‘Bagdá vive em mim’ e nos arrebata nas telas

‘Bagdá vive em mim’ e nos arrebata nas telas

Rodrigo Fonseca

04 de setembro de 2021 | 11h15

O poeta Taufiq Jasim (Haitham Abdel-Razzaq) desabafa suas inquietações em forma de versos em “Bagdá Vive Em MIm”

Rodrigo Fonseca
Que excepcional surpresa, egressa do Festival de Locarno de 2019, arraigada na cultura de êxodo do Iraque, aterrissou neste fim de semana em circuito brasileiro: o drama “Baghdad In My Shadow”, aqui traduzido como “Bagdá Vive Em Mim”. Tem sessão dele, no RJ, lar do P de Pop, no Cine Santa Teresa, às 17h; no Espaço Itaú (15h40, 17h40, 19h40); Estação Net Gávea (14h15 e 18h55); Estação Net Rio (14h50 e 18h55); e Kinoplex Fashion Mall (20h40). Um dos mais prolíficos documentaristas da Suíça, Samir (cineasta conhecido só pelo prenome, nascido em terras iraquianas, em 1955, radicado em Zurique desde 1961, onde encabeça a Dschoint Ventschr Filmproduktion) nos dá um dos roteiros mais sofisticados dos últimos anos, atacando várias moléstias morais de nosso tempo (sexismo, racismo, fanatismo) numa só tacada. É um delicado (e doído) painel de personagens egressos do Oriente Médio e radicados em Londres, unidos pela frequência a um bar, o Café Abu Nawas, onde imigrantes se reúnem para festejar recordações da utopia socialista, cantar músicas de suas pátrias e comer iguarias orientais.
Assumindo como ponto de partida a investigação policial de um assassinato, a trama guiada por Samir (respeitado pelos .docs “Forget Baghdad” e “Iraqi Odyssey”) vai e volta no tempo, esgueirando-se por diferentes núcleos de personagem, todos unidos pela bestialidade de um líder fundamentalista, o (suposto) sheik Yassin (Farid Elouardi). Este fomenta ódio entre jovens do Islã, desrespeitando a própria religião, em prol de um projeto de poder imposto pela força. De cara, sabemos quem é a vítima do crime, o adido cultural do Iraque Ahmed Kamal (Ali Daim Mailiki), e quem o esfaqueou, o poeta Taufiq Jasim (Haitham Abdel-Razzaq, em estonteante atuação). O que não sabemos são os motivos (ainda que indefensáveis, por ceifarem uma vida) e nem as circunstâncias racistas, machistas e homofóbicas que rondam a indigesta figura de Kamal. Com um domínio pleno das ferramentas do drama político, esquivando-se do folhetim, numa estrutura muito parecida com a usada pelo teuto-turco Fatih Akim em “Do Outro Lado” (2007), Samir vai esmiuçando os vértices que dão alma e carne a esse poliedro criminal, movido pela sombra de Yassin. Um deles é a história da arquiteta Amal (Zahraa Ghandour, impecável em cena), obrigada a se reinventar na Inglaterra como garçonete, ao fugir de seu Iraque natal. Um Iraque que regressa fantasmagórico atrás dela quando ela ensaia um romance com o britânico Martin (Andrew Buchan). Outra história de amor acossada por ranços do fundamentalismo é a paixão entre o técnico de TI Muhannad (Waseem Abbas) e seu namorado europeu Sven (Maxim Mehmet).

Com uma precisão de ourives, a montagem de Jann Anderegg une todas as linhas desse novelo sem deixá-lo embolar, criando uma comédia humana a um só tempo particular e universal. A fotografia de Alfredo de Juan, The Chau Ngo é sempre dessaturada, oscilando entre tons de bege, marrom e sépia, galvanizados pela chuva londrina. É um mundo onde a vida só viceja nas paredes do Abu Nawas, entre goles de chá, baforadas em cigarros, no suor do sexo e nos versos de Taufiq.

p.s.: Tem um filmaço neste “Supercine”: o cult “Spring Breakers: Garotas Perigosas”, thriller indicado ao Leão de Ouro de 2012, que repaginou a carreira do realizador Harmony Korine (“Gummo”). Na trama, as jovens Candy (Vanessa Hudgens), Faith (Selena Gomez), Brit (Ashley Benson) e Cotty (Rachel Korine) assaltam um restaurante para poderem juntar dinheiro e tirar férias na praia durante a primavera norte-americana, num período conhecido como spring break. No local, elas se envolvem em confusões e acabam presas. Na delegacia, conhecem um criminoso barra pesada que se encanta por elas e tenta convencê-las a integrar seu grupo. James Franco rouba a cena do longa, como um malandrão cheio de estilo. A sessão é à 1h.

p.s.2: Tem debate neste sábado, às 16h30, no Estação Net Rio, do melhor filme brasileiro do ano: “Um Animal Amarelo”, de Felipe Bragança. Conversam com o público os atores Digão Ribeiro, Higor Campagnaro e Matheus Marcena e o diretor de casting Giovani Barros. É um estudo sobre os ranços coloniais do país, a partir da viagem de um jovem cineasta por terras lusófonas. Isabél Zuaa tem uma atuação memorável em cena, coroada com o Kikito de melhor atriz, em 2020.

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