Babenco numa autópsia em corpo vivo de si mesmo em ‘Meu Amigo Hindu’

Babenco numa autópsia em corpo vivo de si mesmo em ‘Meu Amigo Hindu’

Rodrigo Fonseca

22 Outubro 2015 | 18h22

Willem Dafoe e o menino Rio Adlakha compartilham as dores da luta contra o câncer em

Willem Dafoe e o menino Rio Adlakha compartilham as dores da luta contra o câncer em “Meu Amigo Hindu”

Perpétuos, Morte e Delírio compartilham a mesma inicial – a letra “D” – quando escritos em inglês, o idioma de Meu Amigo Hindu, o novo longa-metragem de Hector Babenco exibido na quarta-feira, na abertura da 39ª Mostra de Cinema de São Paulo (21 de outubro a 4 de novembro). Esses verbetes viram Death e Delirium quando ditos por bocas como a do americano Willem Dafoe, ator a quem o cineasta nascido em Mar Del Plata, na Argentina, há 69 anos, confiou o protagonismo deste seu filme de volta às telas, após um hiato iniciado em 2007, na esteira da estreia de O Passado, e parcialmente driblado em 2014 com o curta The Man That Stole a Duck, do filme em episódios Words With Gods. Mas, fronteiras linguísticas à parte, essas duas palavras míticas – onipresente nos filmes de Babenco – se conjugam no esperanto da dor dicionarizado pelo diretor ao longo de 124 minutos esculpidos com suas entranhas e suas recordações mais íntimas. Quem esteve no abre da Mostra (afoito pelos outros 311 títulos garimpados por Renata Almeida) viu a radiografia da alma do homem que, em 1986, concorreu ao Oscar de melhor direção por O Beijo da Mulher-Aranha. O importante agora é saber o que o cinema fará com ela. Saber que conexões traçar com a filmografia de seu criador e de outros com quem ele dialoga. Pois o que ele fez foi uma autopsia em corpo vivo.

Atores estrangeiros estão num elenco estelar que fala em inglês

Atores estrangeiros estão num elenco estelar que fala em inglês no possante longa de Hector Babenco

Filmes sobre calvários de saúde já fizeram a roda do cinema andar algumas vezes. Foi o que se viu entre os romenos quando, em 2005, Cristi Piu lançou o nigérrimo A Morte do Sr. Lazarescu, seguindo as horas finais de um sexagenário em deterioração. Há uma patologia igualmente incômoda em Abus de Faiblesse (aqui pavorosamente traduzido como Uma Relação Delicada), de Catherine Breillat, no qual a diretora francesa espelha no corpo ruivo de Isabelle Huppert o derrame que sofreu. O que se deteriora em Meu Amigo Hindu é o organismo de Diego Fairman, cineasta vivido por Dafoe (numa atuação pancreática de tão visceral), em função de um linfoma. A doença foi a mesma que botou Babenco em estado de risco nos anos 1990: logo no início do longa, uma cartela de texto indica que as experiências ali narradas foram testadas na pele do próprio Babenco. Fala-se, por isso, que Diego é seu alter ego. Mas é comezinho reduzir o filme a esse âmbito autobiográfico. Não importa o que se deu na vida de Babenco. Isso só diz respeito a ele e aos seus. Importa sim, a todos (sobretudo a nós, seus fãs) o que esse novo espelha de sua obra, de sua cinematografia. E a simetria é grande…

 

Por isso, vale retomar como bússola nossos Perpétuos Morte e Delírio, inteligíveis em qualquer língua. Em todos os filmes feitos pelo cineasta em seus 40 anos de caso com a ficção, eles estão presentes. Desde seu primeiro longa, O Rei da Noite (1975), quando Tezinho (Paulo José) sonhava uma vida alternativa para se entorpecer de sua velhice e de seu crime, seus personagens deliram para conseguir driblar a percepção do Fim. Basta lembrar que Molina (William Hurt), de O Beijo…, inventava um mundo paralelo com os cacos dos clássicos a que assistiu entre uma sodomia e outra para não se sufocar com a cadeia. E é na boca de O Beijo… que Babenco vai buscar a saliva para umedecer o relato da luta de Diego para viver.

Maria Fernanda Cândido vive Lívia, mulher de um cineasta às portas da Morte

Maria Fernanda Cândido vive Lívia, mulher de um cineasta às portas da Morte no filme de abertura da Mostra de SP

Sustentado por um esqueleto de adamantium xerocado da vivência de Babenco, Meu Amigo Hindu caminha a partir de sequências entre o tormento e a bonança: algumas que doem, outras que aliviam. A festa de casamento de Diego e Lívia (Maria Fernanda Cândido, à moda das mulheres de Visconti) e o ajuste de contas entre ela e o cunhado Antonio (Guilherme Weber) tateiam a laje do desastre iminente, deixando na plateia a sensação de uma erupção de rancor a qualquer instante: o que eleva a temperatura e o senso de risco. Já as cenas todas nas quais Diego lida com o menino indiano que dá nome ao filme (vivido por Rio Adlakha) caminham pela planície do lirismo, para dar de comer à porção delirante que alimenta a fauna do cineasta. Há ainda as tomadas de excelência com “E” nas quais Selton Mello põe o longa no bolso contracenando com Dafoe de igual para igual na pele de um sujeito misterioso, chegado de um Além ateu, com quem Diego joga xadrez em alusão a O Sétimo Selo (1957), de Bergman.

 

Aliás, alusões cinéfilas o filme tem de sobra, alguma conscientes, como na cena em que Babenco veste um corpo (e que corpo!) feminino com saudades de um musical clássico (não pergunte que filme é nem de quem é o corpo: essa é a virada mais bela do roteiro). E há as inconscientes: o filme tem um odor de morte que lembra Trinta Anos Esta Noite (1963), de Louis Malle. Nessa mescla, entre o que foi sabido e o que é intuído, conta mais uma epiderme em tons de marrom e vinho, as cores primárias do alfabeto plástico de Babenco, na qual o cineasta cobre cada plano, de modo a traduzir em imagens qual rascante é o espírito de seu personagem. Não se esquece de que Diego é cineasta, ou seja, um homem que vive de arte. Trata-se de uma trama sobre um artista que se apega ao cinema para sobreviver: “Me deixe fazer mais um filme, pelo menos”, clama ele ao enigma vivido por Selton, no leito onde está convalescente.

Babenco dirige Denise Wainberg e Dafoe (mãe e filho nas telas)

Babenco com Denise Wainberg e Dafoe, mãe e filho na trama

Num elenco estrelado, Babenco rende loas ao melodrama e à comédia burguesa: Dan Stulbach, como amigo cineasta que fez um filme ruim, tem minutos de brilho que ficam na nossa córnea até o fim da projeção. E Bárbara Paz dá ao terço final um fôlego digno dos grandes romances de Kim Novak – a atriz gaúcha (em estado de graça) faz lembrar a loura de Hollywood no melhor de si em Férias de Amor (1955). Ela é um dos vértices que incrementam o coeficiente trágico do apetite artístico de Diego.

A arte de Diego vira um amalgama com a arte de Babenco: basta a cena em que o personagem interrompe a oração de uma morena de vestes indianas tirando sua roupa para que se perceba o quão feroz é a poética de Meu Amigo Hindu. Há fades onde deveria fazer contraplanos, em diálogos prejudicados pelo cansaço físico de Diego: é um espasmo que, na tela, rende linguagem, coesão, experimentação. Há pelo menos três indícios de fim, sendo que cada um deixa uma sensação de “quero mais”.

Diego não é Babenco. Diego é um além-Babenco: personagem dos grandes que fica para o cinema brasileiro como uma aula de autogeografia: a partir dele, fala-se do relevo que nossa cinematografia criou e consumiu a partir dos filmes que o argentino rodou de Lúcio Flávio, O Passageiro da Agonia (1977) para cá. A partir dele, a estética anos 1980 que Babenco antecipou uma década antes ganha contornos mais profundos ao revirar seus próprios medos, suas falências, sua perseverança. Meu Amigo Hindu vem dizer que Babenco vive… e a Mostra de São Paulo também. E vivos, os dois alimentam nossos sonhos. E a fé no cinema.

Atenção: Meu Amigo Hindu terá nova sessão no dia 25, às 21h, no CineArte.