Belisario: franca evolução com ‘Menino 23’

Belisario: franca evolução com ‘Menino 23’

Rodrigo Fonseca

20 de junho de 2016 | 14h42

Um dos depoentes de

Um dos depoentes de “Menino 23”

De quinta-feira passada para cá, o Cine Ceará já cumpriu sua vocação de bom festival para garimpar pepitas ao revelar a sci-fi de DNA cearense Janaina Overdrive e o épico mexicano Epitáfio, mas não para por aí: de quebra veio a consolidação de um novo (e mais sofisticado) momento para um artesão do documentário, Belisario Franca. Veio dele um filme ovacionado, capaz de transcender sua natureza de denúncia para se cristalizar com um ensaio sobre vidas fraturadas por uma tragédia étnica: Menino 23 – Infâncias Perdidas no Brasil. Ao projetá-lo, num domingo lotado de gente e de bons curtas (a se destacar Fotograma, de Caio Zatti e Luiz Henrique Leal), a competição cearense demarcou uma evolução na trajetória cinematográfica do realizador de Amazônia Eterna (2012) e Estratégia Xavante (2007), colocando num outro patamar de potência estética, no qual a urdidura narrativa e a plasticidade visual tem tanto vigor quanto a investigação apresentada. O tema que lhe serve de aríete é o nazismo no país, a partir da descoberta (via pesquisas do historiador Sidney Aguilar) de uma fazenda no interior de São Paulo onde os tijolos tinham a suástica como ornamento. Pior do que o adorno era a prática de exploração racista feita em seu interior.

Lá, nos idos de 1930, um grupo de 50 órfãos negros, tirados de uma instituição carioca, eram submetidos a trabalho escravo. Dois dos sobreviventes relembram o inferno. Um o faz com ódio no peito. Outro, com a quietude de quem fez as pazes do passado. Mas se não bastasse o desafio de equilibrar a exposição de atrocidades com a cartografia das subjetividades dali oriundas, Belisario ainda cria uma camada a mais – talvez a mais sofisticada e dolorosa -, dedicada a um terceiro personagem, já finado, mas perpétuo como fantasmagoria. Trata-se do menino de número dois (todos os “escravos” eram chamados por algarismos). Ele era o mais próximo dos patrões e morre com a mágoa desse passado de servidão. Na tela, esse desenho ganga contornos nietzschianos, ao se evocar o Nietzsche de Assim Falou Zaratustra, na lógica das Três Metamorfoses do Espírito Humano, que passa de Camelo (o que carrega a corcova da obediência) a Leão (o que ruge violento para a vida) e, depois, na ascese, para Criança (sorrindo um sim para a Existência). É, portanto, um filme de ideias sólidas, de forma elegante e de alma, com estreia em circuito marcada para 7 de julho, colocando Belisario entre os grandes nomes do documentário nacional.

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