Bat-sinal da excelência ilumina Wendel Bezerra

Bat-sinal da excelência ilumina Wendel Bezerra

Rodrigo Fonseca

05 de setembro de 2020 | 13h10

Aos 46 anos, o paulistano Wendel Bezerra, lenda da dublagem, dá voz a Robert Pattinson na versão brasileira do trailer do esperado “The Batman”

Rodrigo Fonseca
Virou um verdadeiro Fla x Flu, numa enxurrada de “gostei” x “não gostei”, a brevíssima (mas cirúrgica) atuação de voz do paulistano Wendel Bezerra na versão dublada do trailer do ansiado “The Batman”, de Matt Reeves, emprestando seu Português ao londrino Robert Douglas Thomas Pattinson. A polêmica criada, com mimimi acerca do tom menos grave e gutural do que os das versões brasileiras anteriores do guardião de Gotham, catapultou ainda mais para o estrelato o dublador e locutor de 46 anos, que soma hoje 39 de carreira, tendo começado em seu ofício ainda pimpolho. Celebrizado previamente como o Goku de “Dragon Ball Z” e o calça-quadrada Bob Esponja, ele colecionou elogios por seu trabalho memorável como Samwise Gamgee (Sean Austin) na trilogia “O Senhor dos Anéis”. “É um trabalho antológico, que traduz toda a grandeza do Sam em cena”, elogia o pesquisador Fábio Paladino, um dos maiores estudiosos na obra de J. R. R. Tolkien no Brasil. “Era para o Austin ter sido indicado ao Oscar por seu trabalho e, se houvesse um Oscar de dublagem, este deveria ir para o Wendel”.

De direção de dublagem, Wendel tem 23 anos, tendo dirigido na Dublavídeo, na Álamo, na Vox Mundi e, hoje na UniDub, seu próprio estúdio, considerado um dos melhores do país. Seu vasto currículo (beira 25 mil títulos) fala alto no mercado, mas seu carisma fala mais alto ainda no coração e nos tímpanos de seus fãs. Pattinson, ator em perpétua desconstrução, ganha plena organicidade ao ser vertido por ele para o português, vide (o tenso) “Bom Comportamento” (2017). Ainda não se sabe se é ele quem vai dublar Pattinson no longa de Reeves quando o projeto sair inteiramente do papel. Mas a força com que Bezerra diz “Eu sou a vingança” reverbera pelos quatro cantos da cultura pop. No papo a seguir com o Estadão, ele faz um balanço de sua carreira, de sua arte e do que o Homem-Morcego representa.

Pattinson é o novo Bruce Wayne

O que existe de mais característico na voz de Robert Pattinson e como você avalia a história que ele vem construindo nas telas?
Wendel Bezerra:
Robert Pattinson tem uma voz suave, nem muito grave, nem muito aguda. É suave e aveludada. Não costuma falar com muita projeção de voz, é um cara que costuma falar mais baixo, suavemente. Ele fez o “Crepúsculo” bem e, para uma determinada geração, ficou marcado como um ator que fez uma história romântica adolescente. Isso incomodou a ele e foi atrás de construir sua própria história como ator. É obvio que ele teve milhares de convites para fazer o galãzinho de histórias românticas, mas foi atrás de desconstruir essa imagem e foi se especializando. Você vê filmes como “Bom Comportamento”. Ali, fazendo o laboratório pro personagem, ele saiu com os diretores (os irmãos Safdie) pelas ruas, um dia, e ninguém reconheceu ele. Ou seja, ele estava tão dentro do personagem na forma de andar e de mexer, que as pessoas não reconheceram que havia um astro de Hollywood ali. Você vê aí a entrega do cara em se adequar aos personagens. “O Farol” é um trabalho incrível. Tem “O Rei”, em que ele faz um personagem com sotaque francês. Agora, em “O Diabo de Cada Dia”, ele faz tipo um pastor, deu uma anasalada na voz. Fiquei até um pouco na dúvida na hora de gravar, se eu fazia o que ele estava fazendo ou não, pois corria o risco de ficar caricato. Tentei deixar no meio-termo, deixar anasalado, mas sem exagerar. Foi só para mostrar que eu estava fazendo algo diferente, que foi o que ele fez. O mais anasalado para um americano daquela região funcionou muito bem. Aqui, a gente precisa lembrar que está falando em Português, então, se eu fizer exatamente o que ele fez, ficaria muito caricato. A cada filme, ele faz um personagem diferente. Você vê o mesmo rosto, mas são personagens diferentes, e acho isso incrível. Tem muitos atores mega famosos que não conseguem diferenciar tanto os personagens. O Robert consegue trabalhar o rosto, a voz e o físico em função do personagem.
O que Bruce Wayne agrega a essa história de evolução dele?
Wendel Bezerra:
O Bruce Wayne é um personagem extremamente complexo. Imagino que vai do perfil do que o diretor e os produtores querem dar para esse Batman e essa história. Imagino que é a partir desse perfil psicológico que ele vá construir o personagem. Pelo pouquíssimo que vi, você vê no olhar dele. Caso alguém queira comparar, você pega o olhar dele em uma cena ali e o olhar dele em uma cena de “Crepúsculo”. Você vê que é outro personagem, vê no olhar dele o peso e o tom sombrio que o Bruce Wayne carrega. Acho que ele vai dar um salto inquestionável na carreira dele. Hoje em dia, ele é muito respeitado internamente. O grande público, que não se aproxima dos detalhes, acaba trazendo o “Crepúsculo”, que o cara fez há mais de uma década. Acho que desta vez, como a exposição é muito grande, o Bruce Wayne vai fazer com que ele dê um salto gigante em termos mundiais com relação ao público.

Qual é a dimensão simbólica do papel do Batman para uma carreira versátil como a sua? Em que momento o Batman se torna um personagem icônico na sua vida?
Wendel Bezerra:
Batman, por si só, já é um personagem incrível e marcante. Você tem (na dublagem dele) o Márcio Seixas que ficou mega consolidado na memória emotiva das pessoas que acompanhavam aquela voz do Batman. Aquela voz incrível que o Márcio tem. Os atores que fizeram o personagem em vários filmes possuem um tom mais grave do que o do Robert. Dos atores que interpretaram o Batman, acho que o Robert Pattinson é o que possui a voz mais leve e isso já é uma coisa nova e diferente. É um grande desafio ter que trabalhar o tempo inteiro em um tom mais sombrio e que carregue vingança, ódio, conflito interno entre o Bem e o Mal, o Certo e o Errado. Imagino que vá ser por aí. Não consigo falar como irei fazer, porque vou tentar acompanhar o Robert no que ele estiver fazendo. Fico tranquilo por saber que a minha voz é próxima da dele. O padrão vocal dele é próximo do meu. Acredito que possa ser um divisor de águas na minha carreira. Um marco assim como o Bob Esponja foi um divisor no sentido de que as pessoas falaram: “Nossa, o Wendel faz voz caricata”, e passaram a me chamar para muitos personagens de voz caricata. Talvez aconteça isso, de verem que faço uma coisa pesada e sombria. Fiz personagens nesse estilo, como, por exemplo, no “Ghost in the Shell” ou até na série “O Alienista”, mas não dá para comparar com o Batman. A exposição vai ser muito maior e acho que vou poder mostrar para muita gente uma vertente que sei que posso fazer. Tenho certeza e acho que esse é o ponto principal da questão. O Robert Pattinson não está pensando em qual voz ele vai fazer para interpretar: ele vai colocar o corpo dele a serviço do Bruce Wayne/Batman. Dentro desse corpo também está a voz, então ele não está preocupado com a voz, ele vai fazer a voz dele, que sair na cena. Eu simplesmente vou usar a minha voz para preencher o que o corpo dele está transmitindo naquele momento. É um personagem que vou levar para o resto da minha vida, assim como o Goku e o Bob Esponja são personagens mega marcantes, pelos quais tenho amor e gratidão. Vivi e vivo momentos maravilhosos na minha vida pessoal por causa dos dois. Certamente vai também haver algo assim com o Batman, caso eu venha a dublar o filme. Fiz o trailer, mas o filme é só daqui a um ano. Vou carregar com muito amor e carinho. Mesmo que eu não duble o filme. Só de ter feito essas duas falas pequenas no trailer já encheu o meu coração de alegria. Do mesmo jeito que teve muita gente que não gostou e reclamou, teve muita gente que gostou e me escreveu. Isso me deixou muito contente, então já é algo que vou carregar para o resto da minha vida.

Que gibis ou filmes dele mais te marcaram?
Wendel Bezerra:
Com relação a gibis, eu não lia muito, mas eu pegava os dos meus irmãos mais velhos. Tinha o “Tio Patinhas”, a “Turma da Mônica”, esse tipo de coisas. Já os filmes, eu os assisti, até o mais antigo com o Michael Keaton. Lembro que, na época, não gostei. Ele não me convenceu que era o Batman. Dos outros eu gostei bastante, gostei muito do George Clooney, bastante do Christian Bale. Um lance de que me lembro, de quando saiu o filme do Batman, era uma campanha da Pepsi em que se ganhava um Batmóvel de verdade. Lembro de comprar Pepsi porque queria ganhar muito aquele carro. Isso ficou muito marcado na minha memória de adolescente. Hoje, o julgamento (acerca da dublagem do trailer do filme “The Batman”) vem mais de quem viu outros Batmans, de quem viu “Crepúsculo” e tal. Recebi o vídeo de um garoto com uns 10 anos de idade falando: “Puxa, Wendel, vi você no trailer do Batman e achei incrível!”. Esse garoto, que está com o seu coração livre de julgamentos, viu o Batman, sabia que era eu e expressou espontaneamente o seu apreço pelo trabalho. Acho que sempre temos que pensar um pouco nisso: as coisas não são só para as gerações que já viram, são para as próximas também. E são para aquelas pessoas dispostas a enxergar espectros diferentes.

Calça-Quadrada

Como funciona a tua construção de voz personagem a personagem? Você tem uma “assinatura” vocal única. Como é essa engenharia artística numa atividade como a dublagem?
Wendel Bezerra:
Domínio da técnica e autoconfiança: essas duas coisas são fundamentais para você começar a fazer um bom trabalho como dublador. Por isso, o dublador demora a ficar pronto. Ele precisa ter um bom domínio técnico e ficar autoconfiante, o que demora para se conquistar. Como hoje eu tenho um domínio muito bom da técnica e tenho a autoconfiança de realizar o trabalho, em nenhum momento penso na minha voz. É quase que intuitivo, não paro para pensar, para construir, para elaborar a voz e ver em qual região vou jogar. Fico tão imerso no rosto do personagem, no tom que ele está falando, no ritmo que está falando, no movimento labial, na articulação, na expressão facial e corporal, que acho que a voz passa a ser acessório. Quase sempre utilizo a minha voz, pois sempre penso que o ator está utilizando a voz dele. O Bruce Willis, aqui, era magistralmente dublado pelo Newton da Matta. Hoje em dia, alguns clientes querem muito a coisa do ‘voice match’. Na história da dublagem, o melhor casamento de voz com um ator foi o do Da Matta com o Bruce Willis. Mas, hoje, ele não dublaria o Bruce Willis, casa o cliente quisesse o ‘voice match’. A minha questão é que a gente não deve buscar ‘voice match’ e sim ‘act match’. Tem o caso do Bruce Willis em “A Gata e o Rato”: quando ele foi fazer o teste, com mais 500 atores, ele não foi escolhido pela voz, e sim pela performance artística que ele teve no teste. Você precisa buscar uma voz que esteja dentro daquela faixa etária e daquele timbre, mas uma voz que consiga dar a mesma performance artística que o ator está fazendo. Se não, você joga fora todo o conceito artístico em função de um conceito auditivo. Você compra o que está assistindo e a voz precisa sair daquela boca com naturalidade. Eu não construo uma voz, eu tento entender a proposta do ator na tela e seguir o que ele está fazendo. Eventualmente, a minha voz vai sair mais grave, mais aguda, mais esganiçada, mais baixa… o que estiver de acordo com o que o ator propôs. Eu me coloco à disposição do ator, nunca tento colocar o que acho que tenho que ser. Acho que o dublador precisa passar o mias despercebido possível. No filme “Seis Vezes Confusão”, por exemplo, dublei o Marlon Wayans fazendo sete personagens. Ali sim, em alguns momentos, ele faz voz caricata. Então, eu fazia a voz caricata. Tem personagens em que, na atuação dele em inglês, não havia diferença nenhuma. A diferença era mais na característica física. Acho que, muito em função do Goku e da minha exposição na internet e na mídia, as pessoas reconhecem muito a minha voz. Acho que se eu não tivesse dublado o Goku e não aparecesse muito, mesmo com 39 anos de dublagem, as pessoas não reconheceriam muito a minha voz. Minha voz não é muito grave ou arranhada. É uma voz bem padrão. Hoje, acho bom que as pessoas reconhecem a minha voz. Essa engenharia artística na dublagem, acho que se faz um pouco com o cuidado que você precisa ter com a sua voz. Mas penso que isso está menos no aparelho vocal e mais na intuição e na percepção do dublador para entrar naquele personagem. A engenharia está muito mais na entrega, que costumo chamar de humildade artística. O dublador precisa ter essa humildade de comprar a concepção que o ator fez e respeitar aquilo… e não querer dar o seu toque especial.

https://wendelbezerra.com.br/

Você é um farol na dublagem paulista, que marcou época com a BKS. Quem são as grandes atrizes e grandes atores de voz que te marcaram aí?
Wendel Bezerra:
Comecei pequeno, na época que a galera dublava toda junta. É um privilégio que quem começa hoje não tem. São dois pontos: dublar ao lado de pessoas que sabiam mais que eu e de ter diretores. Quando se tem poucos estúdios e poucos diretores, as pessoas que alcançam o cargo de diretor são feras e mega respeitadas. Hoje em dia, como você tem muitos estúdios de dublagem, existem mais diretores de dublagem. Obviamente, o nível caiu de maneira geral. A forma de aprendizado também caiu. As pessoas veem pronto o trabalho na TV, mas não viram ele fazer, o que é uma escola impagável. As pessoas que me serviram de referência? Bom, primeiro os diretores: Neide Pavani me ensinou muita coisa, na época da “Super Vicki”. Líbero Miguel, da Álamo, um cara mega respeitado, era incrível. Lembro de uma cena difícil que ele me mandava repetir. Dublei personagens muito difíceis com ele, filmes românticos pesados. Ele nunca me tratou como uma criança dentro do estúdio. Ele me cobrava como um profissional com 20 anos de carreira. Lembro bastante de eles sendo fundamentais no meu crescimento como dublador. Carlos Campanile, a quem dirigi muitas vezes, foi um cara que mudou o meu jeito de dublar. Primeiramente, logo cara, quando dirigi ele em algumas coisas pequenas, já achei diferente. Quando dirigi ele em uma série chamada “Sonhando Acordado”, fiquei impressionado com o que ele fazia, com a riqueza de detalhes que ele pegava e o quanto ele não era preguiçoso. Uma coisa é ele estar dublando ao meu lado, outra é estar dirigindo-o, sendo responsável pela entrega do produto final. Marcelo Pissardini e a Adriana Pissardini são referências excelentes. Mauro de Almeida, com quem trabalhei em radionovela, em dublagem, em animação, esse cara é meio que um gênio da voz. Tem bastante gente talentosa. A Cecília Lemes me ensinou bastante, assim como a Neusa Azevedo, o Dráuzio de Oliveira. O Dráuzio… o que ele me ensinou é das coisas que não tem como pagar. Ézio Ramos, lembrei dele agora, é um cara muito gentil e carinhoso, sendo uma das figuras mais respeitadas da dublagem, sendo um grande astro na época do rádio.

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