‘Belfast’: como era verde o vale de Branagh

‘Belfast’: como era verde o vale de Branagh

Rodrigo Fonseca

25 de novembro de 2021 | 06h51

RODRIGO FONSECA
Exibido por terras ibéricas, há uma semana, no Festival de Sevilha, onde chegou cheio de moral por conta do prêmio de júri popular conquistado em Toronto, em setembro, o dulcíssimo “Belfast” sobrevive de três belas sequências, onde o virtuosismo da fotografia PB de Haris Zambarloukos beira a excelência plena. Duas dessas sequências são ligadas ao chamado The Toubles, movimento separatista que cindiu a Irlanda do Norte de 1960 (quando a trama se passa) a 1998, numa divisão entre católicos e protestantes que ia além de credos, resvalando por elementos de ocupação espacial. E o terceiro grande momento dessa enxuta (98 minutos) dramédia memorialista envolve uma situação de canto e dança na qual Jamie Dornan dá 50 tons de cinza (e de carisma) ao preto e branco que traduz as recordações de Kenneth Branagh. É, de longe, o melhor trabalho de direção do autoproclamado emissário de Shakespeare na Terra desde o seu monumental “Hamlet” (1996). E olha que ele acertou muito (“Como Você Quiser”; “Thor”; “Assassinato no Expresso do Oriente”; e “A Pura Verdade”) desde então. Há, sim, um gosto de uma formatação genérica nesse seu novo trabalho, com conexões um tanto quanto forçadas com as cartilhas de “Como Era Verde Meu Vale” (1941), “Esperança e Glória” (1987) e mesmo o pouco citado “Terra de Sonhos” (2002). Mas seu visual arrebatador, no equilíbrio de matizes do preto e do branco e do requinte dos enquadramentos, que suplanta o sabor de “já vi isso aí”, no canto da boca. E o charme com que Ciarán Hinds interpreta um avô batuta para o menino Buddy (Jude Hill), o alter ego de Branagh, humaniza uma narrativa que segue as angústias de uma família – narradas pelo olhar do caçulinha – achatada por um esboço de guerra civil armado em sua vizinhança.

Caitriona Balfe e Jamie Doronan são um casal cuja paz é cindida pelos The Troubles da Irlanda do Norte

Escolhidas com uma precisão cirúrgica, de modo a estabelecer conexão com a dramaturgia, as canções de Van Morrison que inundam a trilha sonora de saudosismo são um acerto a mais na narrativa do diretor de “Voltar a Morrer” (1991). É possível que tenha chegado a hora de Branagh levar um Oscar para casa, dando a Dornan um prestígio que ele ainda não tem – como ator, para além do status de galã -, catapultando ainda a (tremenda) atriz irlandesa Caitriona Balfe ao estrelato.

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