Bergmaniando na 40ena

Bergmaniando na 40ena

Rodrigo Fonseca

03 de abril de 2020 | 13h33

Rodrigo Fonseca
Dirigido por Suzanne Osten, “Sixty-Four Minutes with Rebecka”, versão para as telas de um roteiro do absoluto Ingmar Bergman (1918-2007), é a grande aposta do cinema sueco para 2020, na virada do coronavírus, quando as lições e reflexões sobre finitude, náusea e vazio do realizador sueco servem de alento a quem sofre com a (necessária) 40ena. O Telecine Play, o streaming da emissora homônima, disponibilizou duas obras-primas do realizador que podem oferecer respostas urgentes de esperança aos mais inquietos em relação à nossa resiliência diante da atual pandemia: “O Sétimo Selo” (Prêmio Especial do Júri em Cannes, em 1957) e “Sonata de Outono” (Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro em 1979). A Versátil lançou uma série de cults do diretor em DVD, incluindo uma edição especialíssima de “A Hora do Amor” (“The Touch”, 1971), cujas filmagens estão completando 50 anos. Elliott Gould entra para a fauna de grandes intérpretes bergmanianos contracenando com Bibi Andersson em um triângulo amoroso, cujo terceiro vértice é ocupado por Max von Sydow, que cometeu a deselegância de nos deixar no dia 8 de março, sem pedir licença.
Considerado um dos maiores cineastas de todos os tempos – para muitos, o maior – Bergman encheu cinemas, por décacas a fio, a partir de uma obra estruturada entre 1946, com o lançamento do filme Crise, e 2003, quando o teledrama Saraband começou a circular por TVs e cineclubes, encerrando sua carreira de sucessos e cults. A filmagem de um jogo de xadrez de tom metafísico foi uma das maiores contribuições do Bergman ao imaginário cinéfilo: a partida entre o paladino Max von Sydow e a Morte no supracitado “O Sétimo Selo”, para decidir os destinos da Humanidade diante da Peste. Uma versão inédita do filme, remasterizada, foi projetada em 2018 em Cannes, na comemoração do centenário do realizador. Naquela partida, ganhava forma uma das principais inquietações de Bergman: a Finitude. Além dela, seus filmes se preocupam em discutir a presença de Deus, a agonia do existir, solidão, a fragilidade das convenções sociais e as incongruências da vida a dois. Deste último tema, ele extraiu um fenômeno midiático: “Cenas de um Casamento”, minissérie de TV, também editada como filme, que fez aumentar o número de divórcios em território escandinavo na época de seu lançamento, em 1973. O cineasta ganhou um Globo de Ouro pela empreitada, uma das muitas honrarias douradas em seu currículo.

Filho de um pastor protestante, nascido em Uppsala (a 70km a norte de Estocolmo), o diretor – que teve seu primeiro acesso a um projetor de imagens ainda menino, trocando uma dezena de soldadinhos de chumbo com seu irmão por aquela “lanterna mágica” – ganhou um Oscar honorário (o Irving G. Thalberg, dado em 1971), o Leão de Ouro Especial do Festival de Veneza, em 1971, e a Palma das Palmas do Festival de Cannes, em 1997.

https://www.youtube.com/watch?v=f4yXBIigZbg

Já cercado de prestígio, ainda jovem, diante da conquista do Urso de Ouro de Berlim por “Morangos silvestres”, em 1958, Bergman explicou, ou tentou explicar, quem é em uma entrevista: “Vivo numa ansiedade sem causas tangíveis e, para me aliviar dela, eu preciso filmar”. A paixão pelo legado deixado pelo cineasta e diretor teatral – regada pelo fascínio provocado por suas reflexões existenciais sobre a finitude e fluidez do espírito humano – faz com que qualquer investigação sobre seu passado pareça interessante, mesmo aquelas que se afogam no exotismo, na raia do caricato, como “Bergman – 100 Anos”, .doc de sucesso lançado em 2018, também incluído na grade do Telecine. Lançado no Festival de Cannes, de carona na celebração do centenário do realizador de “Persona” (1966), o documentário de Jane Magnusson é um apressado e desfocado retrato de um filho de pastor protestante que, sob os golpes de martelo do Deus de seu pai, fez da arte sua homilia. Jane olha para o histórico pessoal desse grande artista com exotismo, deslumbrada com boatos e causos sobre o temperamento de seu objeto. Os depoimentos colhidos pela diretora sobre o cineasta pouco revelam sobre a estética bergmaniana. A exceção (que vale este filme) é a fala do já citado Elliott Gould, subestimada potência dramática do cinema americano, lembrando da delícia que foi filmar “A hora do amor” com o mestre sueco.
Vale lembrar que não foram os franceses (garimpeiros de autoralidades) que descobriram Seu Ingmar: sua consagração aconteceu a partir do Festival de Punta del Este, no Uruguai, em 1952, de onde o filme “Juventude”, partiu para conquistar platéias sul-americanas, despertando atenções de jornalistas europeus aqui residentes. Daquele evento em Punta del Este, críticos brasileiros como Ely Azeredo promoveram a potência estética de Bergman entre nós, contribuindo, à força de resenhas apaixonadas, para o êxito nacional de “Sorrisos de uma Noite de Verão” (1955) e “Noites de Circo” (1953).

Numa de suas últimas entrevistas, antes de sair da cena mortal, em 30 de julho de 2007, Bergman falava muito da decadência da matéria, mas com sabedoria. “Aprendi que posso dominar as forças negativas e usá-las a meu favor”, disse ele. Sua partida deixou órfãos muitos cineastas que nele se inspiravam, entre os quais o alemão Wim Wenders, que afirmou a jornais germânicos: “Sem Bergman, perdemos a Luz”.

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