Belisario Franca, uma grife de pluralidade

Belisario Franca, uma grife de pluralidade

Rodrigo Fonseca

03 de agosto de 2020 | 10h54

O diretor Belisario Franca vai fala de História como matéria de cinema no seminário Na Real_Virtual

Rodrigo Fonseca
Embora “pluralidade” seja o adjetivo mais preciso para definir a obra que o carioca Belisario Franca vem construindo no terreiro documental do audiovisual brasileiro, indo do teatro do grupo Tá Na Rua a reflexões sobre a geopolítica amazônica, mais e melhores palavras servem para qualificar seu cinema – investigativo, inquieto e de um tom perplexo diante de conflitos sociais aparentemente invisíveis. Tenso, “Menino 23: Infâncias Perdidas no Brasil” (2016) é seu trabalho mais aclamado, centrado no olhar sobre uma célula integralista, de flerte explícito com o nazismo. Igualmente recheado de adrenalina é “Soldados do Araguaia” (2017), sobre o “Vietnã Brasileiro”, evento que mobilizou regiões rurais do Centro Oeste contra o governo militar, nos anos 1970. O rol de traumas psicológicos, sociais e morais pelos quais o país passou e vem passando são objetos de interesse do diretor, o que justifica (e bem) o uso do rótulo “Nos baús da História” para qualificar o colóquio dele no (imperdível) seminário Na Real_Virtual desta segunda, às 19h, no Zoom. O simpósio (https://imaginariodigital.org.br/real-virtual/2020) é organizado pelo crítico Carlos Alberto Mattos e pelo cineasta Bebeto Abrantes, e segue no ar na web todas as segundas, quartas e sextas, até 14 de agosto.
“Nesse momento no Brasil fazer cinema já é um ato político. No momento em que a democracia está sendo ameaçada, toda possibilidade de se expressar, incluindo a do cinema, merece ser valorizada”, disse Belisario ao P de Pop, enquanto arremata seu novo trabalho, “Nazinha”, no qual investiga o Círio de Nazaré sob um ângulo inusitado: o dos presos que recebem induto para participar da festa. “A devoção de cada um dos participantes é comovente. São capazes de passar por verdadeiras penitências para participarem das procissões. Durante o Círio, em Belém, presos são autorizados a uma saída temporária para participarem do evento com suas famílias. Durante quatro anos acompanhamos as idas e vindas de quatro presos. O que encontramos foi mais um silenciamento”.

Modalidades de silenciar e invisibilidades é uma das dinâmicas da microfísica do Poder que instigam o realizador, seja no Círio seja em outros espaços do Brasil. “Na TV, Belisario Franca produziu uma rica obra sobre a música pop internacional, com ‘African Pop’, ‘Baila Caribe’ e o premiadíssimo ‘Além-mar’. Ele fez todas essas séries, em parceria com o antropólogo Hermano Vianna”, conta Bebeto Abrantes, ao falar sobre a escolha curatorial desta segunda do Na Real_Virtual. “Sobre nossa música, nada comparável aos 15 programas da série ‘Músicas do Brasil’ e a série ‘7 X Bossa Nova’. Mais recentemente, essa familiaridade com nossos brasis profundos migrou para filmes de cinema, documentários e ficção, como o já clássico ‘Menino 23 – Infâncias Perdidas no Brasil’. E, três características surgiram com força total, nesse novo momento de sua obra: a pesquisa e a investigação de fatos históricos apagados, a excelência estética e a engenhosidade narrativa, que saltam aos olhos em ‘Menino 23’, o filme que escolhemos para analisar no seminário”.
Laureado com os prêmios de melhor roteiro e melhor montagem no Cine Ceará, há quatro anos, “Menino 23” se debruça sobre uma célula política que removia meninos órfãos do Rio de Janeiro para Campina do Monte Alegre/SP para dez anos de escravidão e isolamento na Fazenda Santa Albertina, na primeira metade do século XX.
“Ao entrar em contato com a história de ‘Menino 23’, meu primeiro grande impacto foi da ordem do inexplicável, do inimaginável e do inacreditável. Como compreender quando toda razão civilizatória desaparece diante do desprezo, da intolerância e mesmo do ódio de que foram vítimas aqueles 50 meninos. Embora tenha sido uma história que aconteceu há quase 90 anos, é possível encontrar ainda hoje muitos traços na nossa sociedade que são igualmente inexplicáveis, inimagináveis e mesmo inacreditáveis, dentro de uma ausente razão civilizatória”, explica Belisario, que vai passar pela delicada sabatina de Bebeto e de Mattos para expor sua metodologia.

Cena de “Nazinha”

Desde sua arrancada, no dia 20 de julho, o Na Real_Virtual já levantou questões estéticas que vão desde a escultura de planos até a consciência ética da construção da narrativa, o que torna o simpósio “o” evento do ano neste 2020 de pandemia. O rol de palestras reúnem a nata do documentário das Américas, como Petra Costa, Maria Augusta Ramos, Cao Guimarães, João Moreira Salles, Carlos Nader, Emílio Domingos, Rodrigo Siqueira, Joel Pizzini, Gabriel Mascaro, Marcelo Gomes e Walter Carvalho. Mas há questões também de viabilização de formato em foco nas conversas.
“As vitrines de streaming estão ajudando a aumentar o interesse pelo documentário”, diz Belisario. “Numa versão otimista, pode significar um aumento do número de produções. Numa versão pessimista, pode significar maior controle temático em função das audiências. Ainda é cedo para sabermos”.

O cardápio do Na Real-Virtual para os próximos dias contempla as seguintes questões, filmes e diretores:
Dia 5/8 – O filme-ensaio – Joel Pizzini. Filme: 500 Almas
Dia 7/8 – Estratégias narrativas – Gabriel Mascaro. Filme: Doméstica
Dia 10/8 – Por um cinema híbrido – Rodrigo Siqueira. Filme: Orestes
Dia 12/8 – Quando o real vira ficção – Marcelo Gomes. Filme: Viajo porque Preciso, Volto porque te Amo
Dia 14/8 – A periferia no centro – Emílio Domingos. Filme: Favela é Moda

p.s.: “Thor Ragnarok”, chanchada de super-heróis, é a aposta da “Tela Quente” desta segunda.

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