‘Belfast’, a boa do Globo de Ouro no Festival do Rio

‘Belfast’, a boa do Globo de Ouro no Festival do Rio

Rodrigo Fonseca

13 de dezembro de 2021 | 18h06

Jude Hill em vestes de Thunderbird: ator é o altyer ego mirim de Kenneth Branagh no lonha indicado a sete estatuetas da festa anual da Hollywood Foreign Press Association

RODRIGO FONSECA
Ao agendar uma sessão de “Belfast” para o último dia de sua programação, neste domingo, numa projeção às 18h30, no Estação NET Gávea 5, o 23º Festival do Rio acabou marcando um inusitado golaço, uma vez que o novo longa-metragem de Kenneth Brannagh disparou nas indicações ao Globo de Ouro de 2022, a ser entregue no dia 9 de janeiro. Laureada com o prêmio de júri popular no Festival de Toronto, em setembro, esse dulcíssimo “Amarcord” do shakespeariano ator e diretor de “Hamlet” (1996) está concorrendo à láurea da Hollywood Foreign Press Association em sete frentes, empatado com o devastador “Ataque dos Cães”, de Jane Campion. “Madres Paralelas”, que abriu o evento carioca e vai ser lançado na Netflix, está no páreo do Globo de Melhor Filme de Língua Estrangeira ao lado de outras três sensações do Festival do Rio: o japonês “Drive My Car”, o finlandês “Compartment nº 6” e o iraniano “Um Herói”, todos com exibições agendadas para este fim de semana.

“Belfast” sobrevive de três belas sequências, onde o virtuosismo da fotografia PB de Haris Zambarloukos beira a excelência plena. Duas dessas sequências são ligadas ao chamado The Troubles, movimento separatista que cindiu a Irlanda do Norte de 1960 (quando a trama se passa) a 1998, numa divisão entre católicos e protestantes que ia além de credos, resvalando por elementos de ocupação espacial. E o terceiro grande momento dessa enxuta (98 minutos) dramédia memorialista envolve uma situação de canto e dança na qual Jamie Dornan dá 50 tons de cinza (e de carisma) ao preto e branco que traduz as recordações de Kenneth Branagh. É, de longe, o melhor trabalho de direção do autoproclamado emissário de Shakespeare na Terra. E olha que ele acertou muito (“Como Você Quiser”; “Thor”; “Assassinato no Expresso do Oriente”; e “A Pura Verdade”) desde então. Há, sim, um gosto de uma formatação genérica nesse seu novo trabalho, com conexões um tanto quanto forçadas com as cartilhas de “Como Era Verde Meu Vale” (1941), “Esperança e Glória” (1987) e mesmo o pouco citado “Terra de Sonhos” (2002). Mas seu visual arrebatador, no equilíbrio de matizes do preto e do branco e do requinte dos enquadramentos, que suplanta o sabor de “já vi isso aí”, no canto da boca. E o charme com que Ciarán Hinds interpreta um avô batuta para o menino Buddy (Jude Hill), o alter ego de Branagh, humaniza uma narrativa que segue as angústias de uma família – narradas pelo olhar do caçulinha – achatada por um esboço de guerra civil armado em sua vizinhança.
Escolhidas com uma precisão cirúrgica, de modo a estabelecer conexão com a dramaturgia, as canções de Van Morrison que inundam a trilha sonora de saudosismo são um acerto a mais na narrativa do diretor de “Voltar a Morrer” (1991). É possível que tenha chegado a hora de Branagh levar um Oscar para casa, dando a Dornan um prestígio que ele ainda não tem – como ator, para além do status de galã -, catapultando ainda a (tremenda) atriz irlandesa Caitriona Balfe ao estrelato.

p.s.: Nesta terça, “Madalena”, de Madiano Marcheti, um dos longas nacionais mais badalados do ano no exterior, vai encerrar a seleção competitiva do 16º Fest Aruanda. Com toques de suspense e muita contemplação, esta silenciosa narrativa explora as sequelas existenciais (e morais) do assassinato de uma mulher três, vista sob a ótica de personagens distintos. Embalada por uma onipresente sensação de tensão, nunca taquicárdica, mas viva, a longa se constrói a partir de uma figura ausente: é a descoberta do cadáver de Madalena que detona a inquietação dos três protagonistas, Luziane (Natália Mazarim), Bianca (Pamella Yule) e Cristiano (Rafael de Bona), que não têm conexões entre si, egressos de realidades socioculturais diferentes.

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