‘Atuar é aprender’, diz Isabelle Huppert em Cannes

‘Atuar é aprender’, diz Isabelle Huppert em Cannes

Rodrigo Fonseca

25 Maio 2017 | 21h22

Isabelle Huppert ao centro da rica família Laurent em “Happy End”: Palma à vista


RODRIGO FONSECA

 

Pelo menos uma sete vezes, em seu papo com o P de Pop, a ganhadora do Globo de Ouro de melhor atriz dramática de 2017 (por Elle), a francesa Isabelle Huppert, repete a palavra “rigor” para se referir ao seu diretor e habitual parceiro Michael Haneke, nas filmagens de Happy End. Um dos mais controversos candidatos à Palma de Ouro do 70º Festival de Cannes, que termina neste domingo, o filme rachou opiniões com sua visão alarmista para a ruína da burguesia europeia, representada por uma família aristocrática cheia de pecados a pagar: os Laurent. Cabe a Isabelle ser a filha, irmã e mãe que encobre os erros de seus parentes e da empresa de seu clã.

“Haneke tem absoluto controle do que se passa no set e no quadro, sem se preocupar em explicar o que está por trás do que filme: a observação dele deste mundo mostra tudo. Eu não tenho a sensação de que os cineastas são professores para mim. Mesmo Claude Chabrol, com quem eu filmei várias vezes, não era um… ‘professor’… era um colega. Filmar é aprender. Aprender pela troca”, disse Isabelle.

Seu nome despertou a curiosidade do Marché du Film de Cannes ao aparecer associado ao novo projeto do (há muito sumido) cineasta irlandês Neil Gaiman (Traídos Pelo Desejo), com quem vai filmar The Widow, com Chloë Grace Moretz, no papel de uma viúva que trava amizade com uma jovem. “Cada papel exige de um um trabalho de corpo diferente, uma respiração distinta. Mas todos me revelam algo sobre mim”, diz a atriz.

Confirmando as expectativas de que seria o filme mais exótico de Cannes em 2017, o português A Fábrica de Nada, de Pedro Pinho, foi muito além do rótulo de estranheza, em sua projeção nesta quinta, na Quinzena dos Realizadores, menos lotada do que de costume, temerosa das quase três horas de duração do longa-metragem. Temos nele uma mistura de musical, documentário, análise econômica com ólogos de prestígio, realismo social, perplexidade e humor. Nele, Pinho narra estratégias armadas por um grupo de operários que se encrespa com a administração de sua indústria (de elevadores) ao notar alguém da gerência roubando máquinas e matérias-primas. Incomodados, eles fazem um levante, que tem um ônus: todos serão obrigados a permanecer em seus postos, sem nada para fazer, enquanto prosseguem as negociações para uma demissão coletiva. No ócio, acontecimentos e ritos nada usuais tomam conta do lugar, ao mesmo tempo em que a falência moral do Velho Mundo é devassada. Parece um I, Daniel Blake com ácido nas ideias e éter na mente.

Pedro Pinho dirige o longa lusitano

Eis um diálogo para se anotar, dito por um operário roqueiro do filme: “A divisão que mais vale pro nosso tempo não é de direita e esquerda. A divisão de hoje é entre outros dois lados. De um lado estão os que se conformam com o mundo como ele está. Do outro estão aqueles dispostos a abdicar do celular, das viagens à Lua, do Tuppeware”.

Neste domingo serão divulgados os prêmios de Cannes. No sábado, o evento projeta o último dos quase 400 filmes de sua seleção: D’Après Une Histoire Vrai, de Roman Polanski, que cancelou todos os seu compromissos de entrevista com a imprensa mundial após a superexposição que teve na festa dos 70 anos de Cannes, na terça. Diretor de cults como O Bebê de Rosemary (1968) e O Pianista (2002), o octagenário mestre franco-polonês investe no suspense uma vez mais, apoiado em um roteiro escrito pelo diretor Olivier Assayas (de Depois de Maio), com base no romance homônimo de Delphine de Vigan. Na trama, Eva Green é uma fã fiel da escritora interpretada por Emmanuelle Seigner (mulher do diretor) que inferniza a vida da autora, a fim de interferir nos rumos de seu próximo romance.

Até agora, os favoritos à Palma de Ouro são 120 Batimentos Por Minuto, do francês Robin Pompillo, Happy End, do austríaco Michael Haneke, e The Square, do sueco Ruben Ostlünd.