Belas Artes celebra 20 anos de ‘Lavoura Arcaica’

Belas Artes celebra 20 anos de ‘Lavoura Arcaica’

Rodrigo Fonseca

11 de outubro de 2021 | 19h31

Selton Mello aprendeu a ser o profeta de seu próprio destino – no caso, ser um dos maiores atores do país e um diretor de fibra – em “Lavoura Arcaica”, tema de debate no Petra Belas Artes, em SP, nesta quinta

Rodrigo Fonseca
Ainda é incalculável o bem que “A Paixão Segundo GH” – adaptação do romance homônimo de Clarice Lispector, já rodado e montado, com Maria Fernanda Cândido em estado de graça em cena – pode fazer aos olhos – e à autoestima do cinema brasileiro – em sua visita semiótica a Max Ophüls, Vincente Minnelli e Douglas Sirk, mantendo a brasilidade em seu existencialismo, como só se poderia esperar Luiz Fernando Carvalho. Hoje debruçado em um projeto de série sobre a nossa História, o mais revolucionário diretor novelas e microsséries que a TV brasileira já conheceu tem essa joia já lapidada para extrair do garimpo. Enquanto espera a hora certa – uma hora sem covid-19 -, Luiz prepara uma revisão seminal de seu primeiro longa, “Lavoura Arcaica” (2001), num debate com o crítico Luiz Carlos Merten e o (nosso) editor Ubiratan Brasil, marcado para esta quinta-feira, às 22h, no Cine Petra Belas Artes, em São Paulo. É uma forma de festejar os 20 anos de uma obra-prima com a qual o diretor assombrou o audiovisual na primavera da chamada Retomada. Às 19h rola a sessão do filme.
Em 1995, após cinco anos de degredo nas atividades cinematográficas do país, por conta da extinção da Embrafilme (distribuidora e fomentadora), numa canetada do então presidente Fernando Collor, o filme “Carlota Joaquina – A Princesa do Brasil” reinaugurou o sonho de se filmar com continuidade e excelência no país, abrindo as comportas para novos talentos. Saído de novelas e de especiais cultuados como “Renascer” (1993) e “Os Homens Querem Paz” (1991), Luiz Fernando enveredou pelos longas dialogando, a partir de imagens em movimento, com um marco da literatura nacional, a tal “lavoura” de Raduan Nassar, publicada em 1975. Em seu lançamento, a produção revolucionou todas as noções plásticas e filosóficas da arte de contar histórias com uma câmera, na fricção do Tempo e do Espaço, conquistando 52 prêmios planeta adentro. Conquistou troféus em Biarritz, Montreal, Lima, Havana, Trieste, Valdívia e em mais uma penca de cidades – incluído Brasília, de onde saiu com seis Candangos.
Espécie de estudo semiológico sobre a instituição família e sobre a ancestralidade, “Lavoura Arcaica” provoca um misto de euforia e desalento, quase como em um paradoxo. E as duas sensações são afluentes de uma mesma e caudalosa água: a liquidez da transgressão. A euforia se dá pelo fato de o choque estético causado pela prosa de Nassar em Luiz Fernando ter conduzido o cineasta a filmar da maneira mais pessoal possível, sem fronteiras mercadológicas e sem compromissos teóricos. A razão do desalento: a incômoda impressão de o longa parecer um caso isolado de invenção em nosso cinema, de uma potência jamais igualada.

Simone Spoladore despontou para os holofotes do cinema no longa de Luiz Fernando Carvalho

Exuberante, o trabalho de Luiz Fernando talvez constituísse uma exceção mesmo na pangéia latino-americana, capaz de se amalgamar a outros poucos gestos cinéfilos do continente, como “Hamaca paraguya”, de Paz Encina, egresso de Asunción, em 2006; “Post Tenebras Lux”, do mexicano Carlos Reygadas, em 2012; e “O Abraço da Serpente”, do colombiano Ciro Guerra, em 2015. Poucos foram os realizadores que se devotaram tanto à busca por uma sintaxe inovadora capaz de conciliar a fúria criativa da palavra literária com o apetite voraz da câmera. A feliz comparação deste diálogo do audiovisual com o texto de Raduan Nassar com “Limite” (1931), de Mario Peixoto, apontada em sua estreia, no site “No.”, pelo crítico Carlos Alberto Mattos torna-se ainda mais pertinente conforme a produção contabiliza primaveras. Ambos falam de tempo. Ambos tratam tempo como Tempo, com o T maísculo que ressalta sua divindade. Para Peixoto e Luiz Fernando, o Tempo é quase um deus. Uma força demiúrgica que parece violar os Homens em sua fome de vitalidade, mas que é capaz de compensá-los com a iluminação, com o conhecimento. É sobre isso que versa a parábola do jovem André (Selton Mello) que quer ser profeta de sua própria história. Ela versa sobre a incapacidade que o ser humano tem de aprender com a Eternidade, dançando sua música sem obedecer a passos rígidos. Fotografado de modo feérico por Walter Carvalho, “Lavoura arcaica”, o filme, tenta traduzir em um jorro imagético a importância da ancestralidade no caminho de cada um, tendo um soberbo Raul Cortez no papel de um pai controlador, que não entende o desejo de André em ganhar o mundo. Entende menos ainda a fúria nos instintos da filha vivida por Simone Spoladore. A trilha sonora é de Marco Antônio Guimarães.
Em 2021, Luiz Fernando ainda celebra outra efeméride: os 30 anos de seu “Os Homens Querem Paz”, um nordestern que exibiu na “Terça Nobre”, em 1991, consagrando Letícia Sabatella, a partir de uma peça radiofônica de Péricles Leal. Nele, o diretor arrancou um desempenho devastador de Paulo Betti, na pele de um cangaceiro em busca de vingança.

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