‘Auto de resistência’ em debate

‘Auto de resistência’ em debate

Rodrigo Fonseca

15 de julho de 2018 | 11h30

Rodrigo Fonseca

Cinéfilos cariocas, compromisso inadiável para esta segunda-feira: neste 16 de julho, às 19h, no Estação Net Botafogo 1, vai ter uma projeção especial do documentário “Auto de Resistência”, seguida de debate com o casal Natasha Neri e Lula Carvalho (os diretores do premiado longa-metragem); Jacqueline Muniz, antropóloga – DSP/INEAC-UFF; Renata Neder, coordenadora de pesquisa da Anistia Internacional Brasil; e Gláucia dos Santos, moradora do Chapadão, mãe de Fabrício, morto aos 17 anos em 2014, integrante da Rede de Comunidades e Movimentos contra a Violência. Trata-se de um dos longas nacionais mais relevantes do ano.

Raras vezes o prêmio de Melhor Filme do É Tudo Verdade, a maior maratona documental das Américas, foi tão bem dado quanto este ano, em que coroou a reflexão foucaultiana, acerca do abismo entre os verbos “vigiar” e “punir”, trazida por “Auto de Resistência”. Natasha opera no campo das Ciências Sociais e Lula é um dos jovens fotógrafos mais disputados pelo cinema mundial hoje, com marcos como ‘Tropa de Elite’. Juntos, eles “emitiram” um atestado de nossa insegurança pública. Numa reação ao atual estado de impunidades e inércias da política brasileira, o longa dirigido por Natasha e Lula está para os anos 2010 como o cult “Wilsinho Galiléia” (1978), de João Batista de Andrade, esteve para a reta final da ditadura militar no país. Assim como o docudrama de João Batista – que denunciava a prática dos militares de promover a bestialização das periferias para legitimar a institucionalização do “Estado Fardado” -, este febril ensaio investigativo sobre a Lei expõe modos de se massacrar as massas como práticas de dominação. O cordeiro é o contribuinte pobre que sustenta a ave de rapina com impostos.

Com a ajuda de imagens raras (inclusive da vereadora assassinada Marielle Franco), muitas delas feitas de celular, o longa discute a morte de moradores de áreas mais pobres do Rio de Janeiro em intervenções policiais equivocadas. Por “equívoco” entenda “assassinatos de inocentes”. Ao analisar sociologicamente a mortandade nas mãos da PM como forma de exclusão, o filme compartilha com o espectador um estudo minucioso sobre corrupção policial e sobre o exercício de perseverança no pleito pela Justiça.
Com engenhosidade dialética, a taquicárdica edição feita por Marília Morais ajuda o trabalho de investigação de Lula e Natasha a conversar, de modo frontal, com “Notícias de uma Guerra Particular” (1999) e “Ônibus 174” (2002) – docs. essenciais para entendermos nossos desgovernos. Eis um filme que se candidata à História em sua mirada geopolítica. Um filme do desespero que dimensiona o buraco no qual o Brasil se perdeu.

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