Aulas com o professor Liporage no Telecine

Aulas com o professor Liporage no Telecine

Rodrigo Fonseca

14 de março de 2020 | 09h41

Moisés Liporage tem feito um trabalho precioso de análise e reflexão no Telecine

Rodrigo Fonseca
A partir das 14h15 deste sábado, com a projeção de “A morte passou por perto” (1955), uma maratona televisiva de Stanley Kubrick (1928-1999), com direito a “Glória Feita de Sangue” (1957) e “Spartacus” (1960), vai animar a grade do Telecine, num momento em que a emissora encontrou um caminho didático, sem “cuspe-giz”, para reviver e iluminar momentos seminais da História do Audiovisual amparada no carisma e na sabedoria de Moisés Liporage. Isso sem contar o reforço mais jovial (e igualmente inteligente) das análises ensaísticas de Alice Aquino e Caio Muniz (também na web, no YouTube). Mas, nos últimos dias, Liporage, um repórter de tarimba, com anos de cabedal, tem feito entradas (“cabeças”, como se fala nas internas da TV) sobre monumentos da arte cinematográfica com uma precisão e uma delicadeza capazes de sintetizar, em minutos, tudo aquilo que esperar-se-ia de um curso de direção. No ar, entre um filme e outro, há uma rica pensata dele sobre Quentin Tarantino com foco no díptico “Kill Bill” (2003-2004) e a saga da Noiva Uma Thurman, onde o jornalista (arriscaria dizer crítico) faz uma triagem das especificidades dramatúrgicas do diretor de “Pulp Fiction” (1994) desde sua gênese. Em uma outra “cabeça”, dedicada a “Outubro” (1927), Liporage esmiúça conceitos seminais da montagem de Sergei M. Eisenstein (1898–1948) e faz um balanço filosófico da representação do Real no cinema soviético sem jamais incorrer em hermetismos. O que ele diz são pérolas no garimpo da televisão a cabo, dignas de serem estudadas por quem almeja ser cineasta. Algo feito com atenção e precisão, como só se via nos tempos de Adolfo Cruz no rádio e de Paulo Perdigão (o Mestre dos Magos) no jornalismo impresso. Era o caso de o Telecine juntar os debates de Liporage, Alice e Muniz num livro e alimentar a literatura cinéfila brasileira, tão inundada de pretensão, de uma dose de conhecimento aliada à humildade e à ética. Que trabalho lindo o deles.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.