‘Benediction’ abençoa Roterdã

‘Benediction’ abençoa Roterdã

Rodrigo Fonseca

28 de janeiro de 2022 | 18h55

Lúdico, “Benediction” conquistou o prêmio de melhor roteiro em San Sebastián e, agora, tenta a sorte no evento holandês, que está sendo realizado online

RODRIGO FONSECA
Poemas de amor e de resiliências que, há quatro meses reverberaram pelo norte da Espanha, no Festival de San Sebastián, agora se espalham na rede por onde o site da maratona cinéfila holandesa de Roterdã vem oferecendo uma leva de filmes fenomenais a seus usuários, entre eles o novo trabalho do artesão autoral britânico Terence Davies, que revolve as estrofes e estribilhos dignos de estribilho. “Benediction” é o nome da mais recente produção do diretor, hoje em cartaz no iffr.com. Por ela, ele recebeu o prêmio de melhor roteiro em San Sebastián.
Dois poemas bastam para traduzir, em palavras, a controversa figura vivida (com delicadeza) pelo ator Jack Lowden no finíssimo drama de Davies. Uma figura chamada Siegfried Loraine Sassoon (8 de setembro de 1886 — 1 de setembro de 1967). Os versos: “Que falta faz? — teres perdido as pernas? Todos te irão tratar com simpatia E não deves mostrar que te angustia Sentir que os outros correm disputando Seus lugares à mesa das tabernas. Que falta faz? — teres perdido a vista?… Aos cegos há trabalho assegurado E todos vão tratar-te com cuidado Quando virem teu rosto que relembra Voltado para a luz que não avista. Que Falta faz? — teres sonhado em vão?… Podes beber: esquece e alegra um pouco; Ninguém há de pensar que estejas louco. Pois sabem que lutaste pela pátria E por isso jamais te afligirão.” (Tradução de Ivo Barroso) “Quem quer palavras no bosque de outono Onde a cor termina? Ali, velhas histórias e glórias contadas — O vento as elimina. Estreita-se a razão no vale dos túmulos Que contam o esforço do homem. Ali as fábulas do tempo são a luz sumindo Sobre rostos que somem.” (Tradução de Jorge Wanderley).

Aos 76 anos, Davies é sempre lembrado por “Vozes Distantes”, pelo qual ganhou o Leopardo de Ouro de Locarno, em 1988. Desde 2016, quando lançou “Além das Palavras”, com a atriz Cynthia Nixon numa sublime reconstituição dos feitos da poeta Emily Elizabeth Dickinson (1830 – 1886), o cineasta andava quietinho, reunindo películas com imagens da I Guerra Mundial. A partir delas, ele recria a luta de Sassoon para construir uma obra em versos que refutem o espírito belicoso dos britânicos. O pacifismo é o foco de sua lírica, em uma vida pontuada de combates morais, por conta de sua orientação homossexual. Jack Lowden dá vida às inquietações de Sassoon, enfatizando sua crença no amor e sua peleja para manter seus namorados, mesmo em momentos de crise. Davies explora ainda o interesse dele pelo Catolicismo, no fim de sua vida. “Não sou um sujeito tecnológico, demorei a ter celular e acredito que cinema deva ser visto numa sala escura, com o mistério de uma projeção ao nosso redor”, disse o cineasta, ao P de Pop, ao falar de seu belo “Benediction” a San Sebastián, destacando a suntuosidade de sua narrativa, fotografada por Nicola Daley, uma artesã da luz. “Quando vi as imagens da I Guerra nos filmes de arquivo que eu consegui, com cenas das trincheiras, acreditei que as cenas ficcionais de interiores deveriam seguir um padrão contrastante, apostando na suntuosidade. Quando conheci o trabalho de Nicole, acreditei que essa menina teria talento para ir longe. E ela foi. Falamos de paixão, sem nos rendermos à amargura, em um país que tratou o amor gay como um crime, por décadas”.

“Eami”, de Paz Encina: produção paraguaia é o longa favorito da competição oficial de Roterdã

Entre os 14 longas-metragens concorrentes ao troféu Tiger, dado à competição oficial de Roterdã, o favorito é “Eami”, um poema etnográfico da paraguaia Paz Encina, que mistura documentário, fábula, antropologia e um ensaio geopolítico sobre sororidade. A diretora de “Hamaca Paraguaya” (2006) registra a realidade de lutas do povo Ayoreo-Totobiegosode, que vive no Chaco, vasta região florestal que faz fronteira entre o país da cineasta, a Bolívia e a Argentina. O título de seu novo longa, Eami significa “floresta” na língua dos Ayoreo. Significa também “mundo”. Para aquela população, as árvores, os animais e as plantas que os rodeiam há séculos são tudo o que eles conhecem. Mas eles encaram agora um desmatamento que ameaça tudo o que têm. Para retratar essa tragédia, Paz recorre ao mito de uma menina que vira uma deusa-pássaro. O único outro concorrente que parece reverberar forte no burburinho cinéfilo é uma produção de Israel: “Kafka for Kids”. Com direção de Roee Rosen, esse musical com sequências de animação impressiona pelo virtuosismo de sua direção de arte e pela ironia de seu roteiro, cuja abrasividade está presente também nas letras de suas canções. O filme é construído como um programa infantil, nos moldes de um “Castelo Rá-Tim-Bum”, cuja temática é a prosa do autor de “A Metamorfose”.
Entre as produções brasileiras em projeção por Roterdã, estão “Medusa”, de Anita Rocha da Silveira, que ganhou o troféu Redentor no Festival do Rio (e é potencializado pela potente atuação de Thiago Fragoso como um pastor evangélico), e “Paixões Recorrentes”. Este é o primeiro trabalho de Ana Carolina Teixeira Soares (realizadoras da aclamada trilogia “Mar de Rosas”; “Das Tripas Coração” e “Sonho de Valsa”) após um hiato de oito anos. Em seu novo longa, rodado no litoral do Paraná, ela volta a 1939, quando um casal de portugueses, uma atriz francesa, um fiscal argentino, um produtor teatral niteroiense, um integralista paulistano e um caiçara que recita filósofos e canta pontos de umbanda discutem os futuros do mundo em meio ao avanço de Hitler. O desempenho de Luiz Octavio Moraes na pele de um Zero Mostel de Niterói é antológico, assim como o de Danilo Grangheia na pele do fã do Integralismo.
O 51º Festival de Roterdã segue até o dia 6.

p.s.: Com o objetivo de fomentar a produção artística na pandemia, o festival “Niterói em Cena Resiste!” termina, neste domingo (30/01), com apresentação de obras curtas criadas por artistas de diferentes partes do país e mesas de debates. Os espetáculos gratuitos, com até 15 minutos cada, são exibidos, sempre a partir das 20h, no Youtube do Niterói em Cena (https://bit.ly/2YU6VzI). No sábado, às 11h, haverá debate a partir do tema “Acessibilidade em Cena”, com mediação da atriz e produtora Renata Macedo, especialista em acessibilidade cultural. Às 14h, será a vez da mesa “Atravessamentos cênicos em um corpo afrodiaspórico em Cena”. No domingo, também haverá dois debates: “Mulheridades e Vivências: Perspectivas para 2022” (11h) e “Teatro Político” (14h).

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.