‘Benedetta’: Verhoeven no Céu do Festival do Rio

‘Benedetta’: Verhoeven no Céu do Festival do Rio

Rodrigo Fonseca

13 de dezembro de 2021 | 10h54

Aos 83 anos, Paul Verhoeven presidiu o júri da Berlinale em 2017, logo após a estreia de seu aclamado “Elle”, lançado assim que ele começou a produzir a versão para as telas do livro “Immodest Acts: The Life of a Lesbian Nun in Renaissance Italy”, de Judith C. Brown

RODRIGO FONSECA
Com cerca de 330 mil ingressos vendidos na França, “Benedetta”, ode à sororidade encarada como um dos filmes mais polêmicos de 2021, vai levar suas observações sobre o desejo e os interditos morais do fundamentalismo religioso para o 23º Festival do Rio nesta terça. Às 21h45, o Estação NET Botafogo, numa dobradinha com a distribuidora Imovision, exibe o longa-metragem protagonizado por Virginie Efira em uma sessão promovida pelo Telecine. É uma das atrações mais quentes da maratona cinéfila carioca, iniciada na quinta passada. Efira empresta seu talento a um debate histórico sobre a opressão que ganha um componente extra de provocação graças à estética sensualíssima de seu realizador: o diretor holandês Paul Verhoeven. Em seis décadas de carreira, o realizador ajudou os Países Baixos a criarem uma revolução cinemanovista nos anos 1970, com “Louca Paixão” (1973) e “Soldado de Laranja” (1977), e, na sequência, dirigiu fenômenos populares nos EUA, como “RoboCop” (1987) e “Instinto Selvagem” (1992). Seu prestígio fez com que a produção integrasse a lista dos Dez Mais do Ano da revista “Cahiers du Cinéma”, a bíblia da cinefilia, cujos 70 anos de mercado editorial estão sendo celebrados no Festival, com uma retrospectiva e uma exposição.
“Eu fiquei muito tempo sem filmar, sobretudo sem filmar nos Estados Unidos, porque custa a aparecer um roteiro efetivamente adulto que me atraia. Estava finalizando ‘Elle’, quando essa história de ‘Benedetta’ caiu em minhas mãos e achei que ela precisava ir para as telas, para que o cinema olhe para a fé de modo menos pudico”, disse Verhoeven ao Estadão em 2017, quando assumiu a presidência do júri da Berlinale, numa edição que consagrou o drama húngaro “Corpo e Alma”, de Ildikó Enyedi, com o Urso de Ouro.

Bartolomea (Daphne Patakia) cai de amores por Benedetta (Virginie Efira), na Toscana dos 1600

Aos 83 anos, Verhoeven está preparando um novo longa: “Young Sinner”, um thriller erótico ambientado nos bastidores da política. É uma trama sobre uma jovem funcionária de um poderoso senador que é atraída para uma teia de intrigas internacionais. Ao que a sinopse indica, parte dos perigos que a protagonista encara envolve parceiros sexuais que cruzam seu caminho, como é uma tônica recorrente ao cinema de Verhoeven, inclusive em “Benedetta”, que terá mais uma sessão no Festival do Rio no sábado, às 16h, no Estação NET Gávea 5.
Em gestação há cerca de cinco anos, desde que “Elle” mobilizou o planeta a partir da singular atuação de Isabelle Huppert, “Benedetta” nasceu como uma erótica leitura das pesquisas de Judith C. Brown no livro “Immodest Acts: The Life of a Lesbian Nun in Renaissance Italy”. “Eu tenho, há anos, um projeto sobre a Paixão de Cristo. E o meu interesse por falar em Jesus de uma forma humanista me aproximou desse universo da Igreja que a história de Judith aponta”, disse Verhoeven, em uma entrevista em Cannes, em 2016, quando falou pela primeira vez em seu interesse em filmar a saga de uma freira milagreira e orientação sexual homoafetiva.

Mais próxima dos quadrinhos do erotômano Milo Manara (“Clic”) do que do épico histórico, “Benedetta” faz uma geneologia da relevância política do corpo no âmbito do catolicismo, apoiando-se numa entrega radical de Virginie Efira. No apogeu de sua popularidade e de seu respeito entre os críticos, a atriz belga, elogiada por “Sibyl” (2019), torce as convenções do maniqueísmo levando sua personagem, Benedetta, a uma fronteira tênue entre a ingenuidade e o mau-caratismo. Agraciada com dons típicos das forças de Deus, essa sacerdotisa cai de joelhos diante do desejo por uma colega de hábito, a recém-chegada Bartolomea (Daphne Patakia), na Toscana dos 1600. A relação entre as duas floresce em um momento em que ela ascende na casta de sua Igreja, conquistando uma posição na aristocracia clerical que antes era exercida pela abadessa Felicita (Charlotte Rampling, em memorável desempenho). Felicita merecia um filme à parte, graças às suas artimanhas para controlar jovens no noviciado. É um dos trabalhos mais inspirados de Charlotte.
Experiente na arte de represar sentimentos, Felicita é a primeira a nota que há libido no olhar de Benedetta para Bartolomea. A fotografia de Jeanne Lapoirie aposta em cores quentes para traduzir um querer que precisa ser praticado no silêncio, pelo menos até o momento em que as brutalidades do interdito cristão tornarem público um amor que se desenhou na intimidade de uma alcova fechada. Aí a tensão explode, assim como explode a habilidade de Verhoeven em levar para o exagero físico, gráfico, a expressão da violência. É um filme perturbador, mas com o charme habitual de seu diretor em sua autoralíssima cartografia da perversão.

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