‘Bar Luva Dourada’, um Nosferatu em VoD e DVD

‘Bar Luva Dourada’, um Nosferatu em VoD e DVD

Rodrigo Fonseca

25 de abril de 2020 | 11h51

Rodrigo Fonseca – #FiqueEmCasa
Mais controverso e, ao mesmo tempo, mais virtuoso (tecnicamente) dos concorrentes ao Urso de Ouro de 2019, cuspido em circuito lá fora, “O Bar Luva Dourada”, espécie de “Nosferatu” de Hamburgo, renasce agora em VOD, nestes dias de 40ena ao estrear nas palataformas digitais iTunes, GooglePlay, VivoPlay e NetNow. De quebra, Jean Thomas Bernardini e sua Imovision já disponibilizaram o longa-metragem em sua loja virtual de DVDs, já disponível online: https://loja.imovision.com.br/. Tem muita coisa boa lá, como “Vale do Amor”, de Guillaume Nicloux, que também está agora na grade de streaming da Globoplay. Mas o potente thriller (nas raias do terror, com eco tardio do expressionismo) feito pelo o cineasta alemão de origem turca Fatih Akin é o que merece mais urgência.

Ganhador do Urso de Ouro em 2004 por “Contra a parede” (“Gegen die Wand”), um filme de amor ligado a valores culturais de Istambul, Akin costuma filosofar sobre a distância moral que atomiza a tolerância em suas mais variadas formas: “O medo é a fonte de toda a barbárie. É ele que nos deixa em estado de sítio, em vigília. A pior guerra do mundo contemporâneo não é aquela em que helicópteros atiram bombas em inocentes, explodindo corpos; é, sim, a guerra da paranoia, da desconfiança, do descrédito no próximo”, disse o diretor em uma de suas várias passagens por Cannes. Festivais internacionais adoram ele, em especial por sua habilidade de rachar plateias. Foi o que aconteceu na Alemanha: lá, ele espatifou opiniões na 69ª edição do Festival de Berlim,com um febril exercício de exumação do horror. Seu “O Bar Luva Dourada” é um frenético estudo de psiquês alquebradas.
“O que me leva a fazer aquilo que vocês chamam de ‘filme de monstro’ é a minha memória do Expressionismo Alemão, com ‘Nosferatu’, e a percepção de que há um cinema real, de horror, de um expressionismo cotidiano, sendo feito nas ruas de todo o mundo neste momento em que o maior obstáculo da paz é a intolerância. E, politicamente, o terror acabou sendo institucionalizado como desculpa para conflitos que poderiam ser resolvidos na diplomacia, na união”, disse Akin ao P de Pop.

Seu mais recente trabalho é de uma maturidade técnica indiscutível ao reviver um dos maiores pesadelos do povo de Hamburgo: o serial killer Fritz Honka (1935-1998). Com feições assustadores, de dentes pobres e olhos tortos, ele esquartejou quatro mulheres, entre 1970 e 75, mantendo seus corpos em decomposição guardados num cômodo do apartamento onde morava. O mau cheiro dos cadáveres ele imputava aos vizinhos gregos do apartamento de baixo, num exercício de xenofobia. A versão de Akin dispensa toda a linha existencial que caracteriza a obra do realizador – consagrado recentemente com o Globo de Ouro por “Em pedaços”, de 2017 – e aposta na cartilha do suspense. Na Berlinale, nada foi tão controverso ou tão assombroso. E seu astro, Jonas Dassler, colecionou elogios pela composição de Honka.
“Eu levava pelo menos 30 minutos por dia para me livrar da maquiagem que descaracterizava meu rosto”, contou Dassler à Berlinale, onde encarou uma horda furiosa pela crueza de suas imagens. “Mas não é de próteses ou de cremes que vinha aquele monstro e sim da maneira como Jonas buscou o terror de si, de seu olhar sobre o mundo”, disse Akin. “Vivemos tempos onde o crime sexual ganhou visibilidade. Filmar um crime desse tipo exige uma postura ética na qual toda a brutalidade contra a mulher seja escancarada como algo a ser combatido. Quisera eu viver num mundo com menos psicopatas”.
Regado a clássicos do cancioneiro brega germânico, “The Golden Glove” (ou “Der goldene Handschuh”) tomou seu título emprestado do bar onde Honka caçava suas vítimas. O filme estreou em circuito alemão no dia 21 de fevereiro de 2019, com potência para se tornar um campeão local de bilheteria, o que acabou prejudicado pelo azedume que a brutalidade em cena gerou.

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