‘Aves de Rapina’: o ‘Corra, Lola, Corra’ da DC

‘Aves de Rapina’: o ‘Corra, Lola, Corra’ da DC

Rodrigo Fonseca

05 de fevereiro de 2020 | 15h52

Margot Robbie coproduz e protagoniza esta delirante incursão na DC no submundo de Gotham City e seus arredores

Rodrigo Fonseca
Amparado em um superpoder capaz de matar qualquer filme de super-herói de inveja – a fotografia de Matthew Libatique – e embalado numa capa de irreverência moral incompatível com o padrão Marvel de produção, o feérico “Aves de Rapina: Arlequina e sua Emancipação Fantabulosa” seduz o olhar e detona reflexão com uma estética de representação da violência que desafia as cartilhas do filão “vigilantes mascarados” e o mesmo o legado da pancadaria de ícones como Van Damme & cia. Sua narrativa é centrada numa jornada que tem como foco – bem simples – a busca pela satisfação do desejo de sua protagonista: a pombajírica Arlequina, vivida por Margot Robbie num desempenho do quilate de um diamante raro. Essa satisfação se traduz na forma de uma travessia de 1h49m que evoca “Corra, Lola, Corra” (1998), do alemão Tom Tykwer, pela forma como sua realizadora, a sino-americana Cathy Yan, aposta no esgarçamento do Tempo, espatifando sua lógica mais cartesiana entre dobras e torções que favorecem situações hilárias. Egressas de curtas cheios de tensão como “According to my mother” (2016) e de um único longa, o premiado “Dead pigos” (2018), Cathy aproveita a argamassa quadinística da DC Comics (e a leveza da editora e do estúdio Warner em relação a travas morais, vide o oscarizável “Coringa”) para oxigenar as veias da ação como gênero, mais um ou menos como a franquia “John Wick” conseguiu: orquestrando um videogame em forma de filme. Mas um videogame que dá game over no sexismo, celebrando a sororidade.

Com uma excelência na direção invejável, a cineasta Cathy Yan dá instruções a Margot Robbie em “Aves de Rapina: Arlequina e sua Emancipação Fantabulosa”

Derivado do sucesso de “Esquadrão Suicida” (2016), do qual toma emprestado sua harpia mais feroz, “Birds of Prey: And the Fantabulous Emancipation of One Harley Quinn” estreia nesta quinta dando à sua roteirista Christina Hodson (de “Refém do medo”) os holofotes da glória, pois sua escrita aproveita o que de melhor as HQs ligadas ao universo do Batman oferecem de politicamente incorreto. Na trama, recém-abandonada pelo Palhaço do Crime (o de Jared Leto e não o soberbo clown de Joaquin Phoenix), Arlequina vira alvo do líder mafioso Roman Sionis, o Máscara Negra, um afetado vilão vivido por Ewan McGregor (o único desacerto do longa, por sua caricata composição). Essa caçada se dá no momento em que ela estava a um passo de morder sua iguaria favorita: um sanduíche de ovo besuntado de calorias. O tal lanche será a chave para todo o périplo de peripécias que Hodson escreveu, mostrando a luta da femme fatale para encontrar um diamante que o chefão almeja. A pedra está depositada no estômago da ladra mirim Cassandra Cain (vivida por Ella Jay Basco) e o capanga xodó de Sionis, o psicopata misógino Zsasz (um dos inimigos mais assustadores do Homem-Morcego, encarando inteligentemente por Chris Messina), está disposto a fazer uma cirurgia na garota. Arlequina também faria algo do tipo, mas vai contar com o apoio de três outras mulheres, com bondade real no coração, que vão colocar a colombina no caminho do acerto. Uma delas é a vingativa Caçadora (Mary Elizabeth Winstead, com coreografias de luta dignas de “Kill Bill”). A outra é a policial Renee Montoya, que resgata Rosie Perez, a eterna Perdita Durango dos anos 1990. A terceira, e melhor personagem, é a cantora Dinah Lance, a Canário Negro (papel de Jurnee Smollett-Bell, um achado, em sua interpretação doída), única a ter dotes super-humanos: no caso, uma rajada sônica. Esse time dá a DC uma trupe particular e adulta de anti-heroínas que garantem um colorido irreverente ao cenário da fantasia. É um belo filme de arrancada para longas decalcados de quadrinhos: sórdido, politizado e com potência plástica. E a (quase) cena pós-créditos é impagável.

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