Balada de uma titã chamada Camilla Amado

Balada de uma titã chamada Camilla Amado

Rodrigo Fonseca

23 de abril de 2021 | 20h45

Aloysio Araripe assina as fotos still de cena e de bastidor do belíssimo curta-metragem de Hsu Chen, escrito por Flávia Guimarães e clicado sob a luz de Pedro Iório

RODRIGO FONSECA
Nobre é o povo que precisa de Camilla Amado, pois, no caso de uma titã como ela, sua atuação é um oxigênio que renova o ar de alvéolos sufocados pela fumaça da intolerância – coisa que só uma artista colossal pode fazer. Sim, a gente precisa de uma estrela com o som e a fúria dela. Que glória a termos com a gente, ativa e produtiva. Menos de uma semana após sua passagem pelo É Tudo Verdade, como uma das depoentes de “Zimba”, de Joel Pizzini, e cerca de 12 dias após sua aparição (contínua) na MUBI, no elenco de “Redemoinho”, a diva dos palcos iluminou as retinas do P de Pop graças à generosidade do cineasta Hsu Chien. Ele mostrou ao Estadão um corte de seu novo curta-metragem “A Balada da Nobre Senhora”, em busca de uma impressão crítica capaz de finar sua finalização. O filme está em gestação, a fim de ser apresentado aos maiores festivais do país. Gramado, fica a dica! É uma joia. Uma joia que, por seu teor, poderia ser submetido à seleção da Berlinale de 2022 ou, quiçá, à seleta de Veneza.
O que é o filme? Bom… imagina o seguinte… Se “Alice Não Mora Mais Aqui” (1974), um filme de andança de Scorsese, molhasse os pés nas águas em que François Truffaut fechou seu “Os Incompreendidos” (1959), o fruto desse encontro seria “A Balada da Nobre Senhora”, que nos mostra a titã Camilla Amado em seu esplendor, numa investigação de coisas capazes de irem além do Eterno. Uma investigação das coisas chamadas de Perpétuas. Amizade é a palavra do Perpétuo. É o seu codinome. E, no Cinema Brasileiro, poucos sabem ser mais amigos do que Hsu Chien, que filmou recentemente o longa “Me Tira da Mira”, com Cléo, Fiuk e Fábio Jr. Ao lançar mão de uma paleta circense, egressa de sua imersão cinéfila no Fellini de “La Strada” e de “8 ½”, o diretor sino-carioca nascido em Taiwan e radicado nos padrões do Catete nos dá aquela que periga ser a mais lúdica reação de nosso audiovisual contra a homofobia, tirando da alma de Camilla uma Geena Rowlands com olhos de chuva fria. Ao lado dela, no papel de um artista de rua carente de um abraço pra chamar de abrigo, Guilherme Quadrado (que achado!) dá um show à parte, moldando sua máscara plástica ao revés da dor, da querência e da alegria de um chá quente. Ele, com seu olhar de pierrô, amalgama-se a Camilla numa celebração felliniana do verbo “resistir” e da excelência de um “Bom dia”. Uma celebração bem calçada na doçura do roteiro de Flávia Guimarães. A direção de arte de Victor Aragão valoriza um certo timbre de “antigamente” expresso no encontro de uma mulher em tempos de madureza e de um jovem errante. A fotografia de Pedro Iorio é igualmente atenta ao esmaecido do Tempo, preservando a economia no emprego do colorido, sabendo festejar as cores mais vivas nas horas precisas, de mais sinestesia. Eis um curta para derreter corações. Chora, Estadão, que é choro bom!

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