‘Bandeira de Retalhos’ tremula no YouTube

‘Bandeira de Retalhos’ tremula no YouTube

Rodrigo Fonseca

14 de abril de 2020 | 14h39

Antonio Pitanga é o Tirésia do Vidigal em “Bandeira de Retalhos”, a partir desta terça no YouTube

Rodrigo Fonseca
Exercício poético raro entre os filmes nacionais centrados no universo das favelas, “Bandeira de Retalhos”, drama de tintas musicais responsável pelo regresso de Sérgio Ricardo à direção de longas-metragens, vai estar a partir de hoje no canal do artista no YouTube. Ele vai estar disponível pra ser visto online, a partir das 20h desta terça, levando uma reflexão social rara para estes dias de quarentena. Nele, o Vidigal da década de 1970 é recriado com um lirismo digno das bandeirolas de Volpi. Apesar de sua caracterização de época, a produção mostra fuzis, .12s e pistolas modernas, empunhadas por uma PM com sanha de Bope. A estranheza aparente que estas armas causam cai por terra quando percebemos estar diante de uma quase fábula, uma fábula caída do Céu do idealismo, machucada de realidade nas articulações. E há um cuidado sincero do realizador de “A Noite do Espantalho” (1974) (respeitado por seu histórico como músico) em seu experimento, capaz de injetar realismo em sua cartografia dos afetos, sem deixar que essa injeção enrijeça as juntas lúdicas de uma história sobre resistência. Em paralelo à sua trajetória na web, o filme, que conta com a trupe do Nós do Morro em seu elenco, vai também ser exibido no Canal Brasil. Eis o link:

Aos 87 anos, Ricardo está se recuperando de uma internação, mas festeja o fato de o filme chegar a uma plateia de internautas, como explica sua filha, a produtora Marina Lutfi. “Ele fez o ‘Bandeira’ no teatro, antes do filme, e, no palco, já começou a estreitar relações com o Nós do Morro. A gente notou, durante as filmagens, o processo dele para se inserir em novos processos tecnológicos do cinema, diferentes do que existiam quando ele fez seus primeiros filmes”, conta Marina. “Ele não queria acompanhar as filmagens pelo video assist e sim estar em cena, vendo como as atrizes e atores se saíam. Ele teve dificuldade em se adequar a uma nova realidade onde todos os riscos de uma filmagem podem ser calculados. Para ele era importante dirigir a cena ali, onde ela se passava, sem ficar olhando numa telinha”.

Com grifes como a Cacumbu e a Cavideo em seus créditos de produção, “Bandeira de Retalhos” é capaz de evocar a tradição do “cinema da malandragem” do Rio de Janeiro, sendo meio “Amei um Bicheiro” (1953), de Jorge Illeli, meio “Vai Trabalhar, Vagabundo” (1974), de Hugo Carvana, e meio “Rio Babilônia” (1982), de Neville D’Almeida. Não são referências conscientes para Ricardo, mas são filmes com os quais a sua operação memorialística no Vidigal dialoga, no Tempo. Há nesse coletivo de longas um ethos do jeitinho carioca de lutar (e vencer) pela picardia. E esse espírito de picardia alimenta a conexão de lealdade ente os personagens que Ricardo tirou de fatos reais: moradores de um morro ameaçados pelo Estado de saírem de suas casas por um projeto de remoção.

“A primeira experiência que tivemos de filmar com o Sérgio Ricardo, foi o curta-metragem “Pé Sem Chão”, também filmado no Vidigal. Foi a primeira experiência dele no digital e foi muito doido fazer o processo de montagem, filmando, porque ele começou a perceber as facilidades do digital na hora da montagem. Como sou um pouco mais velho que a molecada, ficava fazendo essa ponte, traduzindo o que ele falava”, diz Daniel Paes, o diretor de fotografia do longa. “O ‘Bandeira’ é um épico da favela brasileira. Não tenho memória de algum outro filme sobre favelas que conte uma história no sentido que chamamos de épico, baseando-se em uma história ocorrida de fato”.

Kizi Vaz com Osmar Prado em cena no longa do diretor de “A Noite do Espantalho

Na tela, imagens documentais – editadas com perfeita sintonia com a encenação ficcional por Victor Magrath – sublinham a veracidade do que se deu em “Bandeira de Retalhos” fora das telas, quatro décadas atrás. O cineasta esteve lá na época e viveu a tensão. Por isso, ele a imprime com tanta pressão em seu belo filme, que nos deixa de legado algo mais resistente do que os fuzis e revólveres citados lá no início: Tiana, personagem de enlevo lúdico único, que a atriz Kizi Vaz nos dá de presente. Ela é a valquíria do Vidigal: a guerreira que mete coração, inteligência e alma na briga pela permanência de seu lar, mesmo dividida por uma disputa amorosa. Ela é a cereja de um bolo de sociologia e poema em forma de filme. De brinde, ganhamos uma emotiva atuação de Antonio Pitanga, interpretando uma espécie de Tirésia da favela, como um cego que já viveu muito, mas ainda tem o que aprender sobre a arte de lutar. Babu Santana time de atores o elenco, além de Osmar Prado e Guti Fraga.

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