho da Berlinale, o cineasta canadense volta ao evento com a história de um dândi que tinha tudo para ser um escritor, mas usa suas palavras com pólvora em vez de poesia. A história desse sujeito, Antonin (Maxim Gaudette) é narrada pelo diretor de “Vic + Flo Viram Um Urso” (2013) como um estudo das meias verdades que nos acossam.

A distopia “Night Raiders”, do Canadá

TIDES, de Tim Fehlbaum: Um “Waterworld” germânico, cheio de ação, na moda das distopias. Produzida por Roland Emmerich (“Independence Day”), esta aula de ficção científica mostra uma Terra ilhada por marés gigantescas que comprometem a busca pela sobrevivência. Uma jovem astronauta (Nora Arnezeder, impecável) fará de tudo para sobreviver e salvar uma massa de miseráveis enquanto lida com um segredo.

NIGHT RIDERS, de Danis Goulet: Nesta distopia à moda canadense, a ex-programadora do TIFF – Toronto Film Festival e diretora de curtas como “Barefoot” (2012) nos leva a um futuro no qual as crianças são isoladas de seus país e tratadas como propriedade estatal, sendo manipuladas. Para proteger sua filha, Niska (Elle-Máijá Tailfeathers) acaba se unindo a uma organização secreta, ao mesmo tempo em que sua menina desenvolve poderes. É um “X-Men” indigenista de altíssimo requinte nos enquadramentos.

MOON, 66 QUESTIONS, de Jacqueline Lentzou: A prolífica curta-metragista ateniense estreia nos longas com uma comovente história de reconciliação entre pai e filha na Grécia de hoje. Na trama, uma jovem retorna à realidade grega para cuidar de uma adoentada figura paterna da qual pouco sabe.

LANGUAGE LESSONS, de Natalie Morales: Com traços de comédia romântica, este conto via Zoom é construído inteiramente com as ferramentas das plataformas de comunicação online, apostando na doçura ao narrar a amizade entre um viúvo (Mark Duplass, com ares de Adam Sandler) e sua professora de Espanhol, vivida pela própria diretora.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.