‘Berenice Procura’ o público do ‘Corujão’

‘Berenice Procura’ o público do ‘Corujão’

Rodrigo Fonseca

20 de janeiro de 2021 | 11h44

Rodrigo Fonseca
Bons filmes sempre merecem ser revistos e o “Corujão”, há décadas, ajuda bastante nisso. Companheiro da insônia nossa de todo dia, a sessão madrugueira da Globo sempre dá um jeito de nos surpreender nas madrugadas de sábado pra domingo com uma programação nas raias das inquietações morais de nosso tempo, como é o caso de “Berenice Procura”, que está agendado para 2h40. Sua sessão serve como um réquiem, em função da recente (e dolorosa) perda do escritor Luiz Alfredo Garcia-Roza, que nos deixou no último dia 16 de abril, aos 83 anos. Ele é o autor do romance policial, de 2005, que inspirou este envolvente mergulho nos bastidores da noite carioca. Em ascensão nas telas depois de seu inquieto trabalho em “Aos teus olhos” e “Canastra suja”, firmando-se como um dos talentos mais potentes do audiovisual nacional da atualidade, o fotógrafo Azul Serra empresta a este diálogo com Garcia-Roza um colorido saturado, meio brega, quase na linha da estética neon noir dos anos 1980. Essa luz dá a este thriller um prisma vintage. Esse sabor de “foi aí”, de coisa antiga que ficou, é reforçado pela escolha do táxi como signo de deslocamento numa cidade (o Rio) e num tempo (o hoje) que andam de Uber.
Mas esse toque retrô logo dá lugar a uma sensação de permanência (e um gosto de universalidade) no modo como o diretor Allan Fiterman (de “Embarque imediato”) dialoga com o gênero – o suspense policial – pela via dos afetos, a fim de fazer uma geopolítica do submundo carioca. A luminosa atuação de Cláudia Abreu como a taxista que, ao investigar um assassinato, passa em revista a ruína de sua vida íntima, ajuda ainda mais a escavar camadas emotivas num contexto de intriga. A trama vem da literatura de Luiz Alfredo García-Roza, reescrita (no roteiro inflamado de Flávia Guimarães e José Carvalho) como um ensaio sobre desejos represados, numa cena trans, onde a solidão é um fator comum a todos. O que temos aqui é uma delicada reinvenção dos códigos policiais do cinema nacional.

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