‘Beginning’ em ‘começo’ de carreira nas telas

‘Beginning’ em ‘começo’ de carreira nas telas

Rodrigo Fonseca

07 de dezembro de 2020 | 12h12

Rodrigo Fonseca
Previsto para estrear nesta sexta-feira numa Espanha que ensaia uma volta ao (novo) normal em meio à equalização da luta contra a covid-19, “DASATSKISI” (“BEGINNING”) vai fechar o ano como objeto de culto e ímã de prêmios, tendo sido coroado com a chancela de Cannes para abrir uma estrada de consagração para sua diretora, Dea Kulumbegashvili, da Geórgia. Sintonizado com a invenção, ao longo de seus dias de trabalho, de 18 a 26 de setembro, o júri do Festival de San Sebastián, presidido pelo diretor italiano Luca Guadagnino, escolheu essa realizadora, que é estreante em longas-metragens e apostou no risco sem qualquer pudor, para receber a Concha de Ouro deste enfermo 2020. Tendo só curtas em seu currículo como cineasta, Dea Kulumbegashvili, recebeu o prêmio máximo do evento por seu exótico estudo da resiliência feminina. Segundo Guadagnino, o drama pilotado por ela – tendo como arena uma comunidade de Testemunhas de Jeová – é “uma revelação, uma experiência cinemática das mais autênticas”. Por isso, ela recebeu ainda os prêmios de Melhor Direção, Melhor Roteiro e Melhor Atriz, dado a Ia Sukhitashvili. No longa, de uma força trágica sufocadora, Dea gasta quase cinco minutos num plano estático de uma mulher (Ia) deitada na relva. Seu plano inicial, com um atentado a coquetéis Molotov em um culto evangélico, já eriça qualquer plateia. O que vem depois, em um desfile de planos estilizados, um mais belo que o outro, é um estudo sobre o dia a dia de um núcleo fervoroso de fiéis cristãos numa província georgiana assolado por grupos extremistas. O atentado do início faz arder não apenas um templo como o casório de uma jovem com o pastor local. E esse ardor rende closes que se congelam, revelando paisagens afetivas que o silêncio sulca. A tal jovem, vivida brilhantemente por Ia, é uma atriz cuja carreira não vingou, num desacerto que seu marido esfrega em sua cara a todo instante. Compartilhamos de sua dor a partir de um procedimento narrativo aberto a muitas especiarias, de luz, de cor, de captação de som. É um feito imponente para uma potência em fase de estreia. Fase essa coroada ainda com o Prêmio da Crítica dado pela Federação Internacional de Imprensa Cinematográfica (Fipresci) em Toronto e com o prêmio de melhor filme no Festival de Adelaide, na Austrália.
“Eu vejo a vida com a beleza e escolhi filmar num lugar belo. Mas o que pode haver de bonito na imagem não tema a ver com estetização e, sim, com o empenho em ser sincera, no estudo de uma mulher, cujo mundo interior contrasta com aquela geografia”, disse Dea ao P de Pop em San Sebastián. “Meu assunto aqui não é a religião em si, mas as escolhas que fazemos. E uma escolha vista a partir de um universo, a Geórgia mais interiorana possível, que pouca gente conhece”.

A cineasta Dea Kulumbegashvili

Logo após a consagração em San Sebastián, Dea integrou o júri de Cannes, que deu a Palma de Ouro de 2020 ao curta-metragem egípcio “I Am Afraid to Forget Your Face”, de Sameh Alaa. Uma outra sensação do festival espanhol deste ano, o longa brasileiro “Casa de Antiguidades”, de João Paulo Miranda Maria, agora tenta a sorte no Festival do Cairo, apoiado no carisma do ator Antonio Pitanga e na primorosa direção de arte de Isabelle Bittencourt. Na trama, Pitanga vive Cristovam, empregado de um laticínio que se defronta com o racismo escancarado num Sul separatista.

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