Bellocchio leva o Brasil de Tommaso Buscetta a Cannes

Bellocchio leva o Brasil de Tommaso Buscetta a Cannes

Rodrigo Fonseca

22 de maio de 2019 | 12h14

Rodrigo Fonseca
Nove dias depois da passagem de “Bacurau” pelo Palais des Festivals, Cannes abre mais uma vaga na disputa de sua Palma de Ouro para o Brasil, desta vez em sinergia com a Itália de Marco Bellocchio: quinta-feira é dia de “Il traditore”, um filme sobre máfia, sobre lealdade, sobre um Rio que se perdeu. Na imprensa europeia, o novo longa-metragem do realizador de “Vincere” (2009) é encarado, desde já, como uma das mais ousadas promessas autorais do cinema do ano, ao reviver o drama real do mafioso Tommaso Buscetta (1928-2000).

Na fotografia de Vladan Radovic (de “Loucas de alegria”), há um olhar atento para as paisagens cariocas, seja em Santa Teresa ou na Praia de Abricó, uma mirada curiosa sobre Colônia, na Alemanha, e um olho atento para a geografia italiana. Bellocchio teve nas mãos horas e horas de material rodado no Rio de Janeiro que recriam a atmosfera de transformação política da cidade, no início dos anos 1980 (ainda em dias de ditadura), quando Buscetta fez o Brasil de lar, no abraço sempre caloroso de sua mulher, a carioca Maria Cristina de Almeida Guimarães.

Uma das sequências, ambientada em Roma, mas rodada em uma clínica em Botafogo (RJ), pelo realizador de 79 anos, recria uma visita do gângster (vivido pelo ator Pierfrancesco Favino) a um cirurgião que operou seu rosto (papel de Nicola Siri). Com faixas na cabeça, ainda sob a dor da cirurgia, o criminoso – que aderiu à Cosa Nostra aos 17 anos, a fim de driblar a pobreza nas ruas de Palermo – vê ali o que pode ser o seu futuro… a sua redenção… ou a sua queda. Essa é a discussão aberta por “O traidor” (“Il traditore”), que encerrou suas filmagens no Rio no dia 22 de dezembro, tendo os irmãos Caio e Fabiano Gullane (de “Que horas ela volta?”) como seus produtores brasileiros. E coube à atriz Maria Fernanda Cândido viver Maria Cristina numa trama que promete fugir de todas as convenções dos filmes de máfia.

Aclamado pela crítica mundial já em sua estreia em longas-metragens, com “De punhos cerrados” (1965), Bellocchio não quer fazer um novo “O poderoso chefão” e sim fazer uma investigação antropológica sobre a traição como rito. Escondido aqui para evitar um derramamento de sangue já que custara a vida de seus filhos, Buscetta foi preso no Rio, acusado de tráfico internacional de drogas e extraditado. Conseguiu fugir da cadeia e retornou ao Brasil, de onde foi expulso pela segunda vez em 1983. Foi então que fez o acordo para delatar centenas de criminosos e expor as conexões da Cosa Nostra com a política italiana. É esse troco que ele dá em seus ex-colegas o que mais intriga o veterano cineasta, nesta produção estimada em €7,5 milhões.

Marco Bellocchio é um dos responsáveis pela gênese do cinema moderno na Itália. Crédito obrigatório da foto: Laura Campanella – Div: Serendipity Inc.

Para evitar que a representação do Brasil da década de 1980 no filme incorresse em algum deslize histórico grave, Bellocchio trouxe para o filme o cineasta paulista André Ristum, ganhador do troféu Kikito de melhor direção em Gramado, este ano, por “A voz do silêncio”. Ristum viveu na Itália e foi assistente de Bernardo Bertolucci (1941-2018) em “Beleza roubada” (1996). Ele entra em “O traidor” como produtor delegado, ajudando Bellocchio na harmonia com a realidade nacional. Cada dia, ele reinventava uma sequência, pedindo locação nova ou inventando uma situação a ser encarnada por seu elenco, que traz mais dois talentos brasileiros, o de Luciano Quirino (de “9mm São Paulo”) e o de Jonas Bloch (de “Amarelo manga”) à sua trupe, lotada de italianos e iluminada pelo empenho de Maria Fernanda. Com a palavra, Bellocchio:

P de Pop: Vindo do diretor que fez marcos políticos como “A China é aqui”, é difícil crer que “O traidor” será um filme de máfia tradicional. Estou errado?
BELLOCCHIO: 
Não é o mafioso que me interessa. É o sujeito por trás dos crimes. Quero que ‘O traidor’ seja um filme sobre escolhas e também um filme sobre as pessoas que pagam o preçopelas decisões que tomamos. O que me interessa aqui não é quem Buscetta traiu e sim o fato de ele ter traído pessoas que traíram um projeto histórico de organização criminal. Havia um código de honra. E essa “lei” foi desrespeitada.

P de Pop: O que a honra representa aos olhos de um cineasta que sempre desmontou lógicas institucionais?
BELLOCCHIO: 
Honra é um parâmetro de respeito, um local que não pode ser transposto sem um ônus que, no caso, é pago em sangue. Existia um código de honra que norteia Buschetta e os homens que integraram a Cosa Nostra na época em que ele aderiu à máfia, lá pelo fim dos anos 1940, quando tradição era lei, sem que se matassem padres, mulheres e crianças no jogo do crime. Este filme é um estudo sobre a dimensão moral que cerca uma traição, gesto que depende da palavra, desafiando o que foi escrito, ideologicamente, nessa tal tradição. Sou um cineasta atento ao silêncio, que busca um entendimento da dimensão trágica da quietude, da introspecção. Mas aqui, encontro uma situação na qual palavra é ação: é trair quem traiu o passado.

P de Pop: Qual é a identidade dos traídos nesta narrativa de tons policiais?
BELLOCCHIO: 
Aqueles que modificaram uma norma mafiosa que se pautava pelo cuidado com a vida alheia. A traição de Buscetta, ao delatar a Cosa Nostra à Justiça da Itália, é carregada de ambiguidade. E essa dúvida é minha linha narrativa no filme. Ele não trai por conveniência. Ele trai porque, antes dele, com a entrada do tráfico de drogas nas atividades da máfia e uma guerra de sangue, alguém desrespeitou aquilo que antes era sagrado para eles. E o sagrado é, justamente, a palavra. A palavra da honra. Venho de um mundo que testemunhou o fascismo ascender ao passar como um tratar sobre os limites dos direitos individuais. E é isso o que me empurra a essa história de Buscetta. Ele vem de um mundo cuja pobreza cresceu como um saldo do fascismo.

Ainda nesta quinta, Cannes confere na Quinzena dos Realizadores “Sem seu sangue”, da diretora carioca Alice Furtado. Montadora e cineasta com formação pela Universidade Federal Fluminense (UFF), Alice é uma estreante em longas. Realizadora do curta-metragem “Duelo antes da noite”, exibido na Croisette em 2011, ela narra na trama de “Sick Sick Sick” (título internacional) os conflitos da adolescente Silvia (Luiza Kosovsli), que encontra em Artur (Juan Paiva), um jovem hemofílico expulso de várias escolas, um analgésico para seu vazio existencial. Seu elenco inclui o escritor e quadrinista Lourenço Mutarelli, autor do romance “O cheiro do ralo” e ator no aclamado “Que horas ela volta?” (2015).

Cannes chega ao fim neste sábado, com a entrega de prêmios da seleção oficial e a projeção da comédia motivacional “Hors norme”, de Éric Toledano e Olivier Nakache, mesma dupla do fenômeno “Intocáveis” (2011). Nesta sexta serão entregues os troféus da seção Un Certain Regard, que tem “A vida invisível de Eurídice Gusmão”, rodado no Rio por Karim Aïnouz, como seu principal concorrentes, tendo sido elogiado nas mais diversas línguas. Estima-se que a atriz Fernanda Montenegro, um dos destaques do elenco de Karim, possa sair premiada na Croisette, 21 anos depois da consagração mundial de “Central do Brasil”.

 

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