Bamba da crítica, Tárik de Souza documenta os balanços da MPB

Bamba da crítica, Tárik de Souza documenta os balanços da MPB

Rodrigo Fonseca

09 Dezembro 2016 | 13h24

Maior crítico de música em atividade no Brasil, Tárik de Souza lança dois livros de pesquisa (com um texto poético de se lamber os beiços) nesta segunda no Rio:

Maior crítico de música em atividade no Brasil, Tárik de Souza lança dois livros de pesquisa (com um texto poético de se lamber os beiços) nesta segunda no Rio: “Sambalanço – A Bossa Que Dança” e “MPBambas”, ambos pela Kuarup

RODRIGO FONSECA

Dick Tracy da crítica musical brasileira, na qual é o investigador mais qualificado (e de melhor texto) acerca das evoluções estéticas e dos gêneros rítmicos resultantes das misturas étnicas e dos pleitos políticos de inclusão, Tárik de Souza vai lançar um par de livros (obrigatórios) sobre a cultura deste nosso país nesta segunda, no RJ, a partir das 19h, na Livraria Bossa Nova e Companhia (Rua Duvivier 37, Copacabana). De um lado, ele sai com Sambalanço – A Bossa Que Dança, tecendo a História do movimento que surgiu a partir das experimentações de Ed Lincoln. Do outro, com MPBambas, avança – em dois volumes – pelas nossas memórias sonoras com os registros de suas conversações no programa homônimo do Canal Brasil, resgatando entrevistas que guardam pepitas sobre a arte nacional. No volume 1 entraram Milton Nascimento, Beth Carvalho, Hermeto Pascoal, Johnny Alf, Paulo Vanzolini, Nana Caymmi, Renato Teixeira, Dona Ivone Lara, Altamiro Carrilho, Chico Anysio (pela primeira vez falando sobre sua obra musical), Elza Soares, Roberto Menescal, Dóris Monteiro e Sueli Costa. Para o tomo 2, ficaram Gal Costa, Zeca Pagodinho, Cauby Peixoto, Dominguinhos, Carlos Lyra, Inezita Barroso, Monarco, Wagner Tiso, Billy Blanco, Nei Lopes, Luis Vieira, Ademilde Fonseca, Getúlio Cortes e Marlene.

Sambalanço Tarik

Referência ética e jornalística para gerações e gerações de resenhistas, Tárik impregna os dois livros com o instinto detetivesco que vem depurando ao longo de quase cinco décadas de carreira. Hoje responsável pela coluna semanal Supersônicas no site do Instituto Memória Musical Brasileira, ele começou sua carreira na Veja, em 1968. Sua primeira reportagem, exatamente no número 1 da revista, que vendeu mais de 700 mil exemplares, foi com o Rei do Baião, Luiz Gonzaga, fomentada a partir do boato espalhado pelo compositor e produtor musical Carlos Imperial de que os Beatles teriam gravado Asa Branca.

Na entrevista a seguir, Tárik nos leva a um passeio pelo histórico da música.

O que o Sambalanço representa como movimento musical, em termos estéticos?
TÁRIK DE SOUZA: O sambalanço eletrificou o samba, introduzindo no seu teleco-teco o órgão Hammond (das igrejas, do soul e gospel) e o solovox, um pré sintetizador, com alteração de timbres teclados. Também deu um eventual molho caribenho a mistura, com congas, atabaques e guiro. Foi uma interface dançante e bailarina da bossa nova intelectualizada e mais cerebral. Alguns ícones do movimento: no órgão, Djalma Ferreira, Ed Lincoln, Waldir Calmon, Celso Murilo, Walter Wanderley e até Eumir Deodato. Nos vocais, estão Elza Soares, Miltinho, Pedrinho Rodrigues e o também compositor Orlandivo,o sambalanço personificado. Outros músicos de contribuição relevante para o sambalanço: João Roberto Kelly, Jadir de Castro, Rubens Bassini, Waltel Branco e Durval Ferreira que brincou nas duas: era o violonista oculto do Tamba Trio (seu nome não aparecia nos créditos) e o guitarrista dos bailes de Ed Lincoln.

O quanto o programa MPBambas – cujo repertório de entrevista ganha agora uma nova casa e uma nova cara em forma de livro – possibilitou a você uma revisão crítica da história da música brasileira, no corpo a corpo com seus criadores? Que lições você tirou desse processo?
TÁRIK: Da TV para o livro, o MPBambas ganhou o espaço de entrevistas mais completas do que os regulamentares 26 minutos permitidos pela duração do programa. Sempre se aprende muito ouvindo as fontes – regra elementar para os repórteres, que também serve para os críticos. Recebi não só lições estéticas como também de vida nas veias abertas dos artistas, olho no olho, ao vivo.

 

Num balanço da MPB de hoje, o que poderíamos apontar como novas sonoridades, novas experiências, novas vozes? 

TÁRIK: Na MPB atual há muitas revelações tanto nas cenas de São Paulo (Passo Torto, Karina Bhur, Emicida, Criolo, Tulipa Ruiz) quanto na carioca (Ava Rocha, MãeAna, Thiago Amud, Edu Kneip), a de Minas (Makely Ka, Graveola, Alexandre Andrés) e assim em cada estado, já sem a antiga dependência do eixo principal. O problema é fazer esta música nova circular pelo país e não ficar restrita a nichos de mercado.