‘Bacurau’ é um eletrizante retrato de insurreições possíveis frente à falência democrática nacional

‘Bacurau’ é um eletrizante retrato de insurreições possíveis frente à falência democrática nacional

Rodrigo Fonseca

15 de maio de 2019 | 21h53

Rodrigo Fonseca
É difícil citar um filme brasileiro mais eletrizante do que “Bacurau”, capaz de manter seu dinamismo de viradas inusitadas do começo ao fim de suas 2h10 sem perder a sutileza com que promove a autopsia em corpo vivo da falência democrática nacional, a partir de um prefeito tão escroque quando o do cult russo “Leviatã” (2014). Mais difícil ainda é pensar uma narrativa tão enérgica na América Latina nos últimos dez anos. Só o colombiano “Perro come perro”, de Carlos Moreno, exibida por cá em 2008, mas, logo em seguida, esquecida. “Bacurau” não dá pra se esquecer. É uma aula de brasilidade disfarçada de lição de como se fazer um thriller dos bons, à moda Walter Hill (em “Cavalgada dos proscritos”). Hill + Nietzsche, pois há muito do paralelismo entre a ave de rapina e o cordeiro na relação (circulante) entre massacrados e massacrantes, que espelha o imperialismo que nos acossa.

Filme coral com diversos núcleos de personagens ligados a uma cidadezinha do Nordeste em um Brasil de um futuro sem água e cheio de corrupção municipal, a produção pernambucana levou farturas da vida pública do Brasil para as telas do 72º Festival de Cannes, destacando-se por sua precisão narrativa entre os 21 concorrentes à Palma de Ouro de 2019. Kleber Medonça Filho e Juliano Donelles dividem a direção, produzidos por Emilie Lesclaux, apoiados num trabalho rigoroso de fotografia de Pedro Sotero, que explora o contraste entre um visual de chão esturricado com o verde de um sertão avesso ao cartão-postal de miséria habitual.

Fala-se pelo balneário de chances de prêmio de direção ou de roteiro para Dornelles e Kleber, que falarão em público sobre o longa na manhã desta quinta, ao lado da produtora Emily Lesclaux. Mulher de Kleber, ela produziu “O som ao redor” (2012) e “Aquarius” (2016), do qual o diretor trouxe Sonia Braga para o papel de uma médica que cuida das mazelas da saúde de Bacurau. A cidade deixa de figurar no mapa depois que uma anciã local, amada por todos, morre. Surge uma dupla de moto (Karine Teles e Antonio Saboia) cheios de mistérios e abre-se uma temporada de caça aos pobres do local, empreendida por gringos entedidados, cujo comando é de Michael, papel do lendário Udo Kier (atore de Gus Van Sant e Lars von Trier). O ferramental dramático com o qual Udo opera para fazer seu personagem ir da retidão à fragilidade é invejável. Embora ele seja um estandarte do medo, a população reage. Silvero Pereira, no papel do poeta bárbaro Luga, é um dos destaques entre a trupe de talentos dramáticos, assim como Bárbara Colen, como Teresa.

Nesta quinta-feira, a competição segue com “Atlantique”, da cineasta Mati Diop, e com o novo trabalho do ganhador de duas Palmas Ken Loach, do Reino Unido: “Sorry we missed you”. Mas a atração principal do dia é a passagem de Elton John pela Croisette, para a pré-estreia de gala de “Rocketman”, de Dexter Fletcher, releitura da trajetória de sucessos e fracassos do cantor.
Cannes termina no dia 25, com a entrega de prêmios e a projeção de “Hors norme”, da Olivier Nakache e Éric Toledano, dupla responsável pelo fenômeno “Intocáveis” (2011).

 

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