‘Barnum’: picadeiro pro talento de Murilo Rosa

‘Barnum’: picadeiro pro talento de Murilo Rosa

Rodrigo Fonseca

17 de abril de 2022 | 11h16

RODRIGO FONSECA
Desde sua participação cativante em “Ismael e Adalgisa” (2001), Murilo Rosa já deu ao cinema brasileiro momentos vívidos de empenho e carisma, a se destacar “A Cabeça de Gumercindo Saraiva” (2018), um western gauchesco, à la Anthony Mann, que pode ser visto, num clique, na Amazon Prime. Dez anos antes desse bangue-bangue, ele encantou plateias com “Orquestra dos Meninos” (2008), sua mais delicada interpretação, no papel de um maestro às voltas com a intolerância contra a criação estética. E vale lembrar dele como Diabo em “A Comédia Divina”, aplaudido no Fantasporto, há quatro anos. Após uma bem-sucedida experiência na TNT, no fim de março, como mestre de cerimônias da transmissão do Oscar, função exercida por ele com extrema leveza e sabedoria das aritméticas da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, ele agora incendia a cena teatral carioca à frente da versão brasileira de “Barnum”, musical de Cy Coleman (melodia), Michael Stewart (letra) e Mark Bramble (libreto). Musical esse encenado pela primeira vez no palco do St. James Theatre, na Broadway, em 30 de abril de 1980. À época, Jim Dale e Glenn Close davam carne e gogó aos papéis centrais que, agora, no Teatro Casa Grande, no Leblon, são vividos por Murilo e uma faiscante Sabrina Korgut – que, na plenitude de sua força cênica, tonteia a plateia com a exuberância de seu canto. Nem gaste seu tempo buscando analogias entre o espetáculo brasileiro – adaptado por Claudio Botelho, sob a direção de Gustavo Barchilon e a coreografia/ direção de movimento de Alonso Barros e direção musical de Thiago Gimenes – e a adaptação cinematográfica dos feitos do empresário artístico Phineas Taylor Barnum (1810 – 1891), lançada em 2017, com Hugh Jackman no papel central. Não vale, sobretudo, pelo fato de que filme é filme, teatro é teatro, com convenções de linguagem distintas. E, aqui, ainda há luz das mais fortes nas atuações de Giulia Nadruz – dando vida a antagonista Jenny Lind, brilhando qual um sol em cena – e de Diva Menner, impecável no papel da mítica Joice Heth. Mais do que isso, há um astro, Murilo, no apogeu de sua condição estelar. Ele usa bem seus dotes canoros (já testados no pouco falado filme “Vazio Coração”) para dissecar o espírito marketeiro e autoconfiante de Barnum. É atribuída a Barnum a invenção do show business tal como o conhecemos, com toda a exuberância comercial que o mercado do entretenimento tem hoje, mesmo com a pandemia. Aliás, referências à batalha contra a covid-19 salpicam a encenação de “Barnum – O Rei do Show”, alcançando seu ápice num número de clowns delicioso. Mas o que mais se destaca é a maneira como essa releitura made in Brazil se aprofunda na psiquê imparável de Barnum, traduzindo seu empreendedorismo – ao criar um museu itinerante que era uma mistura de circo e zoológico – como uma miríade, um sonho de ver a cultura circense alcançar uma sofisticação nunca antes vista. E a beleza com que Murilo traduz a alma alquebrada dele, em seus picos criativos e em sua derrocada, é comovente, num atestado de amadurecimento dele como intérprete e como… showman. Bonito de ver. Deu vontade de ver Murilo fazendo (em bom português) “Entre Deus e o Pecado”, sobre o pastor Elmer Gantry, do escritor Sinclar Lewis, que oscarizou Burt Lancaster em 1961, num teatrão qualquer deste nosso país. Seria consagrador. Como é consagrador o seu Barnum.
Feliz Páscoa!

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