‘Beginning’: Geórgia vence San Sebastián

‘Beginning’: Geórgia vence San Sebastián

Rodrigo Fonseca

26 de setembro de 2020 | 17h24

Dea Kulumbegashvili, estreante em longas, pilota “Beginning” (“Dasatskisi”): Concha de Ouro de 2020

Rodrigo Fonseca
Sintonizado com a invenção, o júri do 68º Festival de San Sebastián, presidido pelo diretor italiano Luca Guadagnino, escolheu uma estreante em longas-metragens, que apostou no risco sem qualquer pudor, para receber a Concha de Ouro deste enfermo 2020: egressa da Geórgia, tendo só curtas em seu currículo como realizadora, Dea Kulumbegashvili, recebeu o prêmio máximo do evento pelo exótico “DASATSKISI” (“BEGINNING”). Segundo Guadagnino, o drama pilotado por ela a partir de uma comunidade de Testemunhas de Jeová da Geórgia, é “uma revelação, uma experiência autêntica”. Por isso, ela recebeu ainda os prêmios de Melhor Direção, Melhor Roteiro e Melhor Atriz, dado a Ia Sukhitashvili. No longa, Dea gasta quase cinco minutos num plano estático de uma mulher (Ia) deitada na relva. Seu plano inicial, com um atentado a coquetéis Molotov em um culto evangélico, já eriça qualquer plateia. O que vem depois, em um desfile de planos estilizados, um mais belo que o outro, é um estudo sobre o dia a dia de um núcleo fervoroso de fiéis cristãos numa província georgiana assolado por grupos extremistas. O atentado do início faz arder não apenas um templo como o casório de uma jovem com o pastor local. E esse ardor rende closes que se congelam, revelando paisagens afetivas que o silêncio sulca. É um procedimento aberto a muitas especiarias, de luz, de cor, de captação de som. É um feito imponente para uma potência estreante. “Eu vejo a vida com a beleza e escolhi filmar num lugar belo. Mas o que pode haver de bonito na imagem não tema a ver com estetização e, sim, com o empenho em ser sincera, no estudo de uma mulher”, disse Dea ao P de Pop em San Sebastián. “Meu assunto aqui não é a religião em si, mas as escolhas que fazemos”.
Filme mais festejado da competição, “Druk” (“Another Round”) – em que o dinamarquês Thomas Vinterberg mostra um experimento no qual um grupo de amigos são levados a bater uma cota de álcool no sangue todo dia – saiu com um prêmio coletivo para seus atores. Mads Mikkelsen, parceiro de Vinterberg em “A Caça” (2012), é um deles. O longa japonês “Any Crybabies Around?”, sobre uma festa no qual fantasias de ogros assustam crianças, saiu com a láurea de melhor fotografia. E o Prêmio Especial do Júri foi dado a um .doc produzido pelo ator Johnny Depp: “Crock of Gold: A Few Rounds With Shane MacGowan”, no qual o inglês Julien Temple aborda o dia a dia de um ícone do punk e da resistência cultural irlandesa.

Ia Sukhitashvili recebeu a láurea de melhor atriz pelo longa de Dea

GANHADORES
CONCHA DE OURO: “Beggining”, de Dea Kulumbegashvili
PRÊMIO DO JÚRI: “Crock of Gold: Few Rounds With Shane MacGowan”, de Julien Temple
DIREÇÃO: Dea Kulumbegashvili (“Beginning”)
ATRIZ: Ia Sukhitashvili (“Beginning”)
ATOR: Mads Mikkelsen, Thomas Bo Larsen, Magnus Millang e Lars Ranthe por “Druk” (“Another Round”)
ROTEIRO: Dea Kulumbegashvili e Oneli Rati (“Begining”)
FOTOGRAFIA: Yuta Tsukinaga, por “Any Crybabies Around?”
PRÊMIO NEW DIRECTORS: Isabel Lamberti, por “La Última Primavera” (Espanha/Holanda), com menção honrosa para Dong Xingyi, por “Slow Singing” (China)
PRÊMIO HORIZONTES LATINOS: “Sin Señas Particulares”, de Fernanda Valdez (México), com menção honrosa para “Las Mil y Una”, de Clarisa Navas (Argentina)
PRÊMIO ZABALTEGI TABAKALERA: “A Metamorfose dos Pássaros”, de Catarina Vasconcelos (Portugal), com Menção honrosa para “The Woman Who Ran”, de Hong Sangsoo (Coreia do Sul)
PRÊMIO DO PÚBLICO PERLAK: “The Father”, de Florian Zeller
PRÊMIO DO PÚBLICO EUROPA: “El Agente Topo”, de Matie Alberdi
PRÊMIO DA CRÍTICA: “Wuhai”, de Zhou Ziyang

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