Benoît Jacquot e a moral da História

Benoît Jacquot e a moral da História

Rodrigo Fonseca

23 de dezembro de 2019 | 10h03

Rodrigo Fonseca
Velho conhecido do Brasil, onde deu palestra em 2013, no Instituto Moreira Salles, a reboque da carreira do belíssimo “Adeus, minha rainha”, Benoît Jacquot confessa seu encanto pela língua portuguesa num papo ao telefone com o P de Pop, centrado nas representações da História em narrativas realistas. “Quem me dera saber falar o Português com desenvoltura”, diz o cineasta parisiense de 72 anos, ao refletir sobre um herói que adquiriu uma pecha de incorreção política nas revisões comportamentais da atualidade: Casanova. “A questão de poder falar de um conquistador, na atualidade, não é celebrar as artimanhas da sedução, é debater a decadência, não apenas de padrões de abordagem e de juízos morais, como a decadência do corpo. Eu queria um corpo em estágio de combate com o tempo. E um ator da experiência de Vincent Lindon”.

DERNIER AMOUR
2019
de Benoit Jacquot
Vincent Lindon.
historique; historical; 18eme siecle; XVIIIeme siecle; 18th century; Giacomo Casanova
Prod DB © Carole Bethuel – Les Films du Lendemain – JPG Films / DR

Toda essa conversa sobre o amante compulsivo amante italiano Giacomo Girolamo Casanova (1725-1798) passa pelas reflexões dramatúrgicas que o cinema de Jacquot propõe em “Dernier Amour”, um dos destaques do Festival do Rio 2019, que estreia no Brasil nesta quinta. Por aqui, a produção chega com o título de “O último amor de Casanova”. Lindon (de “O valor de um homem”) encarna o sedutor nº1 da Europa nesta narrativa histórica sobre impotências do querer. No século XVIII, em meio a uma viagem à Inglaterra, regada a sexo, ostra e tortas cheias de glacê, o nobre tem um embate com uma jovem cortesã, Chapillon (papel dado a Stacy Martin), que quer usá-lo em um joguete em busca de um dinheiro de que precisa. As negativas da moça em cair na lábia do aristocrata dão a ele um combustível romântico, que incendeia seu espírito inquieto.
“As relações de gênero são abordadas aqui fora das convenções morais da dita ‘guerra dos sexos’, pois a tensão que me interessa aqui são os jogos de poder, as manipulações mais indivisuais”, diz Jacquot.

Jacquot apela para uma edição mais ligeira do que seu tempo narrativo habitual, apoiado no refinamento da montadora Julia Gregory. Na fotografia cheia de chiaroscuros de Christophe Beaucarne, garante ao diretor de “Eva” (2018) a mesma elegância visual que ele demonstrou em “Adeus, minha rainha” (2012). O diferencial aqui é o mar de sensações que Lindon desagua sobre nós a cada olhar. “Delicadeza é a chave do trabalho de Julia ao desafiar os códigos das narrativas históricas com a construção de um tempo mais reflexivo”, diz o diretor. “Não é um filme sobre o ontem e, sim, sobre o perpétuo, sobre as angústias eternas que nos rodeiam”.

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