‘Beduíno’ confirma a potência (e a necessidade) de Bressane

‘Beduíno’ confirma a potência (e a necessidade) de Bressane

Rodrigo Fonseca

15 Maio 2017 | 01h38

É difícil pensar num plano mais bonito (e mais cheio significado) entre os filmes brasileiros lançados em 2017 do que este de “Beduino”: Bressane da melhor safra

RODRIGO FONSECA
É comum se ouvir falar do cinema de Julio Eduardo Bressane de Azevedo como sendo o que de mais hermético (e esnobe) o audiovisual brasileiro já produziu, talvez porque a transcendência por ele alcançada (e generosamente compartilhada conosco, filme a filme) exija um grau de liberdade que demanda disposição para incomodo e dúvida. Há um Bressane hoje em cartaz no país que cai como colírio nas retinas, pelo requinte na luz dos fotógrafos Pablo Baião e Pepe Schettino e na direção de arte de Moa Batsow. É um Renascimento por quadro: uma descoberta nova, na reta do antropocentrismo, daquele dos mais demasiados, no qual as vaidades humanas e suas infantilidades mais mimadas explodem em cena. Às vezes elas chegam como a encenação de uma guerra com metralhadoras de plástico. Às vezes chegam nos vagões de um Ferrorama que “ivagina” a nudez de Alessandra Negrini. É sempre algo da ordem do brincar. Algo que se amontoa num jogral de signos sobre a arte de narrar e sobre o próprio cinema de Bressane, trazendo à tona Memórias de um Estrangulador de Loiras (1971), um dos filmes mais cultuados do diretor, não como uma continuação, mas como uma revisita, como uma “ressurreição de arquivo”, bem parecido com o procedimento tomado por Manoel de Oliveira em relação ao aclamado A Bela da Tarde (1967), de Buñuel, ao filmar Belle Toujours (2006). O mesmo se deu em Luz nas Trevas (2010), de Helena Ignez, em relação a O Bandido da Luz Vermelha (1968), de Rogério Sganzerla. São ressurreições e ressignificações, como aponta o “Tá bom assim?”, perguntado por Fernando Eiras ao próprio Bressane numa das tomadas deste seu novo trabalho, que foi elogiado em sua passagem pelo Festival de Locarno, em 2016.

Lá, ele é encarado como um mestre, de cógito autoral – não algo hermético, carregado de enobismo. Aliás, neste momento em que o cinema nacional computa toda presença em mostras estrangeiras de filmes como vitória (e faz bem em proceder é assim), falta um reconhecimento ao gás que a filmografia de Bressane injetou nos motores de nossa internacionalização. Desde que a Retomada começou, em 1995, não houve um longa-metragem dirigido por ele – e foram dez, em 22 anos – que não conquistasse um espaço nos maiores festivais do mundo, entre Cannes, Veneza, Roterdã e Locarno. Em 50 anos na direção de longas, sua obra levou o Brasil pra fora numerosas vezes: não um Brasil alegórico, com macumba pra turista, mas um Brasil poético, irônico, sensual. Bressane é pra rir: pra rir com ele e não dele, como comprovam alguns dos diálogos de Eiras e Alessandra em Beduíno, no qual, entre rizomas (e não personagens), o diretor revive seu próprio cinema em reação ao esgotamento das rebeldias e dos projetos estéticos de seus conterrâneos. Como Voltaire, ele ri da impotência alheia para dar a seu sistema de ideias uma instância livre de códigos e arquétipos. O saudoso Guará Rodrigues (1943-2006) volta à tela, na evocação do filme de 71 como uma (boa) ideia de fantasmagoria: as louras mortas de ontem são a neurose introjetada de um presente em erosão política e simbólica. É um exercício de reação, o que só nos mostra o quão necessário Bressane é e quão grande Alessandra fica a cada parceria com ele, tendo em Eiras um Rimbaud a mover os remos de seu barco ébrio de contestações elegantes (mas doídas).