Berlim de ‘Occhiali Neri’ abertos pra Argento

Berlim de ‘Occhiali Neri’ abertos pra Argento

Rodrigo Fonseca

10 de fevereiro de 2022 | 20h22

Rodrigo Fonseca
Já houve gente tomando capuccino no Hyatt Hotel ao lado da assombração mor do horror à italiana (vulgo giallo), o diretor romano Dario Argento, na manhã desta quinta-feira, na capital alemã, pois ele veio de véspera para acompanhar os preparativos da projeção de seu esperado “Occhiali Neri”, em sessão hors-concours, na 72ª Berlinale. Há 15 dias, num papo ao telefone com o P de Pop, ele era uma alegria só:
“Tive a honra de ter integrado o júri oficial deste festival há alguns anos e notei, à época, como eles são bastante criteriosos na escolha do que exibem. Isso só valoriza a presença do meu filme”, disse Argento, hoje com 81 anos. “Estou animado em poder me reconectar com o público”.
Tem dez anos que o realizador de joias como “Tenebre” (1982) e “Phenoma” (1985) deixou os circuitos exibidores, desde a malfadada exibição de “Dracula 3D” em Cannes, em 2012. Sua obra-prima, “Suspiria” (1977), é sempre projetada, está no catálogo da Amazon Prime e foi refilmada por Luca Guadagnino em 2018 (embora o mestre não goste desse remake). Nesse hiato, deu muita palestra, recebeu homenagens e protagonizou “Vórtex”, de Gaspar Noé, que passou pela Croisette, por Locarno e por San Sebastián, em 2021. Mas, cansado de ficar sem dirigir, ele bolou uma nova história que, por pouco a pandemia não atrapalhou. “Quando veio o lockdown e a Itália parou, fiquei com tudo parado. Mas percebi que não era o único. Em vez de me lamentar, aproveitei o tempo vago e reescrevi o roteiro, a fim de aperfeiçoá-lo”, diz o diretor, filho da fotógrafa brasileira Elda Luxardo.

Diana, vivida por Ilenia Pastorelli, corre risco de vida ao ser perseguida por um psicopata

Ambientado em Roma, “Occhiali Neri” adota como seu “monstro” um assassino em série que estrangulou três prostitutas com uma corda de violoncelo. A última corda desse celista é destinada a Diana (Ilenia Pastorelli), uma acompanhante de luxo que frequenta os hotéis da Via Veneto. Numa noite, o maníaco a persegue dirigindo uma van até que ela bate o carro. Ela acorda num hospital, envolta em escuridão. O diagnóstico é definitivo: ela perdeu a visão durante o acidente. Rita (Asia Argento, filha de Dario), uma voluntária da Sociedade dos Cegos, ajuda Diana com seus primeiros passos na escuridão e em sua nova vida. Enquanto isso, a polícia investiga, sem sucesso, o caso do psicopata que perseguiu a jovem garota de programa. Porém, o tal violoncelista sanguinário quer terminar seu trabalho e exterminar a guria. Com a ajuda de um órfão chinês. Chin (Andrea Zhang), Diana vai tentar escapar, mas acaba presa num jogo do gato e do rato estruturado com a artesania que fez de Argento um dos realizadores mais admirados da contemporaneidade.
“Tenho um oceano de emoções dentro de mim. Escrevo e filmo sem pensar muito no que as ondas desse mar representam. Só depois do filme pronto eu mergulho nessas águas”, diz Argento ao Estadão. “Os mergulhos me revelam uma tentativa de escavar as profundezas da condição humana, no que ela tem de mais sombrio”.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.