Bárbara a obra de Christian Petzold: tá na MUBI

Bárbara a obra de Christian Petzold: tá na MUBI

Rodrigo Fonseca

15 de junho de 2021 | 13h15

Hoje com 60 anos, Christian Petzold – aqui nos sets de “Barbara”, com Nina Hoss – é alvo de uma potente retrospectiva no www.mubi.com

Rodrigo Fonseca
Entrou nesta terça-feira na MUBI um dos melhores filmes feitos na Alemanha neste século: o tensíssimo drama “Barbara”, que rendeu o merecido Prêmio de Melhor Direção do Festival de Berlim de 2012 a Christian Petzold. A inclusão do delicado filme com Nina Hoss é parte de uma retrospectiva preparada pela plataforma de curadoria humanizada – guiada no Brasil por Juliana Barbieri – a partir dos estudos empreendidos por esse realizador de 60 anos a partir das fraturas históricas de sua pátria. Basta clicar o www.mubi.com para encontrar na aba Fantasmas Entre Nós joias rodadas por Petzold entre o curta documental “Süden” (1990) e a primeira metade da década passada. Em 2020, ele conquistou o Prêmio da Crítica, dado pela Federação Internacional de Imprensa Cinematográfica (Fipresci) na Berlinale com “Undine”, que rendeu ainda o Urso de Prata para a atriz Paula Beer. Numa aula de montagem, o diretor – um renano da cidade de Hilden – dá um olé na concorrência, com seu engenhoso tráfego entre o que é real e o que é onírico ao filosofar sobre a Berlim dos dias de hoje (em relação a uma Berlim mais ancestral) a partir de uma descabelada história de amor. Numa química explosiva, de suar camisas, mãos e testas, Paula e Franz Rogowski ajudam o cineasta a reinventar o mito das sereias. À força da elegante fotografia de Hans Fromm, o último longa (até aqui) de CP acompanha a paixão que sacode o cotidiano do escafandrista Christoph (papel de Franz, em atuação exuberante), depois que ele se encanta por uma historiadora contratada para guiar visitas a galerias. A moça, Undine (Paula), saiu machucada de um romance com um homem casado. E embora mergulhe no abraço de Christoph qual uma ninfa das águas, ela não se distancia de seu pretérito imperfeito, o que há de cobrar um preço. Preço esse que Petzold paga com uma envolvente narrativa sobe as dimensões pontiagudas do desejo.
“A identidade vai além do território geográfico. A geografia mais significativa está na língua, pois é nessa que tecemos a identidade e o mistério”, disse Petzold ao P de Pop na capital alemã, onde é visto como um dos maiores cineastas em atividade.

Dele, a MUBI trouxe ainda “Jericó” (2008); “Yella” (2007) e “O Estado Em Que Estou” (2000). No dia 29 entra “The Warm Money”. Mas a joia dessa seleta é “Barbara”. Sua trama se passa na Alemanha Oriental dos anos 1980. Lá, Barbara é uma médica berlinense banida para uma clínica médica de um país por se candidatar a um visto de saída. Profundamente infeliz com sua transferência e temerosa de seus colegas de trabalho como possíveis informantes da Stasi, Bárbara permanece distante, especialmente do chefe da clínica, o bem-humorado, André.
“No cinema autoral, palavra vira melodia. Basta ver as cenas de um clássico como ‘Jules et Jim’, de Truffaut, para sentir a força das palavras e o que elas podem representar de potência à imagem”, disse Petzold, que também fez TV, dirigindo a série “Police 110”, um cult na Alemanha. “Filmo com uma ideia de personagens e com algumas inquietações. Mas as montadoras e os montadores com quem trabalho que encontram o tom do meu cinema”.

Faltou entrar nesse potente streaming “Transit”, lançado aqui como “Em Trânsito” e exibido em concurso na Berlinale de 2018. Há um clima em seus minutos iniciais de referência à II Guerra Mundial e ao jugo nazista sobre a Europa. Temos como protagonista um dissidente da política germânica, Georg (o ótimo Franz Rogowski), que deseja entrar na França, antes de o país ser ocupado, e, de lá, partir para o México. “Existe um movimento de diáspora, de autopreservação, que dialoga com as imigrações clandestinas de hoje, que geram os bolsões de refugiados que, em muitos países, são tratados com desigualdade”, alerta o cineasta ao Berlinale Palast há três anos.
No enredo filmado por Petzold, a partir do romance de Anna Seghers, um manuscrito de um autor morto cai nas mãos de Georg, o que faz com ele seja confundido com um escritor. Porém, todos os locais por onde Georg passa não guardam referências visuais dos tempos do Holocausto: estamos na Marselha de hoje, com roupas e armas atuais, retratando refugiados do Oriente Médio como os que hoje se amontoam em grandes centros urbanos das metrópoles europeias. “As certezas históricas são um convite a um erro quando dissociadas dos componentes humanos”, defende o cineasta.

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