‘Atravessa a vida’: lições de inclusão documental

‘Atravessa a vida’: lições de inclusão documental

Rodrigo Fonseca

14 de janeiro de 2021 | 12h16

João Jardim nos sets de “Atravessa a Vida”

RODRIGO FONSECA
Cerca de 16 anos depois de “Pro Dia Nascer Feliz” (2005), um dos mais contundentes filmes sobre a Educação no Brasil, vista ali sob uma personificação de sonhos e projetos, o diretor João Jardim regressa ao universo escolar para um novo aprendizado (em forma de longa-metragem) sobre possibilidades de inclusão e de resiliência às vésperas do ENEM: “Atravessa a Vida”. Apoiado em na delicada engenharia de montagem de Fernanda Rondon, e assistência de edição de Liana Riente, o novo documentário do cineasta responsável po “Amor?” (2010) mergulha no universo adolescente dos jovens de Simão Dias, cidade de 40 mil habitantes no interior sergipano. O Centro de Excelência Dr. Milton Dortas, escola com cerca de mil alunos, representa um recorte das dificuldades e das perseveranças do ensino nacional. Enquanto buscam o projeto de alcançar um ensino superior gratuito, os alunos refletem temas urgentes – dentro e fora de sala de aula – como futuro, depressão, aborto, pena de morte e Ditadura Militar.

O que o universo escolar brasileiro guarda de mais rico em termos dramatúrgicos e o quanto o seu cinema documental te abriu essa fortuna de signos sobre a juventude?
JOÃO JARDIM:
Acredito que dá para fazer muitos filmes a partir do universo escolar brasileiro. Tudo o que é feito sobre esse universo é bem-sucedido: a própria série “Segunda Chamada” e a “Malhação”, que ficou muito tempo nesses temas ligados a escola. É um universo muito rico que, no mundo todo, é aproveitado. O que existe ali é um Brasil muito diferente do que a gente vê, é um lugar de muito potencial. A gente vê pessoas jovens com uma carga emotiva, com carga afetiva, numa vontade de fazer coisas muito grande, lidando com muita diversidade o tempo todo. Não falta drama nas escolas brasileiras para fazermos filmes. É isso que me fascina: aquilo é potência pura. É diferente de um Brasil com mais idade, com pessoas com mais dificuldades.

O que te levou a Simão Dias e que linha de pesquisa guiou sua investigação para o Sergipe? O quanto aquele universo conversa, ainda que num hiato de quase 16 anos no tempo, com os personagens de “Pro Dia Nascer Feliz”?
JOÃO JARDIM:
Eu queria uma escola com mais de mil alunos. A gente queria uma escola que não fosse numa grande cidade e não tivesse a questão da violência urbana interferindo. Queríamos uma escola que fosse arquitetonicamente interessante. Existem poucas assim no Brasil, talvez umas dez, que performam bem no Enem e não sejam escolas que a gente entra para mostrar como as coisas não funcionam. Surgiram algumas e começamos a pesquisar. Eu me interessei por filmar no Nordeste. Acho que é um lugar especialmente pulsante, com uma juventude perseverante e com gana de aprender. As dificuldades ali fazem as pessoas mais perseverantes, nessa faixa etária. A Escola Simão Dias recebeu a gente muito bem. A diretora Daniela Silva recebeu a gente bem desde o princípio. Ela desconfiava, mas achou que era uma coisa interessante. Essa escola no interior de Sergipe atendeu a todos esses pré-requisitos que havia pensado enquanto eu estava pensando no roteiro do filme. Só o fato de ter um prédio em que todas as salas dão para o pátio já é muito rico e interessante. É muito acolhedor, não tem paredes fechando tudo, somente as salas.
Qual é o espaço que a juventude tem como objeto no seu cinema?
JOÃO JARDIM:
Eu me interesso por tudo o que pode dar uma dramaturgia e tenha emoção. Eu faria muitos filmes envolvendo jovens. Documentários, ficção, dramas, pois acho que é uma temática muito rica. Nesse universo da escola, com seus aspectos mais subjetivos, sem focar na questão da educação o que eu busco são as vivências e as relações humanas que se estabelecem ali dentro.

Que filmes a gente pode esperar de você para os próximos meses? Ficção nova à vista?
JOÃO JARDIM:
Com a interrupção do fundo setorial e a paralisação da Ancine, todos os meus projetos estão parados e estou tentando pensar em novas coisas para o streaming, mas nem tive o tempo necessário em função de outras coisas que estavam se encerrando. O principal que está acontecendo é “O Fim da Inocência”, um projeto com a Globo Filmes. É a história de uma judia, a Rebeca, que, em 1915, vem ao Brasil atrás do marido dela. Quando chega, ela descobre que ele faleceu. Sequestram o filho dela e ela é forçada a se prostituir. É uma história que tem como plano de fundo as prostitutas polacas. Uma história ficcional.
Seu “Janela da Alma” está aniversariando. O que aquele belo filme, feito em parecia com Walter Carvalho, trouxe de mais rico pra você?
JOÃO JARDIM:
“Janela da Alma” completa 20 anos E A gente quer, assim que a Cinemateca abrir, tirar os negativos de lá e fazer uma remasterização do filme, pra colocá-lo em circulação outra vez. É um filme muito atual diante dessa confusão que acontece hoje.

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