Belos dias de Imovision, Wenders e streaming

Belos dias de Imovision, Wenders e streaming

Rodrigo Fonseca

18 de março de 2020 | 10h15

Rodrigo Fonseca
Analgésicos contra a angústia provocada pela (necessária) quarentana do Coronavírus têm pipocado na web como forma de anestesiar tempo e espaço, como é o caso do pacote que a Imovision, de Jean Thomas Bernardini, firmou com o Globoplay, garantindo a circulação virtual de pérolas como “Minha Terra, África”, de Claire Denis; “Camille Outra Vez”, de Noémie Lvovsky; “Cópia Fiel”, de Abbas Kiarostami; e “Um Estranho no Lago”, de Alain Guiraudie. Mas entre todas as joias ali oferecidas, um exercício autoralíssimo de semiótica praticado por Wim Wenders, “Os Belos Dias de Aranjuez”, encontra no streaming uma sobrevida mais do que bem-vinda. Nele, parte-se de uma lição: existe o amor, é claro, e existe a vida, sua inimiga. É o que faz crer a conversação entre uma mulher vivida por Sophie Semin (com uma máscara facial de assombro e dor) e um homem encarnado pelo afiado Reda Kateb. Palavras e mais palavras ardem no fogo do debate ao longo dos 97 minutos de escrita rizomática deste delicado trabalho de Ernst Wilhelm “Wim” Wenders para dar conta de uma proposição de desalento inerente às vicissitudes do viver. Isso até, que pouco a pouco, essa perspectiva de desolação vai sendo diluída em um oceano de signos, hipóteses matemáticas e aritméticas a dois, cuja sonoridade da fala não dá conta. A câmera vem e vai, abre e fecha, da diástole à sístole, como se mapeasse o terreno de um terraço em um jardim, no qual os coadjuvantes mais presentes, fora um cachorrinho, são uma jarra de limonada e uma maçã – elementos que a câmera faz questão de reverenciar.
Enquadrada por Wenders (ocupado até maio com a exposição “Two or three things I know about Edward Hopper”), a fruta vermelha faz alusão direta às maçãs do pintor Cézanne, de quem Wenders tirou sua bússola. Em múltiplas entrevistas, WW cravou: “Antes de ele pintar, as artes plásticas eram reféns da ilusão espacial, sendo obrigadas a apresentar uma dimensão real, da qual seu pincel nos libertou”, disse o diretor de “O Amigo Americano” (1977). Ele disse isso quase tantas vezes quanto repetiu “o rock’n’roll salvou minha vida”.

Tem Cézanne e tem rock em “Os Belos Dias de Aranjuez”, sendo este último aberto já de cara, nos minutos iniciais, num ângulo de reconhecimento do terreno, ao som de Lou Reed e seu “A Perfect Day”. E, lá pelas tantas deste diálogo do cineasta germânico com a peça teatral homônima de Peter Handke, uma canção de Nick Cave abre espaço para que o próprio apareça em cena, numa presença quase espectral. É como se o diretor carregasse consigo seus dois aliados mais fiéis, perto de quem ele, hoje com 74 anos, pudesse experimentar um certo sabor de pertença, de conexão criativa, de simbiose afetiva. A geração dele se esvaziou e se perdeu: muitos de seus contemporâneos morreram. E, na cena do cinema novo alemão, no qual ele sempre foi uma estrela, só sobraram Volker Schlöndorff (que amargou décadas de decadência até voltar em 2017 com “Return to Montauk” ao Festival de Berlim) e Werner Herzog, cuja obra, hoje, depende de investimentos dos EUA. Wenders é o mais prolífico (e coeso) de seus pares, mas, de certa forma, o mais solitário, sobretudo por transitar entre fato e ficção falando sempre da busca por um lugar de acolhimento e discutindo (como Cézanne fazia) a ilusão da perspectiva, o modo de olhar. E anda mais pelas artes plásticas do que pelo cinema, tendo feito uma recente exposição de fotos na Áustria. Mesmo assim, a cada um ou dois anos, ele volta ao circuito exibidor com alguma criação que transborda pulsões filosóficas. E em cada uma delas, pertencimento é a questão central de seu cinema.
No experimentalismo de “Os Belos Dias de Aranjuez” (e sua pegada de ecos bíblicos sobre a conspurcação do Paraíso pelo livre arbítrio e pelo pecado) recicla, na fabulação, a vitalidade de sua carpintaria narrativa em planos envernizados a muito rigor plástico. Não há um segundo – nem os instantes de close na face de olheiras em camadas da atriz Sophie Semin – em que a geometria de linhas apolíneas do diretor de “Paris, Texas” (1984) não se faça notar (e gritar) na tela, a partir de seus enquadramentos, não apenas como um estandarte de sua precisão, mas como um esforço para encaixar aquela “pintura” numa moldura de madeira de lei. Não é a paixão ou uma relação real entre dois indivíduos o que se passa diante de nós e sim um jogo de representações de uma só pessoa, um autor (vivido por Jens Harzer), para falar de si ou de sua literatura (ou de seu teatro) usando aqueles dois entes sem nome. A verborragia deles pouco importa, embora as digressões de ambos sobre o lugar do “feminino” e sobre “aquilo que existe nas profundezas” tangencie lugares ocultos do espectador. A fala ali é só saliva derramada. Não por acaso… ouve-se um barulho de teclas sendo dedilhadas, como num sinal exterior ao campo que desterritorializa nossa percepção, numa operação de metalinguagem. Não há em “Os Belos Dias de Aranjuez” a obrigatoriedade de uma jornada, nem de um discurso. Não importa para onde vamos, nem para o que se discute. Importa é a aeróbica formal que Wenders executa como se investigasse a própria narrativa e seus limites, usando o próprio 3D como muleta. Afinal, este longa foi concebido para projeções tridimensionais, surgindo como alternativa para um outro projeto, “Miso Soup”, um terror com Willem Dafoe, a ser ambientado no Japão que ele parece ter adiado ou abortado.
Mas mesmo sem a tridimensionalidade, na planície de um streaming como o Globoplay, a sensação de vertigem é a mesma, pois se percorre o que se chama de trilha do terceiro campo. Classificam-se assim os filmes que não têm pacto com nenhuma ética prévia, nem seguem um ethos específica, abertos a identidades performáticas de seus personagens: não por acaso, nesse longa, nem “ele”, nem “ela” chegam a ter uma solidez específica, moldando a própria tessitura ao que as frases apontam, ao que o autor sente. Não por acaso, a jukebox que segue acesa por uma hora e meia uma hora dá lugar ao próprio Nick Cave ao piano, sem qualquer explicação prévia. Não por acaso, o amor vira um axioma.

Acabou o projeto estético de mundo ao qual Wenders pertencia: o projeto de um cinema de revolução de mundo. Sobrou a revolução tecnológica e técnica e as progressões simbólicas que dela pode ser extraída. E sobrou um autor que nela tenta encontrar um encaixe para si e seu olhar, alternando-se entre protótipos de invenção como “Aranjuez” e “Pina” (2011). Seja nas franjas da metafísica (“Tão Longe, Tão Perto”), seja nas raias do realismo (“Medo e Obsessão”) ou seja em seus ensaios poéticos (“O Sal da Terra”, “Papa Francisco”), Wenders fala, a cada novo longa, de pessoas em busca de encaixe e de adequação em um mundo no qual elas são encaradas como exceções, pela necessidade de descoberta que têm. Essa lógica do pertencimento se aplica para sua ficção — tanto para os anjos de “Asas do Desejo” (1987) quanto para gente de carne e osso como o jornalista de “Alice nas Cidades” (1974) — e para suas investigações documentais (vide o esforço dos cubanos de “Buena Vista Social Club”, de 1999, para se sentirem integrados ao que existe além de Havana). A triagem existencial de seus “heróis” depende do que eles descobrem sobre o mundo e sobre seus processos. Dos anos 1970 até hoje, descobrir é o verbo de ação (e também de ligação) conjugado por WW em forma de filmes essencialmente belos… como os Dias de Aranjuez.

A lista completa do pacotão Imovision no Globoplay inclui:
– 120 Batimentos Por Minuto – 45 Anos – 7 Dias em Havana – Adeus à Linguagem – A Espera – Afterimage – A Grande Noite – Amar, Beber e Cantar – Amor à primeira briga – A Parte dos Anjos – Argentina – A Separação – Ausência – Belle e Sebastian – Os Belos Dias de Aranjuez – Cairo 678 – Camille Outra Vez – Cartas da Guerra – Clash – Cópia Fiel – Dior e Eu – Dois Dias, Uma Noite – Entre Vales – E se vivêssemos todos juntos? – Era Uma Vez Eu, Verônica – Eu, Anna – Eu estava justamente pensando em você – Fátima – Gainsbourg – O homem que amava as mulheres – Garotas – Gloria – Jimmy’s Hall – Kiriku, Os Homens e As Mulheres – Laurence Anyways – Leviatã – Linguagem do Coração – Lunchbox – Mamute – Medianeras – Buenos Aires na Era do Amor Digital – Meu Pé de Laranja Lima – Minha Terra, África – Miss Julie – O Cidadão do Ano – O Fio de Ariane – O Médico Alemão – O Novíssimo Testamento – O Porto – Os Árabes Também Dançam – Pais e Filhos – Pasolini – Sangue Azul – Se Não Nós, Quem? – Turnê – Uma Escala em Paris – Um Estranho no Lago – Victoria

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