Bancas de jornal esquentam os tamborins para a estreia de ‘Vingadores: Ultimato’

Bancas de jornal esquentam os tamborins para a estreia de ‘Vingadores: Ultimato’

Rodrigo Fonseca

16 de abril de 2019 | 14h30

Interpretado por Josh Brolin nos EUA e muito bem dublado por Leonardo José em português, Thanos fez de “Vingadores Guerra Infinita” o sucesso de 2018, com renda de US$ 2 bilhões nas bilheterias mundiais

Rodrigo Fonseca
Pra quem curte figurinhas e cards, o álbum “Rumo a Avengers: Endgame”, que a Panini acaba de lançar nas bancas é um precioso “esquenta” para o lançamento de “Vingadores: Ultimato”, que vai ter pré-estreia paga à 0h do dia 25 de abril. A superprodução do ano é dirigida pelos irmãos Anthony e Joe Russo. Marvetes estão contando os segundos, mas a coleção de cromos coloridos com os Maiores Heróis da Terra é um bom analgésico para uma espera cercada de especulações. A maior forte delas envolve uma possível participação de Wolverine no projeto. Em paralelo, a editora acaba de lançar a saga “A expedição final”, com roteiros de Jason Aaron e desenhos de Ed McGuinness. Tudo ajuda a acalmar os nervos das plateias que levaram “Avengers: Infinite War” a um faturamento global de US$ 2 bilhões.

Fervido a litros de adrenalina, aquecida em sequências de ação, perseguição e fuga afoitas por roubar o fôlego alheio,  “Vingadores – Guerra Infinita” deu espaço a um diálogo memorável. Há uma fala na qual Thanos encara o Homem de Ferro e chama o terráqueo pelo nome, “Tony Stark”, sendo interpelado por Robert Downey Jr. (sempre ótimo em cena) com uma expressão interrogativa, num “de onde você me conhece?”, assustador para ele e para a plateia. Construído por Josh Brolin com tônus trágico, num esquema de motion capture (técnica na qual os movimentos de um ator são registrados num software que redefine estes gestos a partir de efeitos digitais que descaracterizam seu visual), Thanos vira para o herói e diz: “Você não é o único que foi amaldiçoado com o dom do conhecimento”.

Thanos sabe muito, pois há eras ele estuda o que de pior as civilizações têm: a vaidade. É dela que vem a decadência. E o papel que atribuiu a si mesmo no Universo é varrer da História povos decadentes. Muita gente… Nos quadrinhos de Jim Starlin, Thanos fazia isso por amor: ele se apaixonou pela Morte em pessoa, de osso, foice e capuz. Matava para poder cortejar sua amante. No longa-metragem em duas partes dirigido pelos irmãos Joe e Anthony Russo, a Indesejada das Gentes não é citada: Thanos destrói planetas por ideologia. Ele é a encarnação – talvez a mais sombria tradução da vilania que o cinema de tintas fantásticas elaborou desde Darth Vader – do fundamentalismo – inimigo número um do mundo quando o assunto é terror… terror real. Thanos é a metáfora da América de Trump: remover o que incomoda, sem pesar as consequências.

Ao assumir como personagem central (confiado a um ator em estado de graça como Brolin) a figura de um terrorista que não faz exigências, a Marvel deixa claro sua reta de maturidade em busca de trama menos calcadas em onomatopeias (Soc! Pow! Pum!) e mais interessadas em verticalizar conflitos existenciais e políticos. Seu reinado no cinema começou, silencioso, há 21 anos, quando Wesley Snipes juntou tostões para filmar “Blade – O Caçador de Vampiros”, de 1998. Ali pavimentou-se o caminho para a fauna de mascarados de Stan Lee ganhar corpo e alma no cinema. Mas, desde o seminal “Logan” (2017), a Casa das Ideias (apelido da Marvel) abriu a deixa para discutir temas mais cortantes do que o maniqueísmo. Laureado com os Oscars de Melhor Trilha Sonora, Direção de Arte e Figurino, “Pantera Negra”, com sua veia racial festiva, foi o ápice da transformação do estúdio na trilha do amadurecimento. E o novo “Os Vingadores”, que ganha uma parte dois em 2019, foi pelo mesmo caminho, tendo em Chris Hemsworth – mais inspirado do que nunca no papel de Thor – o herói de maior vigor nesta narrativa dominada por um vilão.

Nem todos os efeitos especiais do filme têm o acabamento necessário e, passados 55 minutos, quando os heróis começam a se dividir em grupos, a edição sofre uma ralentada, o que dilui o ritmo, exigindo do roteiro uma aposta em piadas que funcionam melhor com os Guardiões da Galáxia (sobretudo com Chris Pratt, o Senhor das Estrelas) do que com os Vingadores. O herói que mais perde aqui é o Homem-Aranha, pois Tom Holland, seu talentoso intérprete, parece não encontrar aqui a mesma alquimia entre carisma e tônus dramático de suas aparições em outros filmes. Mas nada disso tira de “Guerra Infinita” seu viço como épico sobre o fervor.

No Brasil, Leonardo José dublou Thanos, que volta em “Ultimato” encarando os poderes Krees da Capitã Marvel, vivida por Brie Larson. O longa-metragem da super-heroína é um fenômeno popular. Sua receita na venda de ingressos já passou de US$ 1 bilhão.

Vez ou outra, a Marvel se volta para a imensidão do espaço sideral para se oxigenar e fugir das convenções das lutas entre superpoderosos. Mesmo prejudicado com um nó de roteiro em seu terço inicial, quando a fotografia de Ben Davis custa a encontrar a luz precisa, “Capitã Marvel” se impõe como uma vigorosa jornada de formação para a mais poderosa super-heroína da Disney e como um estandarte político para a batalha em prol do empoderamento feminino. Ganhadora do Oscar de Melhor Atriz por “O quarto de Jack”, em 2016, Brianne Sidonie Desaulniers, ou apenas Brie Larson, usa todo o ferramental gestual que tem para injetar humor, marra e poesia a uma mulher cuja memória foi triturada em meio à abdução pela raça alienígena Kree. Com uma figura tridimensional em suas mãos, a cineasta Anna Boden (de “Se enlouquecer, não se apaixone”) e seu codiretor Ryan Kenneth Fleck (do filmaço “Half Nelson: Encurralados”) investem num formato de aventura estelar semelhante à estética pop usada nos quadrinhos marvetes dos anos 1970. A direção segue os moldes do que o genial Roy Thomas, o pai da protagonista, idealizou, por exemplo, em “Warlock” e outras HQs de batalhas de super-heróis com ETs, nos confins da galáxia.

É um momento fundamental da edificação da cultura pop, em que a indústria de gibis criou a centelha narrativa lisérgica do que viria a ser “Star Wars” e outras franquias. Mas há um tempero midiático a mais na direção: como a trama se ambienta na década de 1990, e tem elementos de espionagem, com a participação fundamental da agência de inteligência Shield, Anna e Fleck travaram um diálogo com toda a linhagem de filmes teen de espiões daqueles anos. E houve muita trama assim de 1992 a 1996 – tipo “Hackers”, de Ian Softley, e “Sneakers – Quebra de sigilo”, de Phil Alden Robinson – que servem de referência à luta da Capitã Carol Denvers (Brie) para entender por que motivos foi parar entre as estrelas, para ser treinada pelo Kree Yon-Rogg (Jude Law, impecável na criação de um guerreiro dúbio) a fim de combater a raça de transmorfos chamada Skurlls. Quem leu Marvel desde guri, odeia os Skrull sobre todas as coisas. Mas algo de novo acontece com esse povo neste filme, que deita e rola no carisma de Samuel L. Jackson (em estado de graça na pele do jovem Nick Fury, futuro líder da agência de espionagem Shield) e da revelação Lashana Lynch, que vive a aviadora Maria Rambeau, amiga da Capitã. A atuação de Lashana por vezes ofusca Brie.