Até o NY Times se rende a ‘Dunkirk’

Até o NY Times se rende a ‘Dunkirk’

Rodrigo Fonseca

22 Dezembro 2017 | 08h22

Kenneth Branagh é o comandante que testemunha a retirada dos soldados ingleses de um mar de ódio na II Guerra revisitada pelo esplendor sinestésico de Christopher Nolan em “Dunkirk”

Rodrigo Fonseca
Foi bonito abrir o Facebook ainda nas primeiras horas do dia e encontrar Dunkirk na lista dos melhores filmes de 2017 do The New York Times. Há umas três semanas, o trabalho seminal de Christopher Nolan ainda apareceu na cabeça da enquete anual de excelências cinematográficas da Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro, a ACC-RJ. Inclua ainda no pacote de aclamação três indicações ao Globo de Ouro, que sai dia 7 de janeiro: melhor filme, direção e trilha sonora.

Tudo nessa produção de US$ 100 milhões, que arrecadou US$ 525 milhões nas bilheterias são sabores intensos. Basta lembrar da geleia de frutas vermelhas que cobre o pão duro devorado pelos soldados de Dunkirk uns instantes antes de um torpedo balear o navio onde eles estão, a se esconder de um cerco aéreo nazista. O tal torpedo gera na tela um efeito de tremor que reverbera pela sala de cinema como se o público estivesse em um simulador. É um efeito parecido com o que Gravidade (2013), de Alfonso Cuarón, dava ao espectador, só que mais cru… algo propositalmente mais áspero. Visto numa sala de cinema, o longa-metragem parece uma trincheira viva, na qual dá pra sentir o gosto da geleia, assim como dava pra ouvir os ruídos (no horizonte mais distante) dos aviões germânicos. Resfolego bem parecido se dá na sequência na qual um piloto do Reino Unido, caído no mar, luta contra a água salgada que invade seu teco-teco naufragado, incapaz de abrir a janela que o cobre. É um clima de pânico generalizado, de exasperação, que invade o écran já nos minutos iniciais, na qual o jovem soldado Tommy (Fionn Whitehead) tenta pular um muro, fugindo dos asseclas de Hitler em seu encalço. A abertura é seca, sem firulas melodramáticas típicas dos ufanismos de II Guerra: tem bala de fuzil voando, correria comendo solta, sangue em esguichos moderados, contudo, zero heroísmo. E por aí vão 1h46 minutos de uma experiência estética – a mais potente do Cinema em 2017 – que nem parece filme, mais parece um thriller. Começa brusco e acaba assim… num estalo.

E era essa a pretensão do mais hostilizado dos grandes realizadores autorais revelados dos anos 2000 para cá: usar o ambiente do confronto entre os Aliados e o Eixo para ir além das convenções do gênero “filme de guerra” e produzir um protótipo de pura e vívida invenção narrativa, no qual a cinemática fosse soberana. Deu certo. No mais ousado trabalho de sua carreira como realizador, o inglês Christopher Jonathan James Nolan põe a ação física num pedestal de nobreza, evitando diálogos e dispensando protagonismos. Como disse em recente entrevista à revista Sight & Sound, na qual apontou Ouro e Maldição (1924), de Eric von Strheim, como seu pilar, ao lado de Aurora (1927), de F. W. Murnau, o realizador de 46 anos explicou seu desejo de evocar a era muda do cinema exercitando um tipo de storytelling no qual a imagética falasse por si, indo além dos empréstimos da Literatura. E outra, disse à S&S que buscou evitar a fórmula do “exército de um homem só” para falar de esforços coletivos. Prometeu e cumpriu. E bem. Se a batalha de Dunquerque, ocorrida de 25 de maio a 4 de junho de 1940 é vista por muitos historiadores como uma espécie de prólogo para a ofensiva inglesa nos fronts antinazistas, o longa-metragem de Nolan emulou da História esse formato de narrativa introdutória, de um flash do “evento que redefiniu nosso Tempo”, que é como o longa se reporta à Grande Guerra nº2.

Quase não se fala no filme. Tommy mesmo diz cerca de dez frases e não é o principal. Ninguém é. Há quatro núcleos, todos com a mesma importância: o de um comandante que aguarda a retirada das tropas de Dunkirk (papel de Kenneth Brannagh, em uma iluminada atuação); o esforço de Tommy para sobreviver; o de um navegador civil (Mark Rylance) disposto a enfrentar os bombardeios para ajudar jovens soldados; e a aventura de um piloto (Tom Hardy, sempre impecável) para ajudar o povo dos navios a se safar das artilharias aéreas nazistas. Em nenhum desses núcleos há um discurso político ou uma referenda épica. Só o personagem de Rylance (em uma comovente sequência de altruísmo) tem algo de melodrama em sua medula.

Chistopher Nolan no set de “Dunkirk”

Não há o que falar. A guerra fala por si. A trilha sonora de Hans Zimmer e a fotografia de Hoyte Van Hoytema só galvanizam o que a barbárie humana nos deu. De resto, há autoralidade fílmica, pois como sempre há em cena os dois elementos que guiam a dramaturgia cinematográfica de Nolan: culpa e necessidade de controle. Há uma mistura covalente de ambos no combustível afetivo que alimenta a fúria visual de Dunkirk, incomparável como espetáculo entre todos os filmes lançados em 2017 até aqui. Na bifurcação de elementos essenciais à grafia do diretor, o primeiro a se apresentar como argamassa onipresente na obra de Nolan foi a culpa. E tal onipresença, somada a um enorme talento para esculpir mágoas e ressentimentos, tem feito dele um realizador autoral. De Amnésia (2000) ao onírico A Origem (2010), passando pelo subestimado Insônia (2002) e por toda a trilogia Batman (2005-12), é caro a ele transitar por um limite de dívida moral. Há em seus personagens a sequela de uma angústia que os impele a ações eticamente duvidosas. A angústia aqui é a da História (o chamado de Winston Churchill, o líder parlamentar britânico para que se rechaçasse a invasão hitlerista) e as dores pessoais de cada um, como a vaidade do piloto vivido por Hardy ou o passado melancólico do navegador dado a Rylance.

 

Do lado esquerdo do ringue da invenção nolaniana, aparece a necessidade atávica do controle em seus heróis, os mascarados e os de cara limpa. Do investigador tatuado e amnésico vivido por Guy Pearce há 17 anos ao Homem-Morcego com a fleuma galesa de Christian Bale, passando pelo astronauta de Interestelar, os personagens centrais da obra de Nolan são movidos por uma onipotência que fazem deles os senhores da certeza. Todos acreditam ter pleno domínio da engenhoca chamada mundo no microcosmos onde vivem. Não é diferente com muitos dos soldados anônimos que caem à cada cena de Dunkirk ou mesmo a do comandante que pode dar a Brannagah um Oscar de melhor coadjuvante.

 

Na mistura dessas duas obsessões autorais, Nolan faz seu filme mais corajoso, fitando a História como Artaud olhava sua plateia: suicidada pela sociedade, no torvelinho da memória, a sobrevivência e o companheirismo se tornaram coadjuvante no discurso da II Grande Guerra. É hora de elas subirem de suposto e narrarem seus feitos numa Europa em chamas. Nolan deu a elas esse estrelato. E nos legou, com isso, a mais pura das transcendências poéticas.