‘Benedetta’ abençoa o Rendez-Vous da Unifrance

‘Benedetta’ abençoa o Rendez-Vous da Unifrance

Rodrigo Fonseca

13 de janeiro de 2022 | 12h57

Paul Verhoeven está de volta às telas brasileiras com “Benedetta”, uma das produções que integram o varejo do 24º Rendez-Vous Avec Le Cinéma Français

RODRIGO FONSECA
É um feliz casamento de interesses a estreia brasileira de “Benedetta”, do holandês Paul Verhoeven, coincidir com a execução de um dos mais estratégicos planos de ação anual da França para promover (e vender) os filmes dos diretores autorais – os de sua pátria e alguns estrangeiros, como é o caso do artesão de Amsterdã – que financia. Grife autoral de sucesso, prestígio e polêmica há cinco décadas, Verhoeven vai ajudar a Unifrance, órgão do Ministério da Cultura francês, a catapultar seus longas-metragens Atlântico afora, indo pelo Índico e o Pacífico, a fim de combater a hegemonia de Hollywood que já se acena com o fenômeno do novo Homem-Aranha. É parte do trabalho da Unifrance, há 24 anos, reunir, a cada janeiro, medalhões como o diretor de “Elle” (2016) a vozes autorais em ascensão – caso de Céline Sciamma, indicada março passado ao Urso de Ouro com “Pequena Mamãe”, e de Julia Ducournau, ganhadora da Palma de Ouro de Cannes de 2021, com “Titane” – e a novos talentos – caso de Denis Imbert, realizador do recente sucesso de público europeu “Victoria e Mistério” – para festejar a diversidade dos longas-metragens de sua nação. Esse festejo se chama Rendez-Vous Avec Le Cinéma Français, e vai começar nesta sexta-feira, via web. É um fórum de debates e comercialização, hoje em sua 24ª edição – a segunda a ser realizada online, por força da pandemia – que vai até o dia 17 deste mês. A saga da freira milagreira lésbica Benedetta Carlini (1591-1661), vivida por Virginie Efira, está nessa roda.
E as cifras dessa roda impressionam: são esperados 600 compradores que distribuem longas pelo mundo (450 especializados em lançamentos pro cinema e 150 pra TV), de mais de 100 empresas de veiculação de conteúdo audiovisual (45 dedicadas a filmes, 60 à TV), assim como 135 jornalistas internacionais e 135 artistas, entre atrizes, atores, cineastas e equipes de produção. “Nosso trabalho é ajudar a circulação internacional da produção francesa, cientes de que, na própria Europa, depois da França, o nosso maior mercado é a Alemanha”, explica Gilles Renouard, o diretor adjunto da Unifrance, em uma visita do Estadão P de Pop à sede da instituição, em Paris. “Na América Latina, nosso maior cliente é o México, pelo número de salas que tem. Mas vem seguido pela Argentina e o Brasil, onde ‘A Dona do Barato’, com a atriz Isabelle Huppert, teve um bom resultado em 2021. E nós colhemos muitos bons frutos nos festivais internacionais, onde somos presença cativa e maciça, anualmente, com vitórias”.

Sandrine Bonnaire e Gérard Darmon em “L’amour c’est mieux que la vie”, o novo Lelouch

Estima-se que as negociações mais quentes deste Rendez-vous devam envolver “Feu”, da aclamada Claire Denis, que, possivelmente, será ser um dos concorrentes ao Urso de Ouro da 72ª Berlinale (10 a 20 de fevereiro). É a história de um triângulo amoroso com Juliette Binoche como protagonista. Vincent Lindon, o Fagundes da França, também está em cena. Há muitos olheiros dos exibidores atentos para “Adieu Monsieur Haffmann” – thriller de Fred Cavayé sobre a ocupação de Paris pelos nazistas, em 1942 – e pro drama “Twist à Bamako”, de Robert Guédiguian, sobre os ranços do imperialismo na África, sofridos por um casal de fãs de dança. Esses dois filmes também estão cotados para Berlim, que vai conceder à já citada atriz Isabelle Huppert um Urso de Ouro Honorário.
Já estão confirmados para o Rendez-vous “Petite Solange”, de Axelle Roppert; “A L’Ombre Des Filles”, de Étienne Comar; “L’amour c’est mieux que la vie”, de Claude Lelouch; (o extraordinário western queer) “After Blue (Paradis Sale)”, de Bertrand Mandico; o ótimo “Suzanna Andler”, de Benoît Jacquot; “Petite Fleur”, de Santiago Mitre (um cineasta argentino); “A Fratura” (“La Fracture”), de Catherine Corsini (ganhadora da Queer Palm 2021 em Cannes); e o ganhador do Leão de Ouro do ano passado: o tenso drama “L’Événement”, em que a cineasta Audrey Diwan denuncia a criminalização do aborto na Paris dos anos 1960.
Ao largo do Rendez-Vous, a Unifrance executa, paralelamente, uma mostra online, aberta ao público, chamada MyFrenchFilmFestival, com direito a premiações por júri oficial e júri popular, com curtas e longas. A seleção deste ano vai apresentar pérolas como “Calamity, une enfance de Martha Jane Cannary”, animação de Rémi Chayée e “Charuto de Mel”, drama de Kamir Aïnouz. Basta clicar https://www.myfrenchfilmfestival.com/pt/ para acessar o conteúdo.

Sobre “Benedetta”:
Aclamada pelo público brasileiro, recentemente, em “Sibyl” (2019), a belga Virginie Efira torce as convenções do maniqueísmo levando sua personagem, Benedetta, a uma fronteira tênue entre a ingenuidade e o mau-caratismo, sem nunca deixar de transparecer um genuíno carinho por Jesus e sem nunca se render à intolerância. Agraciada com dons típicos das forças de Deus, essa sacerdotisa cai de joelhos diante do desejo por uma colega de hábito, a recém-chegada Bartolomea (Daphne Patakia), na Toscana dos 1600. A relação entre as duas floresce em um momento em que ela ascende na casta de sua Igreja, conquistando um poder antes exercido pela abadessa Felicità (Charlotte Rampling, em memorável desempenho). Esta prefere investigar sinais que lhes soam pecaminosos nos olhares entre Benedetta e a moça que ela adotou como pupila. Aos poucos, uma intriga se arma no âmbito do clero, envolvendo um magistrado da fé, Giglioli (Lambert Wilson), uma figura fundamental para Verhoeven fazer o que de melhor tem produzido desde “Louca Paixão” (1973), que o consagrou na mocidade: retratos do empoderamento e da revanche das mulheres contra a opressão sexista. Fica uma impressão de a freira ser uma feminista pioneira. A fotografia de Jeanne Lapoirie dá um tom claustrofóbico a essa narrativa cujas cores realçam sua sensorialidade.

p.s.: Tem um Liam Neeson inédito pra estrear no Brasil no dia 10 de fevereiro: “Agente das Sombras” (“Blacklight”), com direção de Mark Williams. Na trama, Travis Block (Neeson) trabalha para o FBI, mas não é um agente comum. Ele se move pelo submundo, pelos bastidores, ajudando agentes secretos que se veem numa situação da qual não conseguem escapar. Ele acaba envolvido numa conspiração, quando um colega questiona as ordens de seus superiores. Agora, caberá a Block encontrar esse sujeito, e também descobrir se não está sendo usado pelo homem em quem mais confia. No Brasil, Armando Tiraboschi costuma ser o dublador oficial de Liam.

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