‘Beginning’, um filme pras listas de 10 Mais do ano

‘Beginning’, um filme pras listas de 10 Mais do ano

Rodrigo Fonseca

28 de dezembro de 2021 | 14h08

Rodrigo Fonseca
Na hora de fechar sua lista de melhores do ano, os “10 Mais de 2021”, passeando por “Ataque dos Cães”, “Marighella”, “A Mão de Deus” e “Judas e o Messias Negro”, não esqueça de uma joia da Geórgia chamada “Beginning” (“Dasatskisi”), que entrou em cartaz na plataforma digital MUBI, em janeiro. O fato de não ter passado pelo circuito comercial brasileiro, indo diretamente para o www.mubi.com, não exclui sua relevância entre os principais lançamentos deste ano em nosso país. Trata-se de um espetáculo visual chancelado com o selo de Cannes e tratado como obra-prima em sua passagem pelos festivais de Toronto – onde recebeu o Prêmio da Federação Internacional de Imprensa Cinematográfica – e de San Sebastián. Em sua passagem pelo evento espanhol, em 2020, o longa-metragem saiu com a Concha de Ouro e os troféus de melhor direção e de melhor roteiro, transformando a cineasta estreante Dea Kulumbegashvili, de 36 anos, em uma sensação na seara autoral do audiovisual. Ela virou uma sensação poética em uma nação reconhecida na indústria cinematográfica por ter diretores autorais como Mikhail Kalatozov, ganhador da Palma de Ouro, em 1958, por “Quando Voam as Cegonhas”; e Serguei Paradjanov, do premiado “A Lenda da Fortaleza Suram”.
“Cresci num ambiente de enorme beleza natural, mas de muitas contradições sociais. Tento levar essas diferenças paras as telas. Pude vê-lo, numa projeção em Cannes, em tela grande, em uma sessão única. Já vocês, no Brasil, vão conhecer a minha Geórgia via streaming. Mas é bonito ver o que a MUBI está fazendo, para levar um cinema de risco para o mundo”, disse a diretora ao P de Pop, via Zoom. “O cinema, como mídia física, está mudando num momento em que somos rodeados por imagens. É curioso estar num espaço que congrega pessoas num outro ambiente, o da rede. Pensei esse filme para tela grande, mas é interessante entender a experiência de vivenciá-lo numa plataforma digital”.

A cineasta Dea Kulumbegashvili

Preparando um novo longa, ela integrou o júri cannoise da competição de curtas do ano passado e presidiu o júri de San Sebastián deste ano, coroando o drama romeno “Crai Nou” (“Lua Azul”), de Alina Grigore, com a concha dourada. “O cinema veio com uma potência feminina extrema este ano. Estamos buscando novos espaços, buscando vozes”, disse ela na Espanha, ao entregar os prêmios do prestigiado festival ibérico. “O que me levou a fazer esse filme era falar de uma mulher que, social e dramaturgicamente, fosse encarada como uma figura secundária no arranjo das representações de um mundo onde ela foi confinada ao rótulo de ‘a esposa do pastor’ e nada mais. Perceber que as mulheres possam ser esnobadas assim me traz raiva e me abre a necessidade de querer retratar essa pessoa por um prisma não convencional”, disse Dea ao Estadão, em San Sebastián, referindo-se a Yana, papel que deu mais um prêmio a “Beginning”, na Espanha: o de melhor atriz, confiado a Ia Sukhitashvili.
Tendo só curtas em seu currículo como realizadora, ela recebeu o prêmio máximo de San Sebastián por seu exótico estudo da luta de uma mulher para não ser esmagada pela vaidade e pela libido dos homens. Presidente do júri do evento espanhol, o cineasta italiano Luca Guadagnino (de “Me Chame Pelo Seu Nome”) definiu o drama pilotado por ela – cujo foco é uma comunidade de Testemunhas de Jeová – como sendo “uma revelação, uma experiência cinemática das mais autênticas”. Não por acaso, na MUBI, há uma conversa dela com Luca.
“O cinema nos possibilita uma relação quase instintiva com o que existe de misterioso na natureza humana. E este filme é uma tentativa de modelar o mistério, a partir da reflexão sobre a opressão. Tive uma colega de classe que era Testemunha de Jeová aqui e ela vivia sempre num certo ostracismo pela maneira como essa prática religiosa era encarada na Geórgia como algo novo. Aqui, durante o governo soviético, muitas igrejas e tempos viraram cinemas”, disse Dea ao Estadão. “A vida em sociedade, tal qual ela deveria ser, para alcançar alguma harmonia, pressupõe que olhemos para o próximo. O que eu tento nesse filme é levar a plateia a olhar pra Yana e entender quem ela é”.

Na trama escrita por Dea e Rati Oneli, coproduzida pelo realizador mexicano Carlos Reygadas (de “Luz Silenciosa”), Yana é uma atriz que não teve sucesso em sua carreira nos palcos – ou não teve chances de apostar no teatro, com a liberdade necessária. Longe do teatro, ela casou com um sacerdote e teve um filho, que está à beira de adolescer. O templo deles, na cidade de Lagodekhi, é incendiado por coquetéis Molotov nos primeiros minutos de “Beginning”, em um dos planos longuíssimos onde a câmera pouco se mexe, deixando personagens importantes fora de quadro, para entender as reações de Yana à brutalidade que lhe imposta por múltiplos homens, alheios a seus sentimentos. “Cada personagem tem uma dor interna, mesmo aqueles que explicitamente associamos a uma ideia de maldade. Contudo, essa ideia não passa pela representação metafísica de Bem e de Mal. Não é isso que me interessa, assim como não dá para dizer que fiz um filme sobre religião. Há, sim, uma prática religiosa ali. Mas eu não me atenho a suas ideologias e, sim, às dinâmicas de convivência de seus praticantes”, diz Dea, que conversou com Reygadas, vencedor do prêmio de direção em Cannes, em 2012, por “Post Tenebras Lux”, acerca de suas escolhas narrativas, consideradas radicais. “Com ele, eu notei que cinema não se faz de formalismos, mas de humanidade”.
Situada na Eurásia, na região do Cáucaso, com 69.700 km² e 3,7 milhões de habitantes, a Geórgia viu, em seus dias de integrante da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), uma outra mulher cineasta atrair as atenções da cinefilia global: Nutsa Gogoberidze (1902-1966), conhecida por longas como “Bulba” (1930). O DocLisboa de 2020 celebrou seu legado. A Geórgia brilhou este ano na Berlinale com a fábula “What Do We See When We Look at the Sky?”, de Aleksandre Koberidze, laureado pela Fipresci, em março – e já agenado para a MUBI. Mas Dea não se vê como parte dessa tradição, não por desdém ao passado, mas por enxergar que o cinema de sua pátria goza de pluralidade. Conhecida em festivais pelos curtas-metragens “Invisible Spaces” (2014) e “Léthé” (2016), ela diz que seus conterrâneos têm autonomia política e meios para expressarem suas ideias com absoluta liberdade. “Todo mundo que faz cinema na Geórgia tem uma voz própria, o que estimulou o surgimento de uma geração de jovens talentos forte”, diz a diretora. “Cada filme é uma aventura singular”.

p.s.: Falando dos melhores do ano, a Amazon Prime disponibiliza para aluguel uma das surpresas do cinemão em 2021: “Infiltrado” (“Wrath of Man”), de Guy Ritchie. Nunca a incorreção política foi tão necessária quanto nesta Idade Média que vivemos (à direita E à esquerda), tão avessa à afirmação do corpo, o que torna este elegante thriller de ação um antídoto contra o emasculamento e contra a aversão às discussões sociológicas do crime. Com sua deliciosa canastrice, Jason Statham beira o sublime ao retomar sua parceria com o realizador de “Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes”, que o revelou em 1998. Ele vive um misterioso contraventor que se infiltra numa empresa de transporte de valores a fim de realizar uma vingança. A dublagem nacional de Statham, feita por Armando Tiraboschi, merece um Oscar. Sua bilheteria: US$ 103,9 milhões.

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